Com classe política em descrédito, familiares e amigos custam em aceitar a decisão de quem decide disputar um mandato

Quando Célia Romeiro, 49 anos, revelou ao marido Rommell que havia se filiado ao PDT e que pretendia disputar uma vaga na Câmara Legislativa do Distrito Federal nas eleições deste ano, ela abriu uma crise em casa. Contrariado com a decisão, o marido ficou uma semana sem falar com Célia.

O problema que Célia enfrentou na família não é novidade para aqueles que decidiram ingressar na política e debutar em disputas eleitorais em 2014. O descrédito com a classe política é tanto que a notícia de que um familiar pretende ingressar nas linhas partidárias, às vezes, resulta em questionamentos sobre as razões para essa decisão.

Célia Romeiro enfrentou oposição do marido Rommell quando decidiu concorrer a uma vaga de deputada distrital em Brasília
Arquivo pessoal
Célia Romeiro enfrentou oposição do marido Rommell quando decidiu concorrer a uma vaga de deputada distrital em Brasília


“Meu marido ficou muito chateado. Alegou que eu tomei uma decisão sem falar com ele. Não foi fácil”, conta a aspirante a deputada distrital. Segundo Célia, a crise familiar só foi contornada com a ajuda do ministro do Trabalho, Manoel Dias, de quem ela se aproximou ao ter trabalhado há mais de 10 anos para o partido de Dias, o PDT. 

Célia diz que a intervenção do ministro contribuiu para que o marido aceitasse a situação. “Ele (Manoel Dias) disse que queria conversar com meu marido. Explicou a ele o meu potencial e foi a partir desse momento que meu marido foi se convencendo”, recorda a candidata.

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Além da surpresa com a candidatura da mulher, o marido de Célia também mostrou contrariedade por não ver a classe política com bons olhos. “Ele me perguntou: ‘para que você vai entrar nessa?’”, relala a candidata, que também enfrentou resistência de outros familiares. “Minha mãe também questionou, alegando que só ouve falar mal dos políticos atualmente. Acho que será difícil para ela, por exemplo, ouvir de alguém que a filha está entrando na política e que lá são todos farinha do mesmo saco.”

Passada a turbulência familiar, Célia viu os antes reticentes parentes se tornarem grandes incentivadores de seu projeto político.  

Por que se meter com política? 

Léo Coutinho (PSDB), 36, que disputará uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo, passou por experiência semelhante a de Célia. Mesmo tendo um clã de políticos ilustres, o candidato enfrentou resistência. Sobrinho-neto do ex-governador André Franco Montoro, Coutinho diz que amigos questionaram sua entrada na disputa eleitoral.

Mesmo sendo de uma família de políticos ilustres, Leo Coutinho teve sua decisão de se tornar um político questionada
Arquivo pessoal
Mesmo sendo de uma família de políticos ilustres, Leo Coutinho teve sua decisão de se tornar um político questionada

“Os amigos me perguntavam: ‘mas você vai mesmo entrar nessa, se meter com isso? Tem muito picareta envolvido’. Que é o dito pela sociedade diz”, relata o candidato paulista, afirmando ainda que os amigos o aconselharam a cuidar da própria vida em vez de entrar na política. A mulher Paula, por sua vez, manifestou preocupação com a rotina que Coutinho terá de assumir, caso seja eleito.

Aliás, Coutinho tem sua própria tese a respeito da falta de estímulo das pessoas em participar da política. “Durante muito tempo, na ditadura, na geração de nossos pais, ser da política era algo perigoso. Traumatizou e assustou as pessoas. Isso criou uma geração ausente que acha que a política é lugar de picareta”, argumenta ele. “Mas esse tipo de comportamento é a mesma coisa de você estar com dor de dente e ficar só falando mal do dentista e não ir ao consultório", completa. 

Consequências da vida política

Tentando uma vaga de deputada estadual, Barbara Nascimento (PSOL), 26, é  uma candidata estreante de Sergipe. Mas ao contrário de Coutinho e Célia, ela não teve que enfrentar grandes resistências na família ou dos amigos por causa de sua decisão de concorrer. Os questionamentos foram mais amenos, mas em algum momento existiram.

“Depois que tomei a decisão, a primeira pessoa para quem falei foi minha mãe. O apoio veio em tom crítico”, admite Barbara. A candidata diz que a desconfiança veio mais em função das consequências profissionais do que propriamente o medo da má fama dos políticos.

Barbara Nascimento teme as consequências da candidatura dela em sua vida profissional
Arquivo pessoal
Barbara Nascimento teme as consequências da candidatura dela em sua vida profissional

Barbara entende que sua atuação em movimentos sociais e a forma como sua decisão de concorrer nasceu, a ajudaram a lidar com a questão perante aos amigos e demais familiares. Ela já atuou nos movimentos feminista, estudantil e de democratização da comunicação. “Minha candidatura veio para dar voz para àquelas lutas dos movimentos”, discursa.

No entanto, a candidata, que é jornalista, teme as consequências profissionais da decisão de concorrer. “Minha candidatura é a candidatura de uma jovem, numa realidade bastante coronelista. E os próprios meios de comunicação são geridos aqui pelos grandes políticos. Então sei que tem implicações quando opto por um partido de esquerda. O mercado fecha as portas”, reconhece Barbara.

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Filiada ao mesmo PSOL, André Moreira é candidato ao Senado pelo Espírito Santo. Ele tem lembranças divertidas de como o desejo de concorrer na disputa eleitoral despertou preocupações em casa. “No dia em que soube que eu disputaria, minha mãe falou: ‘você não prefere fazer uma pós-graduação, tentar uma carreira acadêmica?’”, descreve Moreira, que conseguiu conquistar o apoio materno, posteriormente.

As resistências em seus círculos próximos ficaram por aí. Sua esposa, por exemplo, não chegou a fazer nenhum tipo de pedido ou ponderação para que ele desistisse. Moreira acredita que sua atuação como advogado, sindicalista e defensor de Direitos Humanos ajudou na transição da política que praticava na OAB para a partidária.

Entre os conhecidos, entretanto, a entrada política de Moreira despertou curiosidade e questionamentos. “Um dia desses, um amigo de adolescência, que eu não encontrava há muito tempo, me perguntou sobre a candidatura: 'Mas você vai ser candidato logo pelo PSOL, partido comunista?'. No final ele até prometeu votar em mim”, se diverte o candidato, ao lembrar da situação. 

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