Kassab ocupa espaço deixado por Quércia e se transforma no cacique da vez em SP

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Com um partido para chamar de seu, o fundador do PSD se cacifa como personagem central da política de São Paulo, cujo passe é disputado sem constrangimento por petistas e tucanos

Há quem diga que nem o ministro-chefe da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif Domingos, poderia imaginar onde seu pupilo chegaria quando, nos idos de 1984, o introduziu à Associação Comercial de São Paulo. No auge de seus 24 anos, o engenheiro-economista-corretor Gilberto Kassab ameaçava os primeiros passos na vida pública. Trinta anos e quatro partidos depois, Kassab chega às eleições de 2014 negociando o cargo do próprio Afif. Com um partido para chamar de seu, o fundador do PSD ocupa ao poucos o espaço político deixado pela morte do ex-governador Orestes Quércia (PMDB) e se cacifa como personagem central da política de São Paulo, cujo passe é disputado sem constrangimento por petistas e tucanos.

Gilberto Kassab: Os 60 Mais Poderosos do Brasil

Futura Press
Cortejado por tucanos e petistas, Kassab põe à prova sua estatura politica nas eleições deste ano

Foi com um sorriso amarelo estampado no rosto que o ex-prefeito de São Paulo ergueu a mão de Dilma Rousseff na última quarta-feira (25) na convenção nacional do PSD, que ratificou apoio à reeleição da presidente. Kassab cumpriu sua promessa de apoiá-la negociando não apenas a manutenção da vaga de Afif na Esplanada dos Ministérios como barganhando outra pasta em hipotético novo mandato. Sem receber garantias, ouviu da presidente o pedido para não entregar seus 90 segundos de horário eleitoral ao projeto de reeleição do governador tucano Geraldo Alckmin em São Paulo.

Kassab também preferiu não prometer nada, revela um interlocutor. Mas ele deixou uma pista antes da convenção, quando, logo pela manhã, disse à imprensa que não apenas tinha dúvidas sobre apoiar Alckmin ou o candidato do PMDB, Paulo Skaf, como ainda cogita lançar candidato próprio ao governo paulista, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles.

A repercussão foi rápida. No no mesmo dia, Alckmin o convidou publicamente para ser o candidato de sua chapa ao Senado, abrindo uma crise no PSDB, que já havia feito a mesma proposta a outro padrinho de Kassab, o ex-governador José Serra.

O ex-prefeito tenta recuperar o terreno perdido entre os tucanos depois de demorar demais para aceitar o posto de vice-governador, agora nas mãos do PSB, que fechou aliança com Alckmin há três semanas. A demora na resposta se deveu justamente às tratativas com Skaf, que também cogita entregar a Meirelles ou ao próprio Kassab a vice-candidatura a governador.

Novo Quércia?

Com o partido em São Paulo na mão, mas sem popularidade para eleger-se governador, a estratégia passou a ser a negociação do tempo de televisão por espaço na administração pública. Embora se encaixe ao papel desempenhado por Kassab nesta campanha, a descrição acima poderia se referir a Quércia, morto em 2010 depois de quase duas décadas negociando os minutos do PMDB na TV com os mesmos petistas e tucanos. “O Quércia está para o PMDB paulista como o Kassab está para o PSD nacional”, compara o cientista político do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar) Antonio Augusto de Queiroz. “Além de negociar com Dilma, Kassab tem cacife regional porque comanda um partido que teve a habilidade de criar. Ele negocia como o Quércia.”

Edu Garcia
Depois de apoiar eleição de Lula em 2002, Quércia (à esquerda) se lançou ao Senado em 2010 apoiando o tucano José Serra

Professora de ciências políticas na Fesp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), Jacqueline Quaresemin engrossa as comparações. “O Kassab com certeza ocupou parte do lugar de Quércia na política paulista. Seja pela postura de negociador, o domínio sobre o partido ou a relação de amor e ódio com os paulistas.”

Para a estudiosa, Kassab ganhou importância em tempo recorde “porque é político no DNA”. Desde que começou na carreira, ele já foi vereador (1992), deputado federal (1999), secretário de Planejamento de Celso Pitta (1997), vice-prefeito (2004) e prefeito (2006-2013). Em 1995, ele se filiou ao PFL (atual DEM). No ano seguinte, já era vice-presidente da legenda no Estado. A presidência chegou em 2007, quatro anos antes de fundar o PSD. “Agora ele manda no quarto maior partido do Brasil. Ele fez essa trajetória muito rapidamente: é respeitado pelos partidos, mas ainda precisa definir sua imagem diante da população.”

O ex-prefeito não dá ponto sem nó, diz Queiróz, e as negociações simultâneas com PT, PSDB e PMDB provam isso. “O Kassab é um político pragmático. Ele não toma nenhuma decisão que prejudique seu partido. Hoje, por exemplo, é melhor para ele ficar ao lado do PT nacionalmente e com o PSDB em São Paulo porque, se perder em um lugar, pode vencer em outro. Alguém duvida que Kassab vai apoiar Aécio Neves [PSDB] se ele vencer a campanha presidencial? Essa migração vai ficar ainda mais fácil se ele já fizer parte do governo Alckmin.”

Presente na convenção nacional do PSD em Brasília, o deputado estadual José Bittencourt (SP) combate as contradições das alianças de seu partido destacando as qualidades do chefe. “Kassab é um homem de palavra. Ele disse que apoiaria Dilma e está fazendo isso. Essa qualidade é rara no mundo da política.”

As negociações do ex-prefeito também o colocam em perigo, avalia Queiróz. “Acho um grande risco que o presidente de um partido esteja disposto a ser o segundo de quem quer que seja. Seria melhor se ele se candidatasse a senador ou a deputado.”

As interrogações sobre o destino de Kassab devem durar pouco. Espera-se que a convenção estadual do PSD, marcada para segunda-feira (30), sele seu destino político pelos próximos quatro anos - ou até a nova rodada de negociações.

Leia tudo sobre: políticaigpolíticaeleiçõeseleições 2014kassabgilberto kassabpsdptpsdbdilma rousseffgeraldo alckminpmdbPaulo skaf

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas