Deputados eleitos com poucos votos conquistam elogio na Câmara; dentre eles há novatos no meio parlamentar

Seis dos deputados que têm liderado os trabalhos desde que chegaram ao Congresso Nacional em 2011 quase não puseram o pé lá.

Esses parlamentares tiveram relativamente poucos votos e, por isso, só conseguiram um assento na distribuição conhecida como sobras de vagas – espécie de repescagem eleitoral. Ainda assim, são considerados os cabeças da atual legislatura, segundo o Departamento Parlamentar de Assessoria Parlamentar (Diap), que faz o levantamento desde 1994.

"Cabeça é um parlamentar que forma opinião, tem habilidade para conduzir", afirma Antônio Augusto de Queiroz, analista político e diretor de documentação do Diap, Esse posto não vai necessariamente ser ocupado por quem fez sucesso nas urnas. "Isso [ votação expressiva ] não se transforma em poder político. É uma característica que decorre da desinformação do eleitor."

Ao todo, 67 dos 513 deputados entraram pelas sobras de vagas na eleição de 2010, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. Dentre eles, estão parlamentares que foram considerados promissores na análise do Diap de 2014, como Jean Wyllys (Psol/RJ) – colunista do iG  –, Jorge Bittar (PT/RJ), Erika Kokay (PT/DF) e Sebastião Bala Rocha (PDT/AP) (veja lista completa abaixo).

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Seis, entretanto, entraram para a lista de 100 deputados mais influentes do Congresso pelo menos uma vez entre 2011 e 2014. Dentre eles, estão parlamentares com mais de uma década na Câmara, como Miro Teixeira (PROS/RJ) e Dr. Rosinha (PT/PR). Mas há até mesmo um estreante em Brasília, como o auditor fiscal da Receita e sindicalista Amauri Teixeira (PT/BA).

Em suas próprias contas, Teixeira comandou em 2013 mais sessões da Câmara do que o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB/RN), está à frente da Comissão de Seguridade Social e Família (CSSF) e chegou a relatar uma Emenda à Constituição, que precisa de 60% dos votos dos deputados e dos senadores para ser aprovada.

Com 63,7 mil votos – 37% do número mínimo de votos que elegeriam um deputado na Bahia –, Teixeira chegou a Brasília em 2011 graças à votação expressiva de sua coligação, puxada pelo deputado Rui Costa (PT). No ano seguinte, porém, já estava na lista de cabeças do Congresso do Diap, em que se mantém desde então, sobretudo por ser um bom articulador.

Nesta segunda-feira (4), a primeira após o recesso de julho, Teixeira estava na Casa, apesar de ser ano eleitoral.  

"Eu tenho aparecido numa posição destacada. Suponho que seja por uma característica minha de trabalhar muito com seriedade, de valorizar o locus central de atuação parlamentar que é aqui", diz. "Essa história de ficar trabalhando na base..."

Guilherme Campos Júnior (PSD/SP) foi o primeiro líder de seu partido na Câmara, que hoje detém a quarta maior bancada da Casa. Empresário de Campinas, no interior paulista, o parlamentar contabiliza como um de seus feitos a relatoria do projeto que obriga a discriminação dos impostos nas notas fiscais. 

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Eleito com 112,8 mil votos – 36% do mínimo necessário para garantir uma vaga de deputado em São Paulo –, Campos está no segundo mandato. Em 2012, foi considerado um dos cabeças do Congresso pelo Diap, que o descreve como bom articulador e negociador.

"Eu meço minha atividade por dificultar os projetos que venham complicar a vida das pessoas", diz, referindo-se a outra de suas conquistas: a redução da multa para empresas que não se adequassem ao Siscoserv, mecanismo de acompanhamento do setor de serviços na balança de pagamentos.

Deputados não acreditam que se elegerão sozinhos

O bom desempenho reconhecido no Congresso, entretanto, está longe de ser uma garantia de uma vitória mais folgada neste ano. Nem Campos nem Teixeira acreditam que vão conseguir atingir, sozinhos, o número mínimo de votos que garante uma vaga na Câmara dos Deputados.

"Não necessariamente aquele que tem a melhor atuação parlamentar tem a melhor atuação eleitoral", afirma Campos. "Com todo o respeito ao deputado Tiririca, você tinha essa expectativa [ de um bom desempenho parlamentar ] do Tiririca [ que teve a maior votação do País, mas passou apagado pelo mandato ]"?

Cabeças do Congresso entre 2011 e 2014 que entraram pela sobra de vagas em 2010
Deputado Partido Ano em que foi cabeça do Congresso
Abelardo Lupion DEM/PR 2013
Amauri Teixeira PT/BA 2012 a 2014
Vieira da Cunha PDT/RS 2011 E 2014
Dr. Rosinha PT/PR 2011 a 2014
Guilherme Campos PSD/SP 2012
Miro Teixeira PROS/RJ 2012
Guilherme Campos PSD/SP 2013 e 2014

Para o deputado, o descasamento entre sucesso eleitoral e sucesso parlamentar decorre da falta de interesse de quem vota pela atividade parlamentar. 

"Eu tentei suprir [ a falta de interesse ] com reuniões, na mídia social, procurando os meios de comunicação social, mas o ponto comum de tudo isso é o desinteresse das pessoas."

Teixeira, do PT da Bahia, avalia ser necessário tornar mais igualitárias as condições entre os candidatos a cargos eletivos, por meio de financiamento público das campanhas, imposição de limite de gastos e retirada dos veículos de comunicação do controle de políticos.

"Um dia um eleitor ligou para a minha mãe e perguntou: o Amauri não é candidato, não? Eu não tenho muro pixado, não tenho carro de chão, não a inaugurei comitê", afirma Teixeira. "Estou convencido, mais do que nunca, de que o parlamentar do meu perfil tem dificuldade de captar dinheiro."

Deputados em ascensão que chegaram ao Congresso pela sobra de vagas em 2010
Deputado
Partido
Alfredo Sirkis PSB/RJ
Érika Kokay PT/DF
Nilson Leitão PSDB/MT
Jorge Bittar PT/RJ
Jean Wyllys PSOL/RJ
Sebastião Bala Rocha SD/AP


*Uma versão anterior desta reportagem informou o número incorreto de votos obtido pelo deputado Guilherme Campos Júnior (PSD/SP) na eleição de 2010. O número correto é 112,8 mil.

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