Presidenciáveis buscam antídotos para rebater temas delicados na campanha

Por Luciana Lima e Marcel Frota - iG Brasília | - Atualizada às

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Mensalão, privatizações, falta d’água e economia ganham atenção especial na guerra de argumentos da disputa eleitoral

Patricia Stavis
Tucanos acreditam que problema da seca em São Paulo pode ganhar a pauta eleitoral

No início da corrida presidencial, as campanhas e próprio governo articulam a construção de argumentos para se proteger de temas que consideram delicados e que acreditam que possam ser usados por adversários para gerar constrangimento durante a disputa.

Assuntos como mensalão, falta d’água, privatizações, economia e até direitos trabalhistas de empregadas domésticas têm sido apreciados de forma cuidadosa pelos comitês eleitorais e pelo governo. Os argumentos, em fase de gestação, deverão estar alinhados para o enfrentamento de outubro.

Enquanto estudam assuntos áridos para os adversários, as campanhas também preparam “vacinas” para poupar seus candidatos das saias justas. Nesta semana, para evitar constrangimentos que possam prejudicar a presidente Dilma Rousseff na campanha, parte da bancada do PT na Câmara precisou entrar em cena.

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Com a aprovação da redução para 6% da alíquota de contribuição previdenciária paga por patrões e empregados domésticos, a aposta de deputados tucanos e do DEM é que, caso a presidente decida vetar a proposta, se desgastará perante eleitores da classe média empregadora, que se queixa do alto custo de se manter uma empregada doméstica.

Aprovada na CCJ em caráter conclusivo, a proposta não precisa passar pelo plenário para seguir direto para a sanção da presidente. Para postergar este trâmite, os petistas já decidiram apresentar recurso para levar a matéria ao plenário. A deputada Benedita da Silva (PT-RJ) já foi escalada para a função.

“Ela não vai precisar se indispor com ninguém”, disse a deputada. “Ela vai poder apresentar o que esse governo já aprovou. O que a Casa Civil acompanhou, que foi a PEC das Domésticas”, avaliou Benedita, que garante já ter assinaturas suficientes para apresentar o recurso.

Seca

Os tucanos acreditam que os problemas de abastecimento de água em São Paulo poderão ganhar a pauta eleitoral. As previsões pessimistas apontam que, se os sistemas Cantareira e Alto Tietê não se recuperarem, pelo menos 10 milhões de pessoas que vivem na região metropolitana da capital paulista poderiam ter problemas de abastecimento.

Especialistas não descartam nem mesmo a necessidade do uso de caminhões-pipa para atender à demanda. No dia 15 de maio, o governo paulista começou a bombear água do chamado volume morto do sistema Cantareira, que é a água disponível sob o nível de captação das comportas, como paliativo para evitar o desabastecimento.

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Para esse argumento, os tucanos pretendem alegar que a questão é muito mais atrelada a uma conjuntura climática do que algo relacionado à falta de planejamento do governo paulista, chefiado por tucanos desde 1995.

Se os petistas insistirem na tese, aliados de Aécio pretendem rebater com a questão da transposição do Rio São Francisco, obra para amenizar a falta de água em regiões do interior nordestino. Prometido para ser entregue ainda no segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o projeto atravessou o mandato de Dilma sem sua conclusão prevista até o fim desta legislatura.

Gerente

Desconstruir a fama de boa gestora da presidente será a tônica das duas principais campanhas adversárias de Dilma. Para integrantes da campanha do socialista Eduardo Campos, a grande questão colocada nesta eleição é se haverá disposição dos eleitores em dar à presidente mais quatro anos para que ela desempenhe um bom governo. O objetivo é mostrar que muitos projetos iniciados durante o governo do ex-presidente Lula acabaram desmantelados pela sua sucessora.

Para os tucanos, o desempenho econômico é considerado o tema principal para conseguir derrubar a presidente Dilma nessas eleições. A campanha será de críticas ao baixo crescimento, retomando o apelido de “pibinho”, à inflação, ao baixo investimento em infraestrutura, e às dificuldades enfrentadas pelo setor industrial. A aposta é que, se Aécio conseguir emplacar um discurso forte em termos econômicos, terá chances de vencê-la.

Nesse sentido, o PSDB deverá apostar, em alguma medida, no discurso do medo, estimulando receios entre os eleitores a respeito do futuro da economia e como isso poderá ser crucial para a felicidade das pessoas.

Enquanto os adversários optam por criticar os quatro anos de Dilma e devem poupar Lula de críticas diretas, como antídoto, a campanha petista se esforçará em enaltecer os avanços conquistados no conjunto dos 12 anos em que o partido esteve no poder, com Lula e Dilma, em comparação com os mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que antecedeu este período.

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“Queremos a militância na rua lutando para que nosso projeto continue. Aquele projeto que vem mudando o Brasil há 12 anos que fez o Brasil sair de uma economia endividada, sem autoestima, e colocou o Brasil com uma das economias mais fortes do mundo, apesar da crise”, disse o presidente do PT, Rui Falcão, coordenador da campanha da presidente.

Entre os argumentos a serem apresentados pela campanha da presidente está a geração, durante os 12 anos petistas, de cerca de 20 milhões de empregos, a valorização do salário mínimo neste período e até o pagamento da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI), ocorrido na gestão de Lula.

Mensalão

Embora o tema tenha sido pauta obrigatória entre políticos desde a condenação dos réus da Ação Penal 470, o mensalão não deve ser um tema central para esta campanha. Esse parece ser um consenso entre as campanhas. Abertamente, tucanos dizem não ter problemas em falar do tema. Reservadamente, porém, aliados de Aécio acreditam que a campanha tem de olhar para frente e que a questão do mensalão já foi assimilada e não será esquecida pela população na hora do voto.

Entre tucanos, a avaliação é que este tema tem um potencial enorme de tornar-se apenas uma guerra de acusações que pouco acrescentará ao debate sobre corrupção. Ao falar sobre o mensalão, o PSDB sabe que terá de ouvir sobre Eduardo Azeredo e o mensalão mineiro, esquema supostamente orquestrado durante a gestão do ex-governador de Minas Gerais.

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Por isso mesmo, acreditam que o bate-boca gerado pelo tema em pouco ou nada despertará o interesse do eleitorado. Admitem, entretanto, que a questão deve ter um papel, mas marginal e em princípio focado em discussões nas redes sociais. Por sua vez, o PT sente certo alívio porque acredita que seus adversários não pretendem fazer uso do caso como argumento eleitoral.

Privatização

Se o tema já tirou o sono do PSDB em eleições anteriores, parece já não assustar tanto. Tudo porque os tucanos pretendem usar as concessões de estradas e aeroportos para demonstrar que o PT também aderiu à tese das privatizações. Aliados de Aécio procurarão convencer o eleitor de que, ao contrário de Fernando Henrique e o PSDB, o PT aderiu à agenda de privatizações de forma tímida, atrasada, atrapalhada e mal feita.

Por outro lado, correligionários de Aécio acreditam que o PT poderá contra argumentar esse discurso alegando que sua gestão não vendeu empresas, apenas fez concessões. Por isso mesmo, o tema privatização não deverá ser pautado pelo PSDB, que esperará ser criticado por causa das privatizações para rebater. Mas há um sentimento entre tucanos de que o PT perdeu o argumento ao aderir a uma agenda de concessões. Já no PT, a tarefa é enfatizar a diferença do regime de concessões executado por Dilma daquele feito por Fernando Henrique ao longo de seus oito anos de mandato.

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