‘Força da polícia não se compara à dos black blocs’, diz pesquisador canadense

Por Gisele Silva - iG São Paulo |

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Para Dupuis-Déri, que estuda o grupo há 15 anos, a repressão e a brutalidade policiais são 'totalmente desmesuradas' em comparação ao 'quebra-quebra de algumas agências bancárias'

Fenômeno que ganhou protagonismo no Brasil a partir das manifestações de junho de 2013, pouco se sabe sobre os black blocs além de sua estética de vestir roupas pretas, usar máscaras e atacar símbolos do capitalismo, como agência bancárias, durante os protestos. Recém-lançado no Brasil pela editora Veneta, o livro “Black Blocs”, do canadense François Dupuis-Déri, professor de Ciências Políticas e membro do Instituto de Pesquisa e Estudos Feministas da Universidade de Quebec, no Canadá, tenta esclarecer alguns aspectos sobre a atuação do grupo, que ainda desperta temor do governo e das autoridades a poucos dias da Copa do Mundo.

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Para ele, que estuda os black blocs há cerca de 15 anos, desde os protestos de Seattle, em 1999, há uma “confusão teórica” entre os críticos dos jovens mascarados e esclarece que o grupo é uma “tática”, e não “um tratado de filosofia, muito menos uma estratégia”. "Muitos criticam os black blocs por não propor teorias sobre a sociedade, ou o modelo alternativo ideal. Mas produzir esse tipo de coisa não é a função de uma tática militante."

Em entrevista ao iG, Dupuis-Déri criticou a desproporção entre a violência dos black blocs e a da polícia e disse que, mesmo se a força policial conhecesse os black blocs, não ia conseguir controla-los. “A força da polícia não se compara à dos black blocs, e a repressão e a brutalidade policiais são totalmente desmesuradas em comparação ao quebra-quebra de algumas agências bancárias”, afirmou. O pesquisador explica que, como não tem líder nem cadeia de comando, a polícia não tem como saber quem dirige o grupo e o que eles vão fazer exatamente, porque ninguém lidera e as ações são na maioria dos casos espontâneas. “O black bloc contra a polícia é Davi contra Golias, em que Davi acaba vencendo, e na maior parte das vezes com uma simples pedra”, conclui.

Veja imagens das manifesações de junho de 2013

03/06 - O ponto inicial das manifestações foi um protesto contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo, na zona sul. Foto: Luiz Claudio Barbosa/Futura Press06/06 - O primeiro ato se estendeu para um protesto com mais manifestantes, no centro da capital paulista. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press06/06 - O confronto com a polícia em São Paulo acirrou os ânimos nas manifestações. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press06/06 - O protesto contra o aumento das passagens deixou em lados opostos os manifestantes e as forças policiais. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press06/06 - E foi a partir deste dia que as manifestações ganhariam força e apoio de cada vez mais gente. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press06/06 - São Paulo. Foto: Tércio Teixeira/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: Wanderley Preite Sobrinho/iG07/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press07/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press10/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press11/06 - São Paulo. Foto: Futura Press11/06 - São Paulo. Foto: Futura Press11/06 - São Paulo. Foto: Futura Press11/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Luiz Claudio Barbosa/Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Euclides Oltramari Jr / Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Renan Tuffi/iG São Paulo13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Bilo/Futura Press13/06 - São Paulo. Foto: Euclides Oltramari Jr / Futura Press14/06 - São Paulo. Foto: J. Duran Machfee/Futura Press15/06 - Brasília. Foto: Rodrigo Villalba/Futurapress15/06 - Brasília. Foto: William Volcov/Brazil Photo Press15/06 - Brasília. Foto: Raul Spinassé/A Tarde/Futura Press15/06 - Brasília. Foto: Reuters15/06 - Brasília. Foto: Raul Spinassé/A Tarde/Futura Press15/06 - Brasília. Foto: Raul Spinassé/A Tarde/Futura Press16/06 - São Paulo. Foto: Leo Pinheiro / Futura Press15/06 - Berlim. Foto: Reprodução16/06 - Berlim. Foto: Reprodução17/06 - São Paulo. Foto: Alex Falcão17/06 - São Paulo. Foto: Futura Press17/06 - São Paulo. Foto: Euclides Oltramari Jr17/06 - São Paulo. Foto: Susan Souza/iG17/06 - São Paulo. Foto: Susan Souza/iG17/06 - São Paulo. Foto: Susan Souza/iG17/06 - São Paulo. Foto: Futura Press17/06 - São Paulo. Foto: Futura Press17/06 - São Paulo. Foto: Rafael Mantega17/06 - São Paulo. Foto: Gabriela Biló17/06 - São Paulo. 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Foto: Igor Mota/Futura Press20/06 - Belém. Foto: Igor Mota/Futura Press20/06 - Belém. Foto: Igor Mota/Futura Press20/06 - Rio de Janeiro. Foto: Murilo Rezende/Futura Press20/06 - Salvador. Foto: Bahia Raul Golinelli/Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - São Paulo. Foto: Futura Press20/06 - Recife. Foto: Leia Já20/06 - Recife. Foto: Leia Já20/06 - Recife. Foto: Leia Já20/06 - Ribeirão Preto. Foto: Futura Press20/06 - Brasília. Foto: BSB Valter Campanato ABr20/06 - Brasília. Foto: BSB Valter Campanato ABr20/06 - Brasília. Foto: Agência Brasil20/06 - Brasília. Foto: BSB Valter Campanato ABr20/06 - Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr20/06 - Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr20/06 - Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr20/06 - Brasília. Foto: Reprodução20/06 - Brasília. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr20/06 - Porto Alegre. Foto: Futura Press20/06 - Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/ABr20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Rio de Janeiro. Foto: AP20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Rio de Janeiro. Foto: O Dia20/06 - Curitiba. Foto: Daniel Castellano/GAZETA DO POVO/Futura Press20/06 - Curitiba. Foto: Daniel Castellano/GAZETA DO POVO/Futura Press21/06 - São Paulo . Foto: Iran Giusti21/06 - São Paulo. Foto: Renan Tuffi/iG 21/06 - São Paulo. Foto: Renan Truffi/iG São Paulo21/06 - São Paulo. Foto: Iran Giusti21/06 - São Paulo. Foto: Carol Martins21/06 - Ribeirão Preto. Foto: Piton/Futura Press23/06 - Brasília. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil24/06 - Porto Alegre. Foto: Luciano Leon/Futura Press26/06 - Brasília. Foto: Pedro França/Futura Press26/06 - Belo Horizonte. Foto: Lucas Prates/Hoje em Dia/Futura Press26/06 - Belo Horizonte. Foto: Marcus Vieira/O Tempo/Futura Press

Questionado sobre o que querem os black blocs, Dupuis-Déri explica que eles buscam expressar a crítica radical ao capitalismo porque o alvo é a mensagem para provocar o debate e demonstrar a crítica. “Eu praticamente nunca vi os black blocs atacarem um símbolo sem significado político ou econômico desde os tempos em que comecei a observar o fenômeno. Não se trata então de uma violência 'cega'”, disse.

Sobre quem são os mascarados, o canadense afirma em seu livro que, embora seja difícil fazer um perfil sociológico do grupo, é possível dizer que os Black Blocs são jovens, homens (em alguns casos, há apenas 5% de mulheres), anticapitalistas, de inspiração anarcopunk e, em sua maioria, estudantes e trabalhadores. “Normalmente, os black blocs divulgam comunicados ou manifestos para dizer que, por trás das máscaras, há estudantes, trabalhadores, funcionários públicos, assistentes sociais, desempregados etc.”

Leia a íntegra da entrevista

iG: Os black blocs são um fenômeno relativamente novo no Brasil, pego de surpresa durante as manifestações de junho de 2013. Mas a origem do grupo é de 1980 e você o estuda há 15 anos . Como ele pode ser definido? Quem são os manifestantes por trás da roupa preta e da máscara? Qual é o perfil deles?

Francis Dupuis-Déri: Em primeiro lugar, é preciso dizer que vários movimentos sociais tiveram ou ainda têm entre seus propósitos componentes que às vezes empregam ou empregaram ações turbulentas, perturbadoras e “violentas”, como a sabotagem, por exemplo. Isso vale para a história do movimento trabalhador e sindical, para os movimentos indigenistas, para os movimentos estudantis, e mesmo para o movimento feminista em alguns países. Dito isso, o black bloc é um fenômeno muito particular, porque imprime antes de tudo uma postura estética, uma ‘mis em scène’ de radicalidade. O ativista vestido de preto e mascarado encarna no imaginário coletivo a imagem de anarquista e ao mesmo tempo desordeiro. Essa imagem é muito forte. Ela é uma criação do movimento Autonomen, da Alemanha do oeste (em plena Guerra Fria) por volta do fim dos anos de 1970. O movimento Autonomen era ao mesmo tempo um fenômeno político e contracultural. Atuava para abrir centenas de squats, que eram um lugar para viver além de um espaço político e cultural. O movimento Autonomen estava à extrema esquerda e unia um tipo de marxismo libertário, anarquismo, feminismo radical e ambientalismo. E defendia a autonomia em relação ao sistema (Estado, capitalismo, propriedade privada) e às instituições, incluindo aí os partidos, os sindicatos e a mídia. Os Autonomen lutavam contra o racismo, contra os neonazistas, contra as centrais nucleares. Os black blocs apareceram nas manifestações para defender os squats que a polícia queria expulsar. Ainda hoje, acredito que há entre os black blocs indivíduos muito politizados, que criticam o Estado, o capitalismo e a polícia.

iG: No seu livro, você diz que os black blocs só existem durante as manifestações, nem antes nem depois. Mas, por outro lado, antes dos protestos o grupo discute como serão suas ações. Você pode nos explicar por que esses comportamentos não são contraditórios?

Dupuis-Déri: Muito bem apontado! Na verdade, o que eu quis dizer é que o black bloc é um fenômeno próprio das manifestações, de ações coletivas nas ruas. Em protestos, estamos acostumados a ver membros de sindicatos ou de grupos políticos marchando todos juntos, reagrupados em bloco, atrás de barreiras ou de bandeiras. Com o black bloc é semelhante. Eles são anarquistas, comunistas libertários, ambientalistas ou feministas que se encontram nas manifestações para formar um bloco compacto de pessoas vestidas de preto e mascaradas. Evidentemente que nada impede que alguns amigos se encontrem para definir e planejar a ação black bloc dias antes de uma manifestação. Trata-se de decidir quem vai carregar os cartazes, as bandeiras, quem será voluntário nos primeiros-socorros. Porque os black blocs tomam forma e vida somente durante as manifestações. Não são um comitê permanente, com uma sede, um número de telefone, uma conta bancária, uma lista de filiados. Várias pessoas só participarão uma vez na vida de uma ação black bloc. E muitas pessoas que se manifestam uma vez ou algumas vezes como black bloc podem muito bem fazer parte de outros protestos sem ser um black bloc, sem estar vestido de preto ou mascarado.

iG: Quando os black blocs atacam agências bancárias e lojas, eles acabam atraindo uma grande visibilidade midiática, bem como a crítica negativa da opinião pública, sobretudo da própria mídia. Essa é a intenção? Qual é a mensagem?

Dupuis-Déri: Não se pode esquecer que frequentemente os black blocs marcham pacificamente nas manifestações e que apenas sua presença já demonstra uma crítica radical ao sistema. O black bloc é como uma bandeira preta anarquista tecida no corpo dos próprios ativistas. Mas eles só provocam o debate público quando atacam símbolos do capitalismo e se lançam contra a polícia. Nesse caso, atenção: não existe apenas uma opinião pública, homogênea. A opinião pública é sempre diversificada, a revista Carta Capital fez uma pesquisa em agosto de 2013 [no auge das manifestações de junho], com cerca de 12 mil pessoas, e a maioria era simpática à ação dos black blocs. Normalmente, os black blocs divulgam comunicados ou manifestos para dizer que, por trás das máscaras, há estudantes, trabalhadores, funcionários públicos, assistentes sociais, desempregados etc. É o que dizia Mary Black na carta “De dentro dos Black Blocs”, depois da Cúpula do G8 em Gênova, em 2001. Ou ainda no “Manifesto do Quadrado Negro”, durante a greve de estudantes no Quebec em 2012. Em resumo, o black bloc não é exterior à sociedade ou à opinião pública. O black bloc está inserido na sociedade e a sociedade está inserida no black bloc.

Mas os black blocs não querem somente atrair a simpatia da opinião pública. Eles querem expressar a crítica radical ao capitalismo, tendo como alvo as agências bancárias por exemplo. Nesse caso, o alvo é a mensagem. Eu praticamente nunca vi os black blocs atacarem um símbolo sem significado político ou econômico desde os tempos em que comecei a observar o fenômeno. Não se trata então de uma violência “cega”, mesmo que algumas pessoas se choquem com as vitrines quebradas dos bancos. Para os black blocs, trata-se de provocar o debate, de expressar sua crítica, de romper com a ordem das coisas. As ações black blocs respondem também a uma necessidade, para os ativistas, de sentir que estão em ação, de experimentar a luta social e o conflito político de forma mais dinâmica do que simplesmente participar de uma passeata pacificamente gritando palavras de ordem. Quebrar vidraças ou lançar objetos contra a polícia se constitui em um processo de desalienação individual e coletiva para o grupo, um gesto ao mesmo tempo de rebelião e liberdade. Os participantes do black bloc podem compartilhar ainda, em meio à revolta, sentimentos de rebelião e liberdade como em uma festa popular. Resumindo, a intenção por trás do black bloc é múltipla, mesmo para os indíviduos que dele participam.

iG: A presença cada vez maior dos black blocs nas manifestações constrange grupos organizados, como sindicatos, e militantes contrários à violência. Mas, no seu livro, você explica que a tática black bloc acaba ajudando esses grupos. Você pode explicar como isso acontece e também falar sobre o caso do Rio de Janeiro, onde professores foram defendidos pelos black blocs contra a violência policial?

Dupuis-Déri: Desde que acompanho os black blocs, há sempre o mesmo debate sobre a questão da violência e da não-violência. Mas eu observo também que ao longo dos anos, dependendo do contexto, alguns conflitos se atenuam e novas alianças se formam. Essa dualidade era muito forte por volta dos anos 2000, durante o movimento antiglobalização no Ocidente e, nos anos seguintes, vimos algumas ações combinadas entre black blocs e grupos de ativistas não-violentos fantasiados de palhaços revolucionários, por exemplo. Em Montreal, onde eu moro, vários grupos militantes não fazem uso da força como os black blocs, mas são simpáticos aos black blocs e gostam de estar ao lado deles em manifestações porque admiram a coragem dos black blocs. Existe ainda um exemplo de movimento popular o No-TAV, em Val di Susa, na Itália, que luta há muitos anos contra a construção de uma linha de trem de alta velocidade. Faz tempo que eles praticam a sabotagem, bloqueando as rotas, enfrentando os policiais. Quando os anarquistas vieram lhes ajudar, e no meio deles havia black blocs, o movimento No-TAV não os rejeitou, ao contrário, eles disseram: “Somos todos black blocs!”. Enfim, não está claro que há uma divisão clara entra ações violentas e não-violentas. Um dos motivos do debate, é que muitas organizações grandes, como partidos de esquerda e sindicatos, são muito hierarquizados, com líderes, porta-vozes etc. que tem a pretensão de falar sozinhos em nome de todo o movimento social e de contestação. Além disso, com base nos fatos, estou convencido de que os distúrbios, seja por parte dos black blocs ou de outros grupos, acabam chamando a atenção para o movimento social. Especialistas que abordam a relação entre mídia e movimento social constatam isso: um pouco de distúrbio chama a atenção de todos os meios de comunicação, enquanto um protesto pacífico terá pouca ou nenhuma cobertura da imprensa. Evidentemente, a grande mídia tende a apresentar os black blocs de maneira pejorativa, mas o interesse que o black bloc desperta ajuda todo o movimento de contestação, afinal há mais jornalistas, mais cobertura e no fim todo o movimento ganha maior visibilidade na mídia, mesmo os reformistas.

Imagino que agora no Brasil com a possibilidade de manifestações durante a Copa do Mundo, talvez com a presença de black blocs, a mídia deve ter começado a falar sobre a situação difícil da economia, dando a palavra aos críticos do governo. Será que se tivessem medo da ação dos black blocs nas próximas semanas tratariam dos temas que são a causa dessa revolta?

iG: Os movimentos tradicionais, como os trabalhadores e os sem-terra, criticam o risco que os black blocs podem causar à luta popular. Os movimentos defendem que a violência pode resultar em uma ação mais repressiva do Estado. Após as manifestações de junho, no Brasil, o governo chegou a defender uma lei mais dura contra os manifestantes. Você acredita que isso é uma reação aos black blocs? O que essa tática de repressão nos revela?

Dupuis-Déri: Os black blocs dizem que a polícia não precisa deles para reprimir violentamente os moivmentos sociais, mesmo os pacíficos. E é verdade. Mas não sejamos ingênuos: as ações black blocs aumentam os riscos de intervenção da polícia e, por consequência, da repressão em geral. Dito isso, percebi que no Ocidente, e essa é a realidade no Brasil, existe uma desproporção escandalosa e ridícula entre a violência dos black blocs e a da polícia. A força da polícia não se compara à dos black blocs, e a repressão e a brutalidade policiais são totalmente desmesuradas em comparação ao quebra-quebra de algumas agências bancárias. Os black blocs não são responsáveis pela brutalidade policial. É a polícia, com a aprovação da elite política, que escolhe reprimir e criminalizar o movimento social, que é uma contestação cidadã. É a polícia a responsável pela sua violência contra os cidadãos.

iG: Para a esquerda, a violência é um recurso extremo que quase nunca deve ser usado. Mas os black blocs não pensam assim. Como essas duas ideais podem existir nas ações em comum?

Dupuis-Déri: De que violência estamos falando? De algumas vidraças quebradas, de lixeiras queimadas, de pedras lançadas pela polícia? Mais uma vez, trata-se de uma violência expressiva, praticamente simbólica. E, no contexto da histórica política, inclusive da própria América Latina, trata-se de uma violência mínima se comparada à violência de outras forças políticas, como o genocídio dos indígenas, as ditaduras militares, os grupos paramilitares, os grupos armados de extrema esquerda nos anos 1960 e 1970. Na verdade, com os black blocs, nós estamos quase ao nível zero de violência política. E nos manifestos e comunicados do grupo que leio há mais de dez anos, os black blocs não defendem a luta armada. Ao contrário, eles se empenham em esclarecer que quebrar vidraças de bancos não é uma violência, afinal nenhum ser humano sai ferido e os bancos não sentem dor... Acho que podemos comparar as ações black blocs às ações de sindicatos durante uma greve: bloquear as entradas, ocupar a sala do patrão, colocar fogo num veículo, sabotar as máquinas. É um pouco isso a ação dos black blocs, a diferença é que eles agem em locais públicos, no centro de uma grande mobilização.

iG: Hoje, vivemos um déficit democrático na nossa sociedade, segundo os sociólogos. Os jovens querem participar e buscam mais poder para a sociedade, mas não se identificam com as instituições. Os black blocs respondem a essa demanda?

Dupuis-Déri: Com as repetidas crises políticas e econômicas e o fracasso dos partidos de esquerda para enfrentar a direita e a ideologia neoliberal, é normal que tanta gente, sobretudo os jovens, se sinta alienada das instituições tradicionais como o Parlamento e os partidos. Então, como acabei de dizer, as manifestações em geral, mas também os black blocs, podem ser meios de expressão e de ação popular mais interessantes que o Parlamento, os partidos políticos ou mesmo alguns sindicatos, que viraram instituições desconectadas dos interesses reais das pessoas, além de não serem espaços políticos democráticos.

iG: Os black blocs se dizem contra o capitalismo, contra a hierarquia e contra toda a autoridade. Mas o que eles defendem, o que querem construir?

Dupuis-Déri: Os black blocs são uma simples tática nas manifestações, não uma estratégia geral para mudar o mundo. Muitos criticam os black blocs por não propor teorias sobre a sociedade, ou qual seria o modelo alternativo ideal. Mas produzir esse tipo de coisa não é a função de uma tática militante. Além disso, aqueles ou aquelas que participam do black bloc não fazem parte de um grupo homogêneo, não podemos dizer que há um projeto específico. Mas no geral trata-se de indivíduos que são na maioria das vezes anarquistas ou comunistas libertários e, portanto, contrários ao Estado e anticapitalistas. Há ainda os ambientalistas radicais e as feministas radicais. Podemos imaginar, então, que no mundo ideal, as organizações dentro do grupo e as relações humanas são mais igualitárias, libertárias e solidárias. Isso me parece um bom projeto. Em todo o caso, mais interessante politicamente e moralmente do que a o liberalismo político e econômico que nos propõem hoje.

iG: O governo brasileiro se prepara para conter as manifestações na Copa do Mundo e não sabe como agir contra os black blocs. A polícia diz que os protestos terão ajuda de black blocs do exterior, que viriam ao Brasil. Isso é possível? Podemos dizer que houve uma internacionalização dos black blocs e, por outro lado, uma cooperação cada vez mais intensa e menos eficaz da polícia de outros países contra o grupo?

Dupuis-Déri: Há anos que a polícia tenta conter as grandes mobilizações. Durante as manifestações nas Cúpulas do G8 e do G20, por exemplo, a polícia local recebeu o reforço de oficiais de outros países com potencial de receber esses eventos para que eles pudessem observar os métodos repressivos e avalia-los. Também há protocolos de troca de informação. Então, há, sim, uma internacionalização da repressão política. E, portanto, mesmo se a polícia conhecesse bem o fenômeno do black bloc, é muito difícil controla-lo apesar de todos os esforços. Como não tem líder nem cadeia de comando, a polícia não tem como saber que dirige o grupo e o que eles vão fazer exatamente, porque ninguém lidera e as ações são na maioria dos casos espontâneas. O black bloc contra a polícia é Davi contra Golias, mas Davi acaba vencendo, e na maior parte das vezes com uma simples pedra.

Enfim, você tem razão quando diz que os ativistas se deslocam para ajudar seus aliados. É verdade durante as grandes mobilizações antiglobalização. Mas atenção: as autoridades vivem dizendo que os black blocs são compostos por bárbaros que vêm de muito longe. Em Seattle em 1999, na Cúpula da Organização Mundial de Comércio (OMC), a polícia disse que os black blocs vieram do exterior; em Gênova, em 2001, na Cúpula do G20, a polícia disse que os black blocs vieram da Alemanha; em Toronto, em 2010, na Cúpula do G8, a polícia disse que os black blocs vieram de Montreal; no Egito, em 2013, as autoridades disseram que os black blocs do Cairo foram formados no deserto de Sinai pelo serviço secreto israelense! Dizem ainda que os black blocs não são políticos, que são jovens das torcidas de futebol, como na Itália, ou da periferia. Perceba uma coisa: você pode ser um fã de futebol ou um jovem da periferia, ser bastante politizado e se revoltar contra o Estado e o capitalismo. Mas se trata, sobretudo, de um discurso público para deslegitimar os black blocs, para dizer que eles são jovens irracionais, bárbaros. Isso é propaganda policial. A criminalização e a repressão não estão diretamente ligadas aos black blocs. É um sintoma do agravamento da crise social e política. Mas também é verdade que os ativistas black blocs, ao enfrentar a polícia, provam que têm coragem dentro desse contexto de radicalização da repressão policial.

iG: No seu livro, você fala da participação das mulheres nos black blocs e você diz ainda que quanto mais forte o movimento feminista em um país maior a participação de mulheres no grupo. No Brasil, vimos poucas mulheres por trás das máscaras. O que mudou nos últimos anos, há mais ou menos mulheres black blocs e como elas participam da ação?

Francis Dupuis-Déri: Os black blocs já foram muito criticados por serem um grupo de ‘homens machistas’, que excluíam as mulheres. É verdade em parte. Mulheres que participaram dos black blocs me disseram que havia uma divisão sexual do trabalho militante. Os homens monopolizavam as tarefas mais importantes e de maior prestígio, e as mulheres assumiam tarefas auxiliares – essenciais, mas menos célebres –, como ser responsável pelos primeiros-socorros. Com o passar do tempo e dependendo do contexto, há cada vez mais mulheres black blocs e elas estão cada vez mais assumindo a linha de frente (embora as tarefas auxiliares continuem sendo importantes). É o caso da Alemanha, mas também do Cadaná. Em Quebec, há mais mulheres black blocs do que há dez anos. Existe ainda grupos formados unicamente por mulheres dentro dos black blocs. Em entrevista, elas me disseram preferir atuar entre mulheres porque os homens black blocs tendiam a ser mais individualistas, menos solidários, menos reflexivos. As mulheres, por outro lado, tendem a cuidar umas das outras e escolhem seus alvos de forma mais cautelosa, minimizando os riscos a outros membros dos black blocs. Podemos dizer que faz todo sentido, do ponto de vista sistêmico, que as mulheres façam parte da contestação anticapitalista e que elas tomem à frente na luta, afinal elas geralmente ganham menos que os homens e são as mais afetadas na queda salarial e na alta dos preços. Quando o Estado corta serviços sociais, quem se sacrifica, gratuitamente, na família? As mulheres. São elas que cuidam dos idosos, das crianças, dos doentes e mesmo do marido desempregado. Ou seja, quando a economia vai mal, quem sofre mais são as mulheres. É normal então que elas estejam revoltadas e queiram lutar.

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