Escondido por tucanos que concorreram antes à Presidência, FHC agora é visto como viga mestra da candidatura de Aécio

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso adquiriu, com o presidenciável Aécio Neves , um novo papel no esforço eleitoral do PSDB. Renegado ou escondido por candidatos tucanos que tentaram a Presidência da República desde 2002, FHC agora é considerado a viga mestra da candidatura Aécio. A presença do ex-presidente e de seu legado voltaram a ser tema livre num partido que pagou pela impopularidade de algumas medidas adotadas durante as duas gestões do ex-presidente, principalmente por causa de sua política de privatizações, tema usado pelo PT para amedrontar o eleitor.

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Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique durante a Convenção Nacional do PSDB (foto de arquivo)
Facebook Oficial de Aécio Neves
Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique durante a Convenção Nacional do PSDB (foto de arquivo)

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Diferentemente do que ocorreu em eleições passadas, FHC tem atuado como consultor de luxo de Aécio. A relação do ex-presidente com o senador mineiro é quase diária. Interlocutores próximos afirmam que, em alguns casos, Aécio fala mais de uma vez por dia com o ex-presidente. Dizem que FHC opina sobre programa de governo, abordagens em discursos e sobre o cenário político nacional. Em momentos de crise, ele também é consultado. Esses contatos são muito cordiais e FHC é, em geral, muito bem humorado, dizem aliados.

FHC não deverá subir em palanque e nem participar de corpo a corpo. Nessa hora, a idade do ex-presidente é citada como um fator importante. Aos 83 anos, na opinião de seus correligionários, não faria nenhum sentido pedir ou mesmo sugerir esse tipo de atuação para o ex-presidente. Seus aliados destacam que FHC tem uma vida ativa, mas a campanha considera que sua presença será mais bem aproveitada em eventos especiais, aparições específicas e no horário eleitoral. A linha deverá ser essa no cotidiano da campanha.

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O novo papel que FHC desempenha na campanha tucana é saudado por muitos daqueles que estão diretamente envolvido com o esforço eleitoral do PSDB. Em entrevista ao iG , o coordenador-geral da campanha de Aécio, o senador potiguar José Agripino , falou com bastante segurança a respeito do que considerou um erro das campanha do PSDB no passado. “Foi um erro, na campanha passada, não ter assumido as teses das privatizações, das concessões. Coisa que hoje a realidade está mostrando que é o que tem de ser feito. É insistir numa prática que deu certo”, disse Agripino.

Origem

Tucanos que atuam no núcleo da campanha são unânimes em dizer que FHC voltou a ganhar importância, ainda antes da definição a respeito do nome de Aécio como candidato do PSDB à Presidência da República. O ex-presidente foi o principal cabo eleitoral de Aécio quando da disputa interna no partido para a escolha do presidente nacional da sigla. Na época, José Serra ainda corria por fora na tentativa de se viabilizar pela terceira vez como candidato do PSDB para enfrentar a presidente Dilma Rousseff . Na época, a escolha do presidente do PSDB respeitou essa dinâmica eleitoral e Aécio não era unanimidade entre tucanos paulistas.

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E foi nesse processo que FHC começou a fazer um papel fundamental para o êxito da candidatura Aécio: aproximou o senador mineiro de um terreno árido até então, o PSDB paulista, refratário ao nome do ex-governador de Minas Gerais. Havia em São Paulo ressentimento com a figura de Aécio, apontado por tucanos nos bastidores como alguém que pouco fez para ajudar Serra e Geraldo Alckmin  quando os dois disputaram a Presidência (Serra em 2002 e 2010, Alckmin em 2006). FHC foi figura fundamental para digerir a mágoa e aproximar Aécio de grupos antes ligados a Serra. O coordenador da campanha do mineiro em São Paulo é o ex-governador Alberto Goldman, e seu vice é Aloysio Nunes , ambos nomes muito ligados a Serra.

Trânsito com empresários

Além do papel protagonista nas querelas internas do partido, FHC tem feito uma função importante junto a empresários. É uma dupla função. O ex-presidente usa todo seu prestígio no meio empresarial de São Paulo para capilarizar Aécio entre aqueles que fazem do Estado o centro financeiro do País. A tarefa não apenas coloca o senador em evidência no setor industrial e empresarial no maior colégio eleitoral do País, mas também abre portas para que o mineiro possa angariar doações para sua campanha.

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Nesse sentido, o PSDB resolveu ser mais agressivo. Ao contrário da projeção de gastos de 2010, neste ano o partido resolveu elevar suas perspectivas de custos. Em 2010, com Serra candidato, o PSDB declarou teto de gasto orçamentário de R$ 180 milhões (algo em torno de R$ 228 milhões em valores atualizados). Neste ano, o teto definido pelo partido é de R$ 290 milhões, bem próximo aos R$ 298 milhões de teto planejado pelo PT para a campanha de Dilma. Nesse cenário, a ajuda de FHC junto a empresários é tida como decisiva, sobretudo em meio a um panorama de pouco crescimento e crise mundial em que a missão de arrecadar dinheiro para a campanha, na opinião de tucanos, torna-se mais difícil.

Cuidado

Apesar do papel reconhecidamente importante que FHC terá na campanha de Aécio, existem tucanos que acreditam que essa atuação tem de ser bem dosada. Para esse grupo, FHC não pode exercer um papel de protagonista da campanha porque seu legado positivo não teria efeito sobre boa parte do eleitorado. Restariam aí alguns legados negativos que, na avaliação desses tucanos, seriam amplamente usados pelos adversários.

A conta feita é que o eleitor mais jovem, aquele nascido desde 1990, não é sensível ao argumento de estabilização econômica, principal credencial da Era FHC. São eleitores que não têm experiência de ter vivido sob o ritmo da uma economia assolada por hiperinflação, trocas frequentes de moeda e recessão. Por isso, essa ala defende a participação de FHC na campanha, mas com alguma ressalva.

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