Empresários e economistas ouvidos pelo se dividem sobre as dificuldades impostas a quem presidir o País a partir de 2015

É difícil encontrar algum consenso sobre quais seriam a medidas impopulares fundamentais para 2015 na esteira do que anda propondo o debate eleitoral. Economistas e empresários falam a respeito de mudanças na taxa de câmbio, liberação de preços controlados e até medidas que visam a aumentar o desemprego como forma de combater o crescimento da inflação e ajudar o País a voltar a crescer. O leque é amplo, da mesma forma que diferem as percepções sobre o tamanho do problema que o Brasil terá de enfrentar em 2015.

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José Márcio Camargo, economista da Opus Gestão de Recursos, tem uma visão mais crítica de 2015. “Realmente acho que não será um ano fácil. Se terá de tomar medidas impopulares, é outro problema”, resume. Há, entretanto, os que acreditam que o remédio para o próximo ano não terá de ser necessariamente tão amargo. “Vai ser um ano de desafios, mas nada que uma boa gestão não possa superar. O Brasil, a despeito dos seus desafios, tem boas condições de saída”, diz Antonio Lacerda, professor doutor do programa de pós-graduação em economia política da PUC de São Paulo. “Não vejo que seja impossível de ser administrado”, acrescenta.

Embora reconheça problemas na economia, André Biancarelli, professor do Instituto de Economia da Unicamp, relativiza o pessimismo de acordo com a conjuntura eleitoral. “Faz parte da tentativa de criar um clima mais pessimista atualmente. Não compartilho da ideia de que a economia brasileira está numa situação tão ruim. Acho que temos problemas, o crescimento de fato é baixo e vem caindo, 2014 com certeza será um ano pior do que 2013, mas não acho uma boa essa projeção do ajuste muito duro no ano que vem”, afirma.

Tripé do mal

Carlos Buch Pastoriza, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), fala na necessidade de se combater o que batizou como “tripé do mal”, que causaria os problemas na economia do Brasil. “Principalmente para a indústria, que é a que mais sofre por causa dos componentes do chamado custo Brasil, o que é preciso é atacar de maneira muito forte o que chamamos aqui de ‘tripé do mal’, que é o que mata a indústria brasileira. Câmbio sobrevalorizado, juros de mercado mais altos do planeta e a carga tributária, que é altíssima face ao baixo retorno que a sociedade tem dos serviços públicos”, declara. “Se corrigir isso, esses são os principais componentes do custo Brasil”, diz em referência ao termo cunhado para descrever os entraves para o investimento no País e para a competitividade da indústria nacional.

Pastoriza faz referência a um "choque de gestão". “A gente entende que o governo, no ano que vem, em janeiro, precisa começar com uma vontade muito grande de fazer algumas reformas que entendemos que são impopulares, mas que tem de ser feitas para liquidar com esse ‘tripé do mal’. Tem de começar com uma forte reforma política, que diminuísse drasticamente o número de partidos e o número de ministérios”, critica. “Fazendo isso, seria um ‘choque de gestão’ no Executivo e no Legislativo. Tornaríamos o governo federal administrável, gerenciável, coisa que hoje ele não é, com esse gigantismo”, opina.

O presidente da Abimaq traça um cronograma a partir do enxugamento da máquina estatal que poderia combater o "tripé do mal". Segundo ele, a medida, aliada a uma reforma previdenciária, possibilitaria uma série de economias que poderia levar a acabar em médio prazo com o rombo do sistema previdenciário e levar a União a ter um orçamento equilibrado ou até superavitário. A tese dele é de que, com isso, o País não precisaria “ir com tanta força no mercado financeiro para pegar novos empréstimos”. “Não seriam necessários os juros para cima, eles poderiam cair”, resume. “Os juros baixando, deixaria de atrair tanto capital externo especulativo, que entra no Brasil para investir nesses juros exorbitantes. Mexendo nisso, o dólar começaria a subir (frente ao real) naturalmente, começaria a haver um ajuste do câmbio”, avalia, acrescentando que sobraria dinheiro, com orçamento superavitário, para o governo investir em infraestrutura, saúde e educação e até para diminuir tributos.

Inflação

Na opinião dos economistas ouvidos pelo iG , a inflação veio para ficar e o atual patamar não será revertido no curto prazo. “A inflação brasileira é alta, é resistente, mas não é muito diferente daquela (verificada) nos países em desenvolvimento”, diz Lacerda, que cita as taxas da “África do Sul com quase 6%, Rússia com mais de 6%, Índia com 7%”. “Esses países têm um componente estrutural da inflação. Então você terá de conviver com uma certa inflação durante um período. O Brasil nunca vai ser a Suíça, pelo menos nas próximas décadas, mas evitar que haja uma deterioração das expectativas é o desafio do próximo governo; passar a mensagem de que a inflação será controlada. Isso implica em mantê-la próxima de 6% nos próximos dois anos.”

Já Camargo acredita que só o reajuste dos chamados preços administrados, como da gasolina e da energia elétrica, exigirá um aumento da taxa de inflação da ordem de algo entre 1,5% e 2%. Ao falar sobre a necessidade de crescimento como maior problema da economia para o próximo ano, Biancarelli sinaliza que a inflação no patamar dos 6% deve ficar por mais algum tempo. “A inflação é um incômodo, mas ela não é, nem de longe, fora do controle.” Ele diz que há outros motivos para a inflação ser verificada no Brasil. Segundo ele, a taxa de juros teria pouco efeito direto sobre, por exemplo, a inflação provocada pelo preço dos alimentos. “Os preços sobem por fatores climático. A taxa de juros tem efeito muito indireto sobre isso.” Biancarelli acredita que os brasileiros terão de conviver com alguma inflação. “Não vamos conseguir ter uma inflação de 3% tão cedo ainda”, prevê.

Câmbio

Na opinião de Antonio Lacerda, o câmbio é o maior desafio de 2015 para o próximo presidente. “O maior desafio é a taxa de câmbio. Nos últimos 20 anos, o Brasil se acostumou a usar o câmbio como um instrumento de controle de curto prazo para a inflação, barateando importações, e não como instrumento de desenvolvimento, ao contrário do que a China, a Coreia do Sul, Estados Unidos, Alemanha e Japão fizeram na sua história”, declara. “Esse recurso está esgotado ao meu ver porque você tem um nível de desindustrialização muito grande, um déficit externo muito expressivo, de quase 4% do PIB, e precisa ser corrigido e é o mais difícil de fazer”, acrescenta. “Não sei e ninguém sabe qual o nível ideal. O Banco Central tem de ir testando os níveis de uma forma gradual para não gerar grande turbulência, mas corrigir o câmbio”, defende Lacerda.

“Cambio não está suficiente para recuperar a competitividade da indústria brasileira, mas o câmbio de dois anos para cá já se desvalorizou num patamar razoável”, avalia Biancarelli. O economista prega muita cautela ao abordar o tema câmbio. Ele chama a atenção para possíveis “efeitos desestabilizadores muito grandes” e defende um ajuste de forma a colocar o câmbio em patamar mais competitivo, mas de forma cuidadosa. “O patamar de taxa de câmbio que ajudaria a reconquistar a competitividade da indústria brasileira é uma coisa muito diferente do que a gente está vivendo hoje. Para beneficiar a indústria, a desvalorização precisaria ser muito cavalar”, pondera. “Diria que para competir no mercado internacional ou mesmo para proteger o mercado doméstico da concorrência chinesa, nosso câmbio não poderia estar na casa de R$ 2, certamente deveria estar na casa de R$ 3 ou mais. Mas não tenho a menor ideia e ninguém tem.”

O setor de supermercados também cita a necessidade de mudanças no câmbio e defende que isso seja feito de forma controlada. “Acho que o câmbio tem de ter previsibilidade. Para uma economia como está ocorrendo hoje, se você tem uma China que controla o câmbio, você tem de controlar também. Não pode vir com política dizendo: ‘Deixa correr porque é o mercado que vai decidir.' A China não deixa isso acontecer”, defende Honda. “Não pode deixar uma taxa de câmbio muito volátil porque isso inibe inclusive o investimento”, declara ele, que diz que a Abras está preocupada com as perspectivas de crescimento do setor para o próximo ano.

Desemprego

Camargo tem talvez uma das receitas mais amargas para mudar a conjuntura econômica do País no próximo ano. Ele diz que o remédio poderia passar pelo aumento das taxas de desemprego. “A taxa de desemprego está muito baixa e isso faz com que os salários nominais cresçam 9% ao ano. Como os preços dos serviços acompanham o crescimento dos salários nominais, os preços dos serviços também estão crescendo 9% ao ano. Consequentemente você tem uma enorme mudança de preços relativos contra os preços do setor industrial, que estão aumentando 3% ao ano. Então, está ficando cada dia mais caro produzir qualquer coisa no Brasil, o que significa que você está reduzindo a competitividade e gerando uma desindustrialização da indústria brasileira. Se você quiser resolver esse problema, você terá de aumentar a taxa de desemprego para que os salários cresçam, em vez de 9%, 5%, de tal forma a evitar que continue acontecendo essa mudança de preços relativos que está diluindo a competitividade da indústria brasileira”, receita.

O economista da Opus dá a receita para aumentar as taxas de desemprego de forma a contribuir com a recuperação da indústria. “A primeira forma é aumentar o superávit primário. Isso é a primeira coisa fundamental. Isso diminui a demanda da economia e, consequentemente, faz com que a diminuição da demanda gere em algum momento aumento na taxa de desemprego. Isso num primeiro momento. Num segundo momento, o setor privado ocupa os espaços”, explica. “Vai ter de diminuir a oferta de crédito vinda dos bancos públicos, porque os bancos não aguentam mais. Você tem uma alavancagem extremamente grande dos bancos e eventualmente o governo terá de socorrer os bancos públicos, Banco do Brasil, Caixa, BNDES etc”, avalia ele, que sugere um terceiro elemento nessa composição: “Aumento da taxa de juros.”

“A liquidez internacional está diminuindo. Isso vai fazer com que a taxa de juros lá fora aumente e deverá gerar alguma pressão sobre a taxa de câmbio, o que vai gerar um processo inflacionário, novamente, forçando o Banco Central a aumentar a taxa de juros aqui dentro para controlar a inflação”, afirma Camargo. “Pode ser um ano difícil, realmente”, prevê o economista.

Reformas e preços controlados

Sussumu Honda, presidente do conselho consultivo da Associação Brasileira de Supermercados, defende que o País só poderá desatar o nó na economia se fizer as reformas que não tem feito. E diz que isso precisa ser um movimento rápido do próximo governo. “Governo que não faz mudança no primeiro ano não faz mais. Segundo ano em diante já começa a ter um olho na reeleição, então fica muito difícil”, afirma. “Temos falado muito da questão das reformas. Não tivemos, depois da era Fernando Henrique, praticamente não mexemos. O Brasil conseguiu ter uma trajetória boa de crescimento com o Lula, mas acho que temos de voltar os olhos para a questão das reformas”, diz ele, que menciona reformas política e trabalhista.

“O crescimento não está ocorrendo, os mecanismos que o governo tem utilizado, me parece, estão se esgotando dentro desse ciclo que tivemos. E o caminho certamente é você ter um ajuste fiscal. Temos um nível de gastos certamente acima daquilo que você deveria ter para que você pudesse estar incentivando inclusive o investimento. O governo não tem esse recurso mais”, avalia Honda. “Temos uma série de situações que precisam ser revistas”, critica.

Camargo diz que, para resolver o problema, é preciso fazer uma série de reformas “que não são fáceis de fazer e exigem um enorme capital político”. “Reforma da legislação trabalhista, tributária, da previdência, educacional. Isso exigirá um certo sacrifício de determinados grupos sociais que terão de mudar seus comportamentos”, declara. “A opção é manter um crescimento medíocre, inflação relativamente alta e desemprego em crescimento ou fazer imediatamente o que é necessário ainda que isso possa gerar algum desconforto para uma parte da população, provavelmente uma parte minoritária da população, mas que tem poder político relativamente elevado”, pondera.

Talvez um dos poucos consensos sobre uma necessidade da economia para o próximo ano seja justamente o ajuste de preços hoje controlados. São os casos dos preços da gasolina e da energia elétrica, por exemplo. O problema desse ajuste é que ele carrega consigo potencial enorme de impactos inflacionários. Honda classifica a política de preços da Petrobras como "um contrassenso”. A crítica dele é partilhada de forma indireta por outros analistas. “Tem alguns preços administrados que estão fora do lugar, energia elétrica, transporte coletivo e combustíveis principalmente”, concorda Camargo.

Biancarelli também aborda o assunto e diz que será preciso mexer no vespeiro, mas de forma muito cautelosa. “E tem o desafio, que é corrigir alguns preços, mas isso deve ser feito com bastante cuidado. O preço da gasolina precisa ter alguma correção. O preço da energia vai ter alguma correção. E isso precisa ser administrado para não provocar consequências inflacionárias”, diz o economista da Unicamp.

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