Para crescer nos Estados, candidatos buscam traidores em campanhas rivais

Por Luciana Lima e Marcel Frota , iG Brasília |

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Tucanos e socialistas buscam dissidentes em partidos; apoio de prefeito tucano a Dilma é comemorado como simbólico por PT

Mesmo depois do fechamento das alianças nos Estados, os candidatos à Presidência da República ainda trabalham nos bastidores para estimular dissidências nas bases de apoio aos seus adversários. Tucanos, petistas e socialistas já mapearam possíveis traidores e mantêm pontes com políticos capazes de declararem apoio, na esperança de provocar instabilidade nas campanhas rivais.

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Líderes ligados ao comitê de Aécio Neves (PSDB) acreditam que, durante a campanha, membros de siglas que fecharam acordo com a presidente Dilma Rousseff (PT) podem abandonar o compromisso com a chapa governista para apoiar o senador mineiro. No tabuleiro de alianças, PP, PSD e PR são partidos citados de forma genérica como as legendas que supostamente abrigariam futuras dissidências.

Já o PT tem comemorado dissidências que considera simbolicamente importantes. Uma delas é representada pelo prefeito do município do ABC paulista Rio Grande da Serra, Luiz Maranhão (PSDB). Único tucano a administrar uma prefeitura na tradicional área de influência petista, Maranhão tem sofrido ameaças de expulsão da sigla devido ao seu posicionamento em favor de Dilma. Com a influência do prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT), o partido espera colecionar mais apoios em municípios do interior de São Paulo.

O líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Antonio Imbassahy (BA), também acredita que mais dissidências ocorrerão na base da presidente durante a campanha. “Claro que isso vai acontecer. Alguns partidos foram para o lado de Dilma quebrados”, disse o líder tucano.

Além de trabalhar para ganhar terreno entre os prefeitos, os petistas minimizam as divisões do PMDB do Rio de Janeiro. A dobradinha é apelidada pelos próprios tucanos de “Aezão”, em referência à parceria entre o mineiro Aécio Neves e o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), aliado formal de Dilma e em campanha para reeleição.

“Esse negócio de Aezão não pega nem metade do PMDB do Rio. Um exemplo é o prefeito da capital, Eduardo Paes, que tem aí 40% do partido. É possível listar vários prefeitos de municípios importantes do Rio que estão com Dilma, como São Gonçalo, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Niterói e muitas outras cidades do interior”, explicou o vice-presidente nacional do PT Alberto Cantalice, que prefere não falar em estímulo à traição: “Não estamos avançando na base de ninguém e sim formatando a nossa chapa”.

Cantalice acredita que a força de Dilma nas pesquisas é o alicerce para manter os aliados unidos e evitar possíveis dissidências. “Como a presidente está muito forte, ela lidera todas as pesquisas, não acredito nesse movimento. A tendência é aumentar adesões, apesar de avaliarmos que será uma eleição difícil”, declara o dirigente, que não deixa de alfinetar os adversários. “Quem está atrás é que tem de correr atrás.”

O coordenador-geral da campanha de Aécio, senador José Agripino (DEM-RN), pondera com mais cuidado a questão, mas não deixa de criticar as alianças feitas por Dilma e a projetar uma suposta fragilidade nos acordos. “Não estou aparelhado para responder a isso, mas uma coisa é certa: esses apoios estão ocorrendo mediante à troca de favores. São apoios que ocorrem de uma forma constrangida. Isso é evidente. São apoios claramente oferecidos em troca de coisas que não são convenientes ao Brasil”, diz ele.

De forma indireta, Agripino faz uma menção ao PR e à demissão do então ministro dos Transportes, César Borges, cuja cabeça foi pedida por correligionários insatisfeitos com a falta de diálogo do ministro com o PR.

“Trocar um ministro bom por um outro ministro, que não sei se é bom ou se não é bom, para obrigar o partido a dar seu tempo de televisão e dar a sigla o apoio a uma candidata, não é uma coisa boa para o país. Agora, tudo que é oferecido de forma constrangida é frágil. Sendo frágil, é passível de mudança. O tempo dirá”, afirmou o coordenador-geral da campanha de Aécio.

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Entre as dissidências na base de Dilma os tucanos não deixam de citar a o descontentamento do PR com César Borges, que acabou provocando a saída do ministro da pasta dos Transportes. Soma-se a ele a iniciativa do líder da bancada na Câmara, Bernardo Santana (MG), que em abril lançou um manifesto pedindo a candidatura do ex-presidente Lula sinalizando insatisfação com a presidente Dilma. Por tudo isso, o PR é apontado pelos tucanos nos bastidores como possível foco de traição ao governo mesmo após o início da campanha.

O secretário-geral do partido e um dos principais articuladores do PR, senador Antônio Carlos Rodrigues, rejeita a possibilidade. “De maneira alguma. A votação da Executiva Nacional foi muito clara: 23 votos pela aliança com Dilma e só um voto contra”, resume ele. Mesmo assim, Rodrigues reconhece que nos Estados em que o PR não está aliado com o PT é natural que os candidatos peçam votos para outros partidos, mas isso não deve contaminar a campanha nacional. “Demos autonomia nos Estados”, justifica.

A deslealdade do PP com a candidatura de Alexandre Padilha (PT) ao governo paulista é apontada nos bastidores como o primeiro passo de uma possível tendência de traição no âmbito nacional. O presidente nacional do partido, senador Ciro Nogueira, justifica o movimento em São Paulo como um ato isolado orquestrado por Paulo Maluf. “Se dependesse do diretório nacional não teria havia essa mudança”, garante.

Nogueira reconhece, entretanto, que o PP tem boas relações com Aécio e o PSDB por diferentes razões. Ele cita o caso do Rio Grande do Sul, onde a candidata do PP ao governo local, Ana Amélia, apoiará Aécio e dará palanque ao tucano. “O Aécio tem apoios importantes dentro do PP”, admite. “Aécio é um grande amigo. Minha relação pessoal é a melhor possível. Dorenelles é tio dele. Não temos dificuldade de diálogo”, diz o dirigente do PP em referência ao senador Francisco Dornelles. Ao falar da aliança nacional, Nogueira procura afastar insinuações: “Difícil virar alguma coisa. Não temos como tomar outro caminho".

O PSD do ex-prefeito paulistano Gilberto Kassab também busca rejeitar qualquer chance dissidências. Quem assegura a parceria com Dilma é o deputado Guilherme Campos (SP), um dos principais articuladores do partido e parceiro próximo de Kassab. “No âmbito nacional, como nos Estados, isso já foi definido. Está fechado”, declara o parlamentar.

Já o PSB tem contabilizado como vantagens para seu candidato Eduardo Campos a posição de parte do PCdoB de Pernambuco que, apesar de fazer parte da base de Dilma, dará apoio informal a Campos.

Outra vitória considerada pelos socialistas diz respeito a São Paulo, onde Campos conta com a neutralidade dos tucanos que formaram a chapa dando ao deputado Márcio França a oportunidade de disputar uma vaga no Senado. “A candidatura de Eduardo Campos vai agregar muita gente do PSDB em São Paulo”, diz o deputado Júlio Delgado, um dos principais articuladores da campanha socialista.

Já a maior baixa registrada pelos socialistas ocorreu em Minas Gerais, onde ex-prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, declarou que apoiará o candidato tucano Pimenta da Veiga ao governo do Estado, palanque de Aécio Neves em seu Estado natal.

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