Deputado acusado de relação com o PCC diz que só entrega mandato na Justiça

Por Vasconcelo Quadros , iG São Paulo | - Atualizada às

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Luiz Moura afirma que não tem nenhuma relação com facção criminosa e fará sua defesa nesta quarta na Assembleia paulista

No olho do furacão desde que participou de uma assembleia de motoristas e cobradores, em Itaquera, na zona leste da capital paulista, em que estavam presentes um assaltante de bancos condenado e, segundo a polícia, 13 integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) - facção que comanda o crime de dentro e fora dos presídios - o deputado estadual Luiz Moura (PT), sinaliza que se tiver que cair, cairá atirando.

O caso: PT cria comissão para investigar envolvimento de deputado com PCC

Divulgação/Alesp
PT abre investigação para apurar elo de Luiz Moura com o PCC

“O culpa pelas facções é de quem deixou que elas se criassem. Não conheço ninguém do PCC e nunca tive relação com o crime organizado”, defendeu-se o deputado em entrevista exclusiva ao iG, nesta terça-feira (28), às vésperas de um pronunciamento em que irá responder, no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), as acusações que ameaçam sua permanência no PT e o mandato que conquistou pelo partido.

O deputado diz que não conhecia a maioria dos presentes à reunião - “não tem como pedir atestado de antecedentes” -, afirma que era uma assembleia de rotina para discutir salários e evitar que os operadores do transporte da zona leste participassem da greve da semana passada, e reclama que está sendo usado como “bode expiatório” numa disputa eleitoral cuja finalidade é atingir o PT. Renúncia, segundo ele, nem passa pela cabeça. Ele diz que ao fazer a interlocução entre trabalhadores e empresários, evitou que motoristas e cobradores da zona leste integrassem a greve da semana passada.

“Quem não deve não teme. Jamais renunciarei. Se o partido pedir, vou fazer a desfiliação, mas não devolvo o mandato”, afirma. “Se quiserem meu mandato, tem de buscar pela via legal”, avisa o deputado, que se sente como o “mordomo da história”, a quem a polícia acusa sempre que não consegue encontrar os verdadeiros culpados. Ela acha que o governo e o PSDB estão tentando jogar sobre suas costas a omissão da Polícia Militar diante do caos no trânsito durante a greve da semana passada. “Precisavam arrumar um culpado”, diz, ao negar relação entre a reunião e a destruição de ônibus na capital.

Moura diz que tem a solidariedade da bancada petista na Alesp e acha que a executiva estadual estará do seu lado, mas alerta que se houver pressão nacional para que deixe o partido, o PT então “não será mais o mesmo partido de esquerda” que defende a população pobre da periferia e “a dignidade humana” de quem é acusado injustamente.

Moura garante que ao participar da reunião na sede da cooperativa dos perueiros, a Transcooper, estava no lugar certo. “Nasci naquele meio e jamais irei contra minhas origens. O que fazia lá (reunião com trabalhadores do transporte) era de rotina. Havia mais de 50 pessoas no local”, afirma o deputado, que se diz vítima de acusações infundadas. “O PT não pode deixar de defender a dignidade da pessoa humana. Se deixar, não faz mais política de esquerda. Estará na direita. Não vou admitir nunca ser injustiçado”, adverte.

Ficha limpa

“Quero que alguém prove um ato que desabone minha conduta como deputado”, desafia. “Se tiver culpa, peço para sair”, afirma. Moura chamou de “irresponsável” o subsecretário de comunicação do governo paulista, Márcio Aith, que passou a jornalistas a informação sobre sua presença à reunião da Transcooper e deu entrevista levantando suspeitas sobre uma suposta relação com a facção que nasceu e se desenvolveu nos governos do PSDB. Ele acha que o jornalista cumpriu uma tarefa.

No pronunciamento que fará nesta quarta-feira (28), Moura mostrará um vídeo em que o secretário de Segurança, Fernando Grella, logo depois das declarações de Aith, afirma que “não há nada contra o deputado”. O secretário também diz que Moura não é alvo de investigação.

O deputado fez questão de mostrar que existem dois boletins de ocorrência (B.Os) sobre a operação que a polícia diz ter desencadeado para “averiguar denúncia dando conta que pelo local dos fatos estaria ocorrendo uma reunião do PCC – Primeiro Comando da Capital, para que fossem realizados ataques contra transportes coletivos”.

No primeiro B.O., emitido às 22h09, sobre a mesma diligência, o nome de Moura nem sequer é citado. É no segundo, das 23h45, que ele aparece, mas sem que se levante suspeitas sobre sua presença. “Deve-se constar também que na reunião estava presente, por convite dos diretores da Cooperativa o deputado estadual Luiz Moura, que foi liberado do local”.

Logo abaixo, a polícia registra a prisão do assaltante de bancos Carlos Roberto Maia, conhecido como Carlinhos Alfaiate, condenado no início dos anos 1990 e foragido, apontado como integrante do PCC. Nenhum dos dois BOs faz referência aos “13” integrantes da facção que a polícia informou estarem presentes à reunião, o que levou o deputado a perguntar onde foram parar os tais criminosos, já que se pertenciam ao PCC, a polícia, sob pena de prevaricar, tinha obrigação de prendê-los. Ele acha também que seu nome foi incluído no BO por orientação de terceiros, senão teria sido citado no primeiro registro.

O deputado admite que na juventude, quando usou drogas e álcool, envolveu-se em roubos no Paraná e Santa Catarina, foi preso, pagou a dívida com a Justiça, reabilitou-se e hoje se redime bancando, com recursos próprios e do mandato, 23 núcleos de atendimento para cinco mil crianças de 7 a 16 anos na zona leste. “Sou ficha limpa. Quem quiser me acusar vai ter que ter ficha muito mais limpa”, garante o deputado. Afastado da diretoria da Transcooper desde março de 2010, o deputado diz que não conhece os detentores de linhas que, segundo a polícia, integram o PCC e usam o transporte para lavar dinheiro do crime.

72 horas

A defesa que Moura fará da tribuna da assembleia nesta quarta será decisiva para seu futuro. Mesmo convencendo a bancada do PT, o deputado terá de prestar esclarecimentos à comissão criada pelo diretório estadual, que quer explicações e, segundo o presidente nacional do partido, Rui Falcão, dará uma palavra definitiva em 72 horas.

“Também quero resolver essa questão em 72 horas”, disse o deputado. Ele é irmão do vereador Senival Moura, líder do grupo e integrante da corrente PTLM (PT de Lutas e de Massas), comandada em São Paulo pela família do secretário Municipal de Transportes, Jilmar Tatto. Internamente, o grupo disputa espaço com a Mensagem, corrente à qual pertence o deputado federal Paulo Teixeira e outros petistas que pelo menos em duas ocasiões - uma delas antes das eleições de 2010, e outra recentemente - tentaram brecar o ingresso e, depois, o crescimento dos irmãos Moura no PT.

O deputado Luiz Moura não acredita que esteja sendo alvo de “fogo amigo”, mas também não entra em detalhes sobre divergências internas, já que sua estratégia agora é provar a inocência e impedir que o episódio dê mais munição aos tucanos. Ele acha que o partido ficará satisfeito com suas explicações e garante que, passada a tempestade, será candidato a reeleição e seu irmão a uma vaga na Câmara dos Deputados. Esta quarta-feira será uma espécie de “Dia D” para o futuro dos Moura e um ensaio sobre os temas que alimentarão a disputa entre PSDB e PT nas eleições deste ano.

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