Após 30 anos, autor de 'Ey ey Eymael' prepara nova versão de jingle histórico

Por Carolina Garcia - iG São Paulo |

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Alfaiate José Raimundo compôs hit eleitoral como favor a um amigo e foi criticado por ceder criatividade a políticos

José Raimundo de Castro é alfaiate há mais de 60 anos na cidade de São Paulo e mantém os muitos clientes que conquistou desde o início de sua profissão. Um fruto da criatividade de Castro invadiu a mentalidade dos brasileiros, mas não por meio de suas criações e linhas de costura. Ele compôs, em 1984, um jingle histórico e ensinou aos eleitores que José Maria Eymael (PSDC), candidato à Presidência, é um político democrata e cristão. E hoje é responsável pela atualização de um dos jingles mais famosos do Brasil para as eleições.

 O alfaiate José Raimundo de Castro em sua loja no centro de São Paulo. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEle mostra com orgulho suas ferramentas de trabalho, como o esquadro que já completou 20 anos. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloAlém disso, Castro dispensa uso de óculos para o trabalho e leitura. 'Sou muito jovem ainda'. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA paixão pela alfaiataria começou quando tinha 12 anos. Dois de seus seis irmão também eram alfaiates. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloDetalhe das mãos de Castro com o dedal, importante objeto para o seu trabalho. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloA primeira peça que aprendeu a confeccionar foi uma calça, conta o experiente alfaiate. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloObjetos na loja de Castro, no centro de São Paulo. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloUma calça sob medida pode custar entre R$ 200 e R$ 300. Castro conta que ainda atende os mesmos clientes há 20 anos. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloEle foi casado com Angelina de Castro durante 35 anos, que morreu vítima da Doença de Chagas. Foto: Carolina Garcia / iG São Paulo'Foi o período mais trágico da minha vida', disse ao iG enquanto trabalhava. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloApesar da experiência, Castro continua comprando livros de alfaiataria para estudar cortes modernos. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloNa foto, Castro conversa com o amigo Jamaica, de 78. Eles se conhecem há pelo menos 50 anos. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloDetalhe da placa de 'volto em 15 minutos' na porta da alfaiataria. Foto: Carolina Garcia / iG São PauloCastro trabalha há pelo menos 25 anos no centro de São Paulo; loja fica em uma galeria comercial. Foto: Carolina Garcia / iG São Paulo

Na capital paulista desde os 4 anos, o baiano Castro não revela sua idade, mas garante que passou dos 70 anos “há um tempo, graças a Deus”. E o segredo existe, segundo ele, para não assustar a clientela, que pode não confiar “num velho gagá” para desenhar ternos e fazer consertos com maestria. “Sou jovem até fisicamente. Trabalho e leio bula de remédio sem óculos”, disse orgulhoso ao iG nesta sexta-feira (1º). O bom humor comanda a rotina do compositor de jingles e marchinhas de carnaval, profissão que sempre manteve em segundo plano para complementar sua renda.

Mas em 1985, ano em que Eymael fundou o Partido Social Democrata Cristão (PSDC) e tentou ser prefeito de São Paulo, os negócios ficaram de lado e o jingle surgiu como um presente de amizade de Castro ao candidato, que temia enfrentar sua primeira eleição com o verdadeiro nome. “Ele [Eymael] nem sabia que eu fazia jingles, apresentei a música dias antes das eleições e ele adorou.” Castro cobrou um preço simbólico pelo feito - apenas os custos para gravação, contratação de músicos e aluguel do estúdio.

Assista ao vídeo abaixo e saiba como Castro criou o seu jingle histórico:

‘Ey ey Eymael’, versão 2014

O sucesso da marchinha, que acompanharia o político democrata por mais sete eleições (entre elas três tentativas frustradas à Presidência da República), só fortaleceu a relação entre o político e alfaiate. Por isso, na semana passada, Castro recebeu uma ligação do próprio Eymael o convidando para atualizar o jingle histórico. A princípio, o candidato chegou a afirmar para a imprensa que abandonaria a versão nestas eleições “por estar batida demais”, mas recuou e decidiu apenas renová-la.

“A marchinha cumpriu sua função e ensinou ao Brasil quem é Eymael. Agora, precisamos de outra para mostrar o que ele vai fazer como presidente”, defende o alfaiate. A nova versão do jingle deve ser finalizada nos próximos 15 dias e terá como tema principal a Constituição brasileira. “Ele está assumindo um compromisso com a nação de fazer cumprir a Constituição”, explicou Castro. não evitando a rima, como se entregasse um possível verso da nova música.

Relembre o jingle "Ey ey Eymael", de 1984

Simpatizante com as diretrizes do PSDC desde os tempos de Jânio Quadros, com o também famoso jingle “Varre, vassourinha”, o compositor reafirma seu apoio ao amigo Eymael, o classificando como a melhor opção para presidente. Para ele, muitos não enxergam as conquistas do político para o trabalhador e focam no preconceito contra um partido que é cristão. Como deputado federal constituinte, Eymael teve aprovadas as propostas que instituíram o aviso prévio de 30 dias e jornada semanal de 44 horas aos trabalhadores, por exemplo, mas as conquistas ficaram de lado após o sucesso do jingle.

“Se rebaixou a política?”

Compositores de MPB não receberam bem o sucesso de Castro nas rádios no período eleitoral, ele conta. Um amigo do Rio de Janeiro, “compositor muito famoso”, o criticou por ceder parte de sua criatividade aos políticos. “Ele até me falou: ‘Só dá você nos rádios, cara. Não acredito que se rebaixou a política?’. Muitos achavam que eu deveria usar minha criatividade para compor sobre o Brasil”.

Anos depois, Castro ouviu o jingle que Leonel Brizola usava na candidatura ao governo do Estado. “Até comentei: ‘Que jingle bem feitinho. Esse é de profissional’. Perguntei a outro amigo de quem era. E não é que era do fulano que tinha me criticado?”, conta Castro ao risos, dizendo ainda que chegou a confrontar o sujeito, que rebateu: “Tudo que não presta a gente aprende depressa”. A conversa exemplificava a dificuldade que compositores encontravam para divulgar suas músicas. A saída foi entrar para o meu político, segundo o alfaiate, compondo jingles aos políticos.

Apesar de não ser sua prioridade, Castro garante que a música sempre estará na vida da família Castro, tradição iniciada pelo pai que era maestro de uma banda militar. Compositor de “centenas de jingles” pelo Brasil, o alfaiate ainda dedica parte do seu tempo para criar novos slogans a supermercados, farmácias e sindicatos. Foi a forma que ele encontrou para não abandonar o hobby.

“Nunca deu para viver só disso. Pessoa que não gosta de música, flores e criança não é boa gente, viu?”, alertou a reportagem enquanto recebia os clientes na sua tradicional alfaiataria no centro de São Paulo. 

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