Mesmo após fiasco na Copa, candidatos à presidência deixam Esporte em 2º plano

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo |

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A dois anos das Olimpíadas, presidenciáveis se inspiram no modelo norte-americano ao prometer esporte nas escolas e universidades, mas não dizem como pretendem fazer isso

O fiasco da seleção brasileira na Copa do Mundo este ano empurrou para 2018, na Rússia, as esperanças do torcedor pelo hexacampeonato. As expectativas são ainda mais modestas para as Olimpíadas do Rio de Janeiro daqui a dois anos: o plano das autoridades é que o País figure entre os dez primeiros colocados, depois de amargar a 22ª colocação nos jogos de Londres, em 2012. Embora o Brasil venha sediando grandes eventos esportivos nos últimos tempos, o esporte como política pública não figura entre as prioridades dos principais candidatos à presidência, que no dia 5 de julho entregaram suas propostas de governo ao Tribunal Superior Eleitoral – TSE.

GEO/divulgação
Alunos treinam judô em uma das unidades do Ginásio Experimental Olímpico, no Rio: esporte nas escolas para formar medalhistas e resgatar menores em situação vulnerável

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Miúdos de uma forma geral, os projetos protocolados por Aécio Neves (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Eduardo Campos (PSB) são tratados pelas campanhas apenas como “diretrizes”, ainda mais genéricas quando tratam do esporte. Inspirados em parte no modelo norte-americano, todos prometem levar a prática esportiva para dentro das escolas, mas não explicam como pretendem fazer isso.

Em suas “diretrizes”, a equipe de Dilma reservou sete parágrafos ao esporte. De parecido com o modelo americano, só a intenção de integrar "as políticas públicas entre os entes federados". O restante tem em vista os jogos olímpicos no Rio: a construção de um centro paraolímpico em São Paulo e de 285 centros de iniciação em 163 municípios de todos os Estados e Distrito Federal.

Questionado pelo iG, o comitê de reeleição falou de outras ideias. Uma das propostas é incrementar o programa Atleta na Escola, que no ano passado colocou “2 milhões” de estudantes em competições escolares. No ano passado, 3 mil atletas também participaram de jogos universitários.

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Em suas 59 páginas, o programa de Campos utiliza a palavra "esporte" seis vezes, sempre de forma genérica, como parte da "educação integral", ou "assistência à saúde". O setor entra no bolo de educação, lazer, cultura e saúde no tópico "política habitacional" e como ferramenta de integração territorial em "mobilidade urbana".

Questionada pela reportagem, a coordenação do programa prometeu que “o esporte seria mais valorizado e incorporado ao contexto pedagógico da escola”, mas não deu detalhes. Com críticas à atual gestão, as sugestões mais concretas foram a criação de uma lei que estabeleceria competências aos entes federativos e meios de financiamento do esporte, como aumentar as isenções fiscais a quem investe no setor e incentivar as parcerias com o setor privado, “desde que os recursos cheguem aos cidadãos”.

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Com 76 páginas, as "diretrizes" de Aécio dedicam um tópico a "Esporte e Lazer". Em frases curtas, o texto relaciona a formação de atletas "com as escolas e as universidades", sugere aumentar a importância do esporte na grade curricular e promete "desenvolver a indústria do esporte [...] para o crescimento do País". O iG pediu mais detalhes, mas não recebeu nenhuma resposta da campanha até o fechamento da reportagem.

O que ensinam os Estados Unidos?

Maior potência esportiva do mundo, os Estados Unidos são a principal inspiração dos candidatos, que admitem a necessidade de formar esportistas nas escolas. Por lá, a Constituição entrega aos Estados a responsabilidade de não só bancar os equipamentos esportivos como subsidiar escolas e universidades, organizados pela National Collegiate Athletic Association (NCAA), criada em 1906 e hoje com cerca 1.200 universidades cadastradas.

Tudo começou em 1896, quando o país se juntou à Europa para disputar medalhas olímpicas. O resultado foi tão bom que todos atribuíram as vitórias aos atletas-estudantes, em disputas intercolegiais desde a fundação do país. Hoje, até os campeonatos universitários são transmitidos na TV. A vocação natural do país para os negócios passou a atrair o dinheiro privado, os maiores patrocinadores do Comitê Olímpico Americano, hoje com 34 empresas, inclusive estrangeiras.

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Medalhista olímpico, o ex-nadador Gustavo Borges foi estudar na Flórida em 1991 e viu de perto a forma como o esporte é encarado por lá. Ele afirmou ao iG que a importância da prática esportiva na escola é tamanha que o desempenho nas pistas de corrida, piscinas e gramados é critério curricular no mercado formal de trabalho ao indicar ao entrevistador a força de vontade, liderança e dedicação do candidato à vaga.

Facebook/Reprodução
Medalhista olímpico, Gustavo Borges estudou nos Estados Unidos. Ele apoia o ensino esportivo na graduação aliado ao nosso sistema de clubes

Borges explica que o modelo brasileiro se assemelha ao europeu, onde cabe aos clubes revelar os principais destaques esportivos. Além da óbvia necessidade de "organização e planejamento", ele sugere que o nosso modelo de clubes se integre à formação de atletas nas escolas. "Os estudantes com melhor desempenho seriam encaminhados aos clubes, onde teriam estrutura ainda melhor para seguir carreira."

Mas até que esse dia chegue, outras boas ideias precisam vingar, como as três unidades do Ginásio Experimental Olímpico (GEO), criado pela prefeitura do Rio de Janeiro em 2011. Ao todo, 1.100 alunos do ensino fundamental aliam as disciplinas tradicionais e a habitual educação física à, pelo menos, duas horas diárias de prática esportiva, como atletismo, tênis de mesa, vôlei, handebol, xadrez, natação e luta olímpica. Coordenadora do projeto, a educadora Cristina Brum explica que, no início, o aluno pratica todas as modalidades para, aos poucos, se especializar na que mais se identifica. "No nono ano, esse estudante pratica sua modalidade cinco vezes por semana."

Brum lamenta, no entanto, que o programa acabe logo em seguida. Como o ensino médio é responsabilidade do governo estadual, muitos atletas promissores interrompem sua prática quando precisam mudar de escola. "Estamos costurando acordos com o Estado para que ele também crie escolas e universidades que deem prosseguimento a esse projeto." Ainda sem essa opção, o GEO tenta inserir em clubes os alunos que se destacam a cada ano.

Gestão

Formada por 61 atletas de várias modalidades, a associação Atletas pelo Brasil também empunha a bandeira do esporte nas escolas. A alternativa é defendida não apenas como combustível para futuras gerações de medalhistas quanto para o resgate de jovens em vulnerabilidade social. Estudo encomendado pela Nike estima em R$ 12 bilhões o gasto anual do Brasil com saúde em razão da falta de atividade esportiva regular. "Oferecer esporte a crianças de todas as classes sociais também significa economia de custos em segurança pública", defende Daniela Castro, diretora-executiva da associação.

Daniela comemora o empenho do governo federal na aprovação da lei 12.868/13, que regulamenta a atuação de organizações esportivas que recebem dinheiro público. A nova regra limita o mandato de dirigentes e exige a prestação de contas dos recursos. Mesmo assim, ela diz que falta participação da União na condução do esporte nacional. "Na Alemanha, o ministério dos esportes divide com o comitê olímpico essas responsabilidades. Aqui fica tudo com as instituições. É preciso entender que o esporte representa a imagem do país."

A entidade promete acompanhar as propostas de cada candidato a presidente no decorrer da campanha. Para isso, a associação redigiu uma carta compromisso que será entregue a cada postulante. "Temos bons projetos no Brasil, como o Bolsa Atleta, mas falta coordenação integrada. Sem ela, nada vai acontecer."

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