Partidos fazem chantagem de última hora em troca de apoio eleitoral

Por Luciana Lima e Marcel Frota - iG Brasília |

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Governo se esforça para atender a pedidos de aliados em troca de endossos e tempo de TV. Dilma considera PMDB, PP e PROS apaziguados, mas falta amarrar PR

Faltando pouco mais de um mês para o início da campanha de 2014 e com a proximidade das convenções, os partidos disputados pelos principais candidatos ao Palácio do Planalto aumentam a pressão sobre campanhas já desenhadas para a corrida presidencial. No rol de “pedidos de última hora”, estão as demandas por cargos, o controle de nomeações em órgãos federais e a cobrança por espaço nas chapas estaduais.

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Alguns partidos chegaram a condicionar apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff à demissão de ministros. É o caso do ministro dos Transportes, Cesar Borges, cuja cabeça foi pedida pelo PR e do ministro da Integração Nacional, Francisco Teixeira, cuja demissão foi exigida pela cúpula do PROS.

Agência Brasil
Dilma entre os peemedebistas Temer e Alves

As ameaças incluíram até a performance do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ). Conhecido por suas posições extremamente conservadoras, Bolsonaro se ofereceu como candidato a vice na chapa do tucano Aécio Neves, caso ele não conseguisse ser o próprio candidato à presidente da República. Enquanto Bolsonaro se oferecia, seu partido já acertava apoio à candidatura à reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Neste contexto, Dilma se esforça para manter sua base ampla para a disputa à reeleição. O Planalto passou as últimas semanas mergulhado em negociações com siglas como PR, o PROS, o PMDB e o PP. Ao mesmo tempo, políticos desses mesmos partidos não escondiam conversas com os adversários da presidente, o tucano Aécio Neves e o socialista Eduardo Campos.

Para garantir o apoio do PMDB na integralidade, o próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisou entrar em campo. Lula chamou a cúpula nacional do partido para uma reunião em São Paulo na semana passada. Depois de ouvir queixas sobre a condução da campanha de Dilma, o ex-presidente disse que o governo tem disposição de contemplar o partido, mas exigiu também, de contrapartida, apoio prioritário, tanto no plano nacional, como nos estados.

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Lula, segundo interlocutores, sugeriu inclusive que o PMDB enquadre líderes regionais para que embarquem numa parceria formal com o PT. Estiveram no encontro os senadores Renan Calheiros (AL), José Sarney (AP), Eduardo Braga (AM), Eunício Oliveira (CE) e Romero Jucá (RR).

Problema central

Para o Planalto, o PR neste momento é o principal problema. A legenda participou dos três governos petistas. Agora, se utiliza de sua força no meio evangélico conservador e seus dois minutos de televisão para tentar reaver, de acordo com interlocutores, o domínio do grupo mais ligado ao ex-deputado cassado Valdemar da Costa Neto sobre o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

O controle de diretorias do Dnit é importante para o PR pelo contato que proporciona com empreiteiros, potenciais doadores de campanha, com interesse nos contratos firmados para a construção de estradas.

Ao PR, Dilma já avisou que não entregará a cabeça do ministro dos Transportes, Cesar Borges, exigida por parte da bancada do partido na Câmara. Borges assumiu a pasta deixada pelo presidente nacional do PR, o senador Alfredo Nascimento. Ao assumir a pasta, Borges pediu o aval da presidente para poder demitir no Dnit, postura que irritou os dirigentes do PR.

Para não perder o apoio do PR, o governo admite entregar diretorias do Dnit, sem trocar o comando do órgão, hoje nas mãos do general do Exército Jorge Fraxe, que ficou famoso por promover uma “faxina” no órgão há dois anos, em meio a denúncias de propina.

“Isso não muda nada”, reclamou o senador Magno Malta que tenta reunir o partido para lançar seu nome na corrida presidencial no próximo dia 21 de junho, data da convenção do partido.

A candidatura de Malta é só parte da pressão. A bancada do PR chegou a acenar na direção de Aécio, puxada pelo líder do partido na Câmara, Bernardo Santana, que há duas semanas insuflou o movimento pedindo a substituição da candidatura petista pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Outro lado da pressão tem sido feita pelo deputado federal Anthony Garotinho, que esteve no apoio à Dilma durante todo seu mandato e quer disputar o governo do Rio de Janeiro. Garotinho agora fala em montar o palanque para Eduardo Campos no estado.

Mas o nome de Garotinho conta com o veto de Marina Silva e de seus seguidores na Rede. A ex-senadora e vice de Campos força a aliança no Rio de Janeiro com o PROS, na defesa da candidatura ao governo do deputado federal Miro Teixeira, apesar de seu desempenho fraco nas pesquisas já realizadas.

Aliado preferencial

Apesar de se esforçar para acertar os ponteiros com o PR, o Planalto considera superadas as divergências da bancada peemedebista na Câmara, que haviam sido lideradas pelo deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Pelas contas do bloco mais ligado ao vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), a maioria do partido aprovará no próximo dia 10 de junho, na convenção nacional, a aliança com Dilma e poderá deixar as bancadas livres nos estados para as coligações que bem entenderem.

Essa proposta foi defendida na Executiva do partido pelo próprio Cunha e obteve a aceitação de Temer. O líder, nas últimas semanas, não tem demonstrado mais o tom de crítica em relação à articulação do governo. Para aliados de Cunha e para integrantes do governo, a sua postura “mais governista” se deve a perspectiva de nomeações exigidas por ele no Ministério da Agricultura, que teriam sido sinalizadas pelo Planalto.

Desde que o ministro Ricardo Berzoini assumiu a articulação com o governo, Eduardo Cunha também voltou a participar das reuniões semanais da base no Palácio do Planalto. Ele havia suspendido sua participação na gestão da ex-ministra Ideli Salvatti, que deixou a articulação e assumiu a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

PROS e PP

Para apaziguar os ânimos no PROS, Dilma contou com a articulação do ex-ministro Ciro Gomes e seu irmão, o governador do Ceará Cid Gomes. Controladores da legenda no Ceará, Cid e Ciro ameaçaram deixar o partido e conseguiram, com isso, abafar a movimentação do presidente nacional da legenda, Eurípedes Júnior, do líder da bancada na Câmara, Givaldo Carimbão (AL), e do senador Ataídes Oliveira (TO), que pressionavam o governo para tentar substituir o ministro da Integração Nacional, Francisco Teixeira. Articuladores de Dilma admitem ceder ao PROS cargos no Ministério da Integração Nacional sem, no entanto, trocar o comando.

O PP confirmará apoio a Dilma na sua convenção nacional marcada para o dia 25 de junho. Mesmo com quatro diretórios estaduais contrários à aliança para a reeleição da presidente, a legenda assumiu o compromisso de apoio a Dilma nesta semana, em um almoço com a presença da presidente.

Somente os diretórios do Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Amazonas e Acre não fecharam a reprodução da aliança nos estados. No Amazonas a situação depende do apoio do prefeito de Manaus, Artur Virgílio Neto (PSDB) à candidatura de Rebeca Garcia. Se o tucano apoiar, o PT ficará do outro lado da cerca, ao lado do senador Eduardo Braga (PMDB).

Em São Paulo, único estado sem autonomia para definir sua situação, o PP apoiará o petista Alexandre Padilha, o anúncio oficial será feito nesta sexta-feira. Com a situação paulista definida, a conta da cúpula é que 20 diretórios apoiarão a tese de apoio a Dilma, o que deve sacramentar o futuro do PP na corrida nacional.

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