Diretas Já: Brasil ainda está condenado a rearranjo das elites 30 anos depois?

Por iG São Paulo - *Marcelo Ridenti |

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Por ironia, Sarney, o líder que barrara as Diretas no Congresso, assumiu a Presidência após a morte de Tancredo. Consumava-se a 'transição transada' do País para a democracia

Neste 50º aniversário do golpe de 1964, comemora-se outra efeméride: os 30 anos das Diretas Já, movimento que ajudou a pôr fim ao regime militar. Há disputa pela paternidade entre as correntes políticas que o impulsionaram. Elas integravam partidos de oposição, cada qual com seu candidato à sucessão presidencial, como o PMDB do deputado Ulysses Guimarães e dos governadores Franco Montoro em São Paulo e Tancredo Neves em Minas Gerais, o PDT do governador fluminense Leonel Brizola e o PT do sindicalista Lula.

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Em novembro de 1983, o PT organizou o primeiro comício expressivo pelas Diretas Já, com cerca de vinte mil participantes em frente ao estádio do Pacaembu, em São Paulo. Mas o PMDB já promovera eventos menores, como o de Goiânia em junho.

CID Câmara dos Deputados
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O movimento passou a levar milhões de pessoas às ruas, em todo o Brasil, a partir do ato de 25 de janeiro de 1984 na Praça da Sé em São Paulo. O apoio de governadores e prefeitos de oposição foi fundamental para a mobilização. Além disso, havia desgaste pela longa permanência dos militares no poder e pela grave crise econômica, com recessão e inflação galopante.

Não obstante, o regime tinha maioria no Congresso e barrou, em 25 de abril de 1984, a emenda que defendia eleições presidenciais diretas. Além da pressão política sobre suas bases, lançou mão da censura e de outros mecanismos de intimidação. A derrota gerou frustração nos que foram às ruas. Mas havia um plano B – que as más línguas diziam ser em verdade o plano A – por parte de líderes partidários, sobretudo do PMDB. Se a cartada das ruas desse certo, o favorito para concorrer pelo partido seria Ulysses Guimarães. Caso contrário, Tancredo Neves seria o candidato no colégio eleitoral, mesmo sem ter maioria, pois seu perfil moderado poderia atrair votos da situação.

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As divergências nas prévias do PDS, vencidas por Maluf contra Andreazza, mais as pressões que se avolumavam desde as Diretas Já, permitiram o acordo entre Tancredo e os dissidentes do partido do governo. Eles indicaram Sarney a vice na chapa que foi vitoriosa. Por ironia, o líder que barrara as Diretas no Congresso assumiu a Presidência da República após a morte de Tancredo. Consumava-se a “transição transada” para a democracia, isto é, um rearranjo das elites sem alterações estruturais na sociedade e sem a desmontagem da herança autoritária. Ironia das ironias: 30 anos depois, Sarney e outros conservadores são aliados dos que hoje estão no governo federal e naquela época denunciavam a “transição transada”. Estará nossa sociedade condenada a ela?

*Professor titular de Sociologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor de livros como "Brasilidade revolucionária", "O fantasma da revolução brasileira" e "Em busca do povo brasileiro", todos pela editora Unesp

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