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Pela 1ª vez na história, principais candidatos têm atrelados nomes eleitoralmente mais densos que podem pesar em votos

A consolidação do cenário da disputa presidencial traz uma novidade histórica: é a primeira vez que, num único pleito, todos os candidatos mais bem colocados nas pesquisas têm atrelados nomes eleitoralmente mais densos que podem pesar em prestígio e votos e definir seus destinos políticos.

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Especialistas ouvidos pelo iG acham que o fenômeno é resultado da fragmentação que atinge os três principais partidos nas eleições presidenciais deste ano (PT, PSDB e PSB), mas enxergam também renovação política e avanço da democracia.

“Uma democracia só existe de fato quando há renovação. Vejo possibilidade de mudanças e acho que este é um momento rico para a política brasileira”, diz a jornalista e cientista política Katia Saisi, da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro “Campanhas Presidenciais, Mídia e Eleições na América Latina”, recém-lançado pela editora Medianiz.

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O candidato tucano Aécio Neves nunca disputou uma eleição presidencial, mas tomou o lugar do ex-ministro José Serra , que desembarcou da campanha de 2010 com 43.711.388 (43,95%) de votos ou 43,95% dos votos válidos, um capital político considerável.

O ex-governador de Pernambuco, Eduardo Campos , que integrou os três governos do PT e também é estreante na eleição presidencial, tem na sua retaguarda o apoio da ex-ministra do Meio Ambiente  Marina Silva , que saiu do primeiro turno da mesma eleição com 20 milhões de votos.

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A vitoriosa em 2010, a presidente Dilma Rousseff , obteve 55.752.529 dos votos válidos e deve a maior parte desse capital político à atuação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva .

Na campanha deste ano, Lula não só foi decisivo para afastar o movimento interno que pedia seu retorno como candidato - o “Volta-Lula” - como continuará sendo o principal cabo eleitoral da candidata petista. Nos próximos dias, por exemplo, ele percorrerá o Nordeste para lembrar que é o “pai” do Bolsa Família e, assim, tentar transferir votos para a pupila.

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Saisi acha que Lula, Marina e Serra serão apenas partidários de peso nas campanhas dos candidatos, sem que isso implique em dependência ou sombra para quem for eleito. Um exemplo de renovação e avanço, segundo ela, foi o papel exercido pela presidente Dilma, que construiu sua própria imagem no poder.

Ela lembra que, se tivesse se tornado dependente do ex-presidente, Dilma poderia ter sido engolida pelo movimento “Volta-Lula”, ensaiado por setores do próprio PT. “Dilma se impôs pela legitimidade, pelas próprias ideias e por ter voo próprio”, diz a cientista política. Ela não duvida de que Lula continuará exercendo papel determinante na campanha deste ano por agregar apoios e votos para sua candidata.

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No caso do PSDB, a cientista usa o futebol como metáfora. “O Aécio é o Dunga da seleção. Depois dos 7 a 1, os tucanos decidiram trocar seu Felipão”, brinca. Serra perdeu para o PT nas eleições de 2002 e 2010 e, em 2012, na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Era natural, segundo ela, que os tucanos fizessem a troca. “O Aécio é a nova aposta do PSDB”, diz.

Saisi diz que não é a mesma situação de Eduardo Campos e Marina. Ela acha que a dupla formou o que poderia se chamar de novidade na política brasileira, mas também não acredita que um eventual sucesso do ex-governador pernambucano torne Marina sua sombra no poder. “É uma aliança. Eduardo é da política tradicional e precisava da credibilidade de Marina”, ressalta.

O cientista político Carlos Melo, professor do Insper, instituição de estudo e pesquisas, diz que não se pode negar que há algum grau de renovação no cenário da disputa presidencial, mas vê conflitos entre o chamado “lulismo” e o “dilmismo” no PT e fragmentação no interior do PSDB e PSB.

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Ele acha que desde o fim do governo de Fernando Henrique Cardoso os tucanos viveram um período de disputa entre três lideranças, Aécio, Serra e o governador Geraldo Alckmin , e que a ascensão do primeiro revela uma mudança no partido. Melo também avalia que a maior novidade é a aliança Eduardo/Marina, mas duvida que ela sobreviva às eleições de 2018.

Na avaliação do cientista, a fragmentação atinge mais fortemente o PT e o PSDB. Dilma, na sua opinião, ainda não conseguiu se consolidar. “Será que o Volta-Lula acabou? Não acredito. Isso só será afastado na medida em que Dilma se consolidar como candidata. Enquanto a dúvida permanecer, haverá centelha”, alerta Melo.

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Ele acha que o movimento pelo retorno de Lula rema contra a ideia de renovação e que a manutenção dos grandes apoiadores dos candidatos como sombra de quem for eleito dependerá dos rumos que o grupo vitorioso tomará. Lembra que o fantasma da traição sempre rondou os partidos e certamente contribuiu para a fragmentação, como ocorreu com o PSDB nas últimas três eleições presidenciais.

Melo acha que a aproximação de Aécio a Lula em 2002 e do ex-governador Antônio Anastasia de Dilma em 2010 prejudicaram Serra. O mesmo se dá agora com a aliança de Alckmin com o PSB de Campos que, na sua opinião, é ruim para Aécio, que precisará de muitos votos em São Paulo para compensar o vazio que sua candidatura enfrenta no nordeste.

Para Carlos Melo, Lula, Serra e Marina terão peso decisivo no destino de seus candidatos, mas tudo sempre dependerá de uma união verdadeira. “Sombras só não atrapalham se rumarem no mesmo lado”, afirma.

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