Plano inicial era disputar as eleições em outubro, mas presidente do Supremo viu que poderia ter efeito reverso

Quando deixar a presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) em junho, o ministro Joaquim Barbosa pretende viver um período sabático antes de voltar à cena pública novamente. Conforme o iG apurou, Barbosa, até esta quinta-feira, ainda não havia tomado uma decisão sobre seu futuro.

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Em entrevista coletiva, Barbosa admitiu que começou a amadurecer a ideia de sua saída no início do ano, durante as férias que passou na Grã Bretanha e na França. “Eu preciso de descanso. Eu amadureci essa decisão naqueles dois dias que eu tirei em janeiro, quando estive na Grã Bretanha e na França. Acho que foram decisivos para mim”, disse Barbosa. O ministro também sinalizou que, por conta das mudanças de ministros na Corte, resolveu antecipar sua saída do STF.

Conforme interlocutores, Barbosa pensa em algumas linhas de atuação na sua vida pós Supremo: uma é na carreira política e a outra, acadêmica com atuação em ativismo social. Mas essa segunda teria a função de deixá-lo em evidência justamente pensando em um futuro político. Segundo informação de interlocutores, Barbosa tem a intenção de retomar os estudos em Direito na Europa. Atualmente, Barbosa já é doutor em Direito Público e o hoje presidente do STF já se manifestou a interlocutores que gostaria de fazer um pós-doutorado, provavelmente na Alemanha.

Paralelamente a isso, o ministro também já se manifestou a interlocutores que gostaria de montar uma Organização Não Governamental (ONG), de prestação de serviços jurídicos a pessoas de baixa renda. Alguns interlocutores apontam que isso seria uma forma de se manter na ativa e em evidência pensando em uma eventual candidatura em 2018.

Conforme informação de interlocutores, o grande projeto do ministro é se lançar a uma carreira política. Quer seja como senador pelo Rio de Janeiro ou mesmo como candidato à Presidência da República, em 2018. A ideia inicial de Barbosa era se lançar já a esse ano e ele chegou a conversar sobre o assunto com o senador e pré-candidato Aécio Neves, conforme fontes próximas. No entanto, ele avaliou que se lançar à carreira política esse ano seria temerário e ele seria extremamente criticado por isso. Isso passaria a imagem de que ele se aproveitou do julgamento do mensalão apenas como trampolim político.

Conforme o iG apurou, pessoas próximas à Barbosa ainda cogitaram uma possibilidade dele se lançar na carreira política ainda em 2014, mesmo após o prazo de desincompatibilização (juízes tiveram até abril para largar a carreira, se desincompatibilizar e se candidatar a cargos eletivos). Pela legislação eleitoral, funcionários públicos em geral podem se candidatar se filiando até três meses antes das eleições. Assessores chegaram a tocar nessa possibilidade, mas para isso, Barbosa dependeria de uma interpretação “extremamente benevolente” do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Apesar de cogitar a aposentadoria desde o início do ano, Barbosa pensou nisso mais seriamente nas últimas semanas. Desde o início do ano, Barbosa já tinha sinalizado que não permaneceria no STF no segundo semestre do ano, principalmente a partir de outubro, quando o ministro Ricardo Lewandowski passará a exercer a função de presidente da Corte.

Isolamento no STF

Nos corredores do STF, fala-se que os problemas de saúde, a repercussão extremamente negativa das decisões sobre a execução de pena dos condenados no mensalão (Barbosa cancelou a prerrogativa de trabalho externo para presos do semiaberto que não tiveram pelo menos 1/6 da pena cumprida) e o isolamento cada vez maior de Barbosa no Supremo, anteciparam a decisão de Barbosa.

Um exemplo desse isolamento cada vez maior foi justamente o adiamento do julgamento das perdas ocasionadas pelos planos econômicos, na última quarta-feira. Barbosa queria que a questão fosse analisada antes da Copa, mas os demais ministros entenderam que o caso demandaria de mais tempo para análise e reflexão.

Outro caso desse isolamento foram as derrotas de Barbosa no julgamento dos embargos infringentes (que resultou na diminuição das penas de réus do mensalão como o ex-ministro-Chefe da Casa Civil José Dirceu). Além disso, conforme informações de interlocutores, Barbosa também temia ser novamente derrotado no plenário do Supremo no momento que a corte discutir as decisões relacionadas à execução de pena do mensalão.

Durante essa semana, Barbosa disse a alguns colegas que teria que “redistribuir processos”. À ministra Rosa Weber, por exemplo, na saída da sessão de quarta-feira, Barbosa afirmou que “uma coisa importante está por vir”. Além disso, Barbosa tem sido mais amigável com os colegas nas sessões mais recentes, um sinal interpretado como uma despedida antecipada do ministro. Interlocutores também afirmam que Barbosa já havia antecipado a decisão de sair à presidenta Dilma Rousseff (PT) em uma ligação que ele fez a ela há três meses. Mas na época, ele ainda não havia marcado uma data. Ele disse apenas que não ficaria no STF no segundo semestre do ano.

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