Hoje pastor evangélico, ele acredita que os coronéis Molina e Malhães, integrantes do regime militar, foram executados

O ex-delegado do DOPS (Departamento de Ordem Político Social) do Espírito Santo Cláudio Guerra acredita que todas as pessoas consideradas "arquivos vivos" da Ditadura Militar estão sob risco de serem executadas por defensores do regime. Depoimentos feitos por Guerra aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto deram origem ao livro "Memórias de uma Guerra Suja" (Topbooks), que trouxe várias revelações sobre o regime militar até então desconhecidas. A obra foi revelada com exclusividade pelo iG , em maio de 2012.

Como uma das principais testemunhas de desaparecimentos de militantes de esquerda no período da ditadura, Guerra acredita que pode ser assassinado a qualquer momento. Ele, que se tornou pastor evangélico da Igreja Assembleia de Deus, afirma não ter medo a morte: “Deus é maior e ele me protege”. Apesar disso, o ex-delegado ressalta: “Mas também não podemos ‘tentar’ a Deus”, analisa, sobre a possibilidade de ser executado. "Mas se eu vier a morrer, mesmo executado, já fiz a minha parte na terra. Já dei a minha contribuição nessa vida", analisa.

50 anos do Golpe. Veja imagens que marcaram o período: 

Guerra conta, por exemplo, que foi convidado este ano por jornalistas a participar de um documentário na cidade de Campos, onde está localizada a usina de açúcar Cambahyba, local onde, segundo ele, 13 militantes de esquerda foram incinerados. Ele diz ter recusado o convite, por temer uma execução. “Me informaram que eu morreria e dariam ares de que eu seria vítima de uma bala perdida. Resolvi não ir”, relata Guerra.

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Guerra diz já ter recebido dezenas de ameaças de morte desde a publicação do livro. Ali, Guerra revelou pela primeira vez como incinerou os corpos de presos políticos na usina Cambahyba, localizada no Rio de Janeiro. Ele narra ainda como os mesmos comandantes que planejaram o atentado do Riocentro foram os responsáveis pela execução do jornalista Alexandre Von Baumgarten, em 1982.

Em outro trecho do livro, também revelado pelo iG, ele afirma que o delegado Sérgio Paranhos Fleury – titular da Delegacia de Investigações Criminais (DEIC) de São Paulo e considerado um símbolo da linha dura do regime – foi assassinado por um grupo de militares revoltados contra a abertura política no Brasil.

Agora, ao falar sobre o temor de assassinatos, Guerra afirma que a morte do coronel reformado do Exército Paulo Malhães, que prestou depoimento à Comissão Nacional da Verdade (CNV) em março, revelando detalhes sobre tortura e desaparecimento de presos políticos durante o regime militar, não foi latrocínio, como concluiu a Polícia Civil do Rio. Para ele, Malhães foi vitima de uma “queima de arquivo”.

Outra vítima de crime semelhante, segundo ele, teria sido o coronel Júlio Molina, assassinado a tiros em frente à sua residência em Porto Alegre, em novembro de 2012. Molina era comandante do Destacamento de Operações Internas (DOI-Codi) do Exército no Rio de Janeiro, na época do caso Riocentro. A polícia gaúcha concluiu que Molina também foi alvo de latrocínio, mas Guerra diz não acreditar nessa tese.

“Era o que nós fazíamos na época”, admite Guerra. “O procedimento é muito semelhante. Se executa uma pessoa e dá-se para essa execução ares de acidente, latrocínio ou algo semelhante. O modus operandi é sempre o mesmo”, aponta Guerra. Ainda para ele, outras pessoas podem ser alvo de execuções caso testemunhem contra o regime militar.

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Desde que "Memórias de uma Guerra Suja" foi publicado, Guerra viveu recluso em uma casa de idosos no interior do Espírito Santo. Apesar disso, ele não pediu para ser incluído em programas de proteção de testemunhas do Governo Federal. O próprio Ministério da Justiça ofereceu proteção, mas Guerra recusou.

Em 2012, qualquer contato com ele, durante aproximadamente um ano, somente pôde e ser feito por meio dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros. Nos últimos meses, Guerra resolveu retomar a vida em Vitória e agora vive da pregação em templos evangélicos por todo o Espírito Santo. Ele também tenta pregar em presídios do Estado, mas depende de autorizações judiciais para isso.

Durante o testemunho na Igreja, Guerra fala das atrocidades cometidas com a participação dele durante o regime militar e como ele tenta buscar a paz após a conversão. "Minha vida mudou completamente", afirma Guerra. Nos depoimentos que prestou à Comissão da Verdade, Guerra sempre falou com uma Bíblia em mãos, junto com um exemplar de "Memórias de uma Guerra Suja".

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