Eleitores se politizam e vão cobrar a contradição de quem pede voto para vários candidatos em um mesmo colégio eleitoral

Com a máxima de que “quanto maior a exposição, melhor”, Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) buscam – e quase sempre exigem – um lugar no palanque do maior número possível de candidatos ao governo de um mesmo Estado. A vontade de colar a imagem em múltiplas candidaturas é tamanha que os presidenciáveis nem sempre se dão conta da contradição que é pedir voto para rivais que disputam o mesmo cargo – uma estratégia que, em vez de voto, pode afugentar eleitores.

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Dilma tem o apoio formal de Pezão, que longe dela sobe no palanque de Aécio Neves
Ichiro Guerra/ PT
Dilma tem o apoio formal de Pezão, que longe dela sobe no palanque de Aécio Neves

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Enquanto o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não se manifesta quanto ao fim da verticalização das coligações – a obrigação de que as alianças estaduais sigam à risca os acordos nacionais –, o eleitor terá de conviver com costuras regionais que mais confundem do que esclarecem. A briga por espaço no santinho de senadores e deputados de diferentes siglas é cada vez mais comum na maioria dos Estados, mas, em São Paulo e Rio de Janeiro, o constrangimento não poupa o cargo majoritário.

Eduardo Campos deu de ombros para sua vice Marina Silva e incentivou o presidente do PSB em São Paulo, Márcio França, a garantir a vaga de vice na chapa de reeleição do governador Geraldo Alckmin (PSDB), abocanhando, com isso, um precioso palanque ao lado do líder absoluto de intenções de voto no Estado. Alckmin já admitiu fazer panfletagem ao lado de Campos para irritação de Aécio, o candidato tucano ao Planalto. Campos também conseguiu um lugarzinho nos comícios de partidários de Dilma no Amapá, Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro.

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É justamente no Rio onde a acomodação no palanque parece não ter fim. Por lá quem vai ceder espaço a Campos é o candidato petista ao governo, Lindberg Faria, aliado de Romário (PSB), que tenta uma vaga no Senado. O petista não descarta a panfletagem com Campos, embora reclame exclusividade de Dilma, que abocanhou um cantinho em nada menos do que nas quatro principais candidaturas: Lindberg, Anthony Garotinho (PR), Marcelo Crivella (PRB) e Luiz Fernando Pezão (PMDB) , que divide seus afetos com o tucano Aécio.

Dilma tentou a mesma tática em São Paulo ao lançar ao governo o correligionário Alexandre Padilha e incentivar o PMDB a apostar em Paulo Skaf . A tática do Planalto era ter duas alternativas a Alckmin no Estado, mas o peemedebista levou sua candidatura tão a sério que vem negando aparecer ao lado da presidente, abrindo uma crise com o PMDB. “Não falamos sobre isso, pergunte a um especialista acadêmico”, respondeu ao iG o coordenador de campanha de Skaf, o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho, ao ser questionado sobre as consequências eleitorais de um candidato que pede voto para mais de um político.

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Conselheiro eleitoral de Skaf e de Dilma, o candidato ao Senado Gilberto Kassab (PSD-SP) admite que a exposição com mais de um postulante a mesma vaga tem potencial de tirar votos de qualquer presidenciável, mas culpa a lei pela contradição. “É um absurdo. Erra o PT, o PSDB, o PMDB porque não temos verticalização, a legislação é assim e obriga todos a errar.”

Coordenador geral da campanha de Aécio Neves, o senador José Agripino Maia (DEM) acha que o candidato à Presidência só perde voto se forçar aparecer ao lado de alguém. "Tem de olhar se o palanque é voluntário ou se estão forçando porque, cada vez mais, o eleitor percebe a diferença", disse ao lembrar da dobradinha Dilma-Skaf. Maia admitiu “não ser bom" para Aécio o fato de Alckmin ter se oferecido a Campos, mas acredita que houve apenas uma "sugestão" e não um convite formal.

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Professor de ciências políticas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Charles Freitas Pessanha afirma que o eleitor da Região Sul é mais rigoroso com quem seu candidato sobe no palanque. “O gaúcho é muito politizado e jamais engoliu essa história. Já os outros eleitorados não são tão exigentes. O paulista é o pior de todos.”

Porta-voz de Marina Silva na campanha, o deputado federal Walter Feldman (PSB) lamenta o acordo de Campos com Alckmin em São Paulo ao lembrar que as manifestações de junho e a popularização das redes sociais mudaram o perfil do eleitor. “É como colocar jogador do Palmeiras para jogar no Corinthians e agir como se isso fosse normal”, diz. “Os partidos não perceberam que depois de junho o Brasil mudou. O eleitor está mais exigente, mais crítico e vai tirar voto de quem subestimá-lo.”

Pessanha concorda, mas acha que, além das redes sociais e das manifestações, as seguidas eleições democráticas é que vão educar o eleitor a enxergar a contradição de um presidenciável pedir voto para mais de um candidato ao mesmo posto. “Quanto mais politizada a sociedade, melhor, até para que um dia haja mudança na lei eleitoral.”

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