"Fui o primeiro funkeiro a pisar no Planalto" diz MC sobre 'rolezinho' com Dilma

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo |

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MC Chaverinho recebeu a reportagem em sua comunidade, onde comentou a estratégia eleitoral da presidente Dilma de se aproximar das lideranças dos novos movimentos sociais

Três pontos percentuais foi a derrapada de Dilma Rousseff na última pesquisa Ibope de intenções de voto para a campanha presidencial deste ano. Uma semana antes de escorregar de 40% para 37%, a presidente lançou mão de um expediente que, para especialistas, tem vistas no dia 5 de outubro – ela convidou para visita-la no Palácio do Planalto 30 jovens líderes de movimentos sociais para pedir apoio a sua reforma política e para assegurar que não vai enviar ao Congresso um Projeto de Lei que criminaliza as manifestações de rua.

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Ao lado de Nana Queiroz, criadora do movimento “Não mereço ser estuprada”, e de Clédson Pereira, do Movimento Passe Livre, estava “o primeiro funkeiro a pisar no Planalto”, o presidente da Associação dos Rolezinhos, MC Chaverinho, de 20 anos, que na semana passada recebeu a reportagem do iG na comunidade Cangaíba, extremo leste de São Paulo.

“Eu não fui a Brasília só falar de rolezinho”, afirmou ele entre um funk ostentação e outro. “Eu fui representar o funk, que não é considerado um estilo musical. Eu fui o primeiro funkeiro, saído do meio do problema, a pisar no Planalto.”

“É claro que a aproximação com esses jovens líderes é estratégico”, assegura a cientista política da Universidade Federal de São Carlos (Ufiscar), Maria do Socorro. “Primeiro porque a Copa do Mundo está próxima e a Dilma não quer o quebra-quebra do ano passado. Depois, porque, em ano eleitoral, ela pretende mostrar que tem liderança política ao manter diálogo com os setores que estão à frente dessa situação conflituosa.”

O MC se destacou na reunião em Brasília porque foi o único a falar grosso com a presidente: “Eles vêm com essa de companheiro pra cá, companheiro pra lá... Quando o pobre vê isso já sabe que é política. Eu disse que ela precisa aprender a se comunicar com o pobre.”

Divulgação
Dilma posa com representantes da Associação dos Rolezinhos após reunião de duas horas. Ela abraça Ricardo Sucesso enquanto MC Chaverinho faz pose ao seu lado

A professora lembra que, de fato, “a Dilma não é o Lula”. “Ela é uma gestora, mas já sabe que em ano de eleição a política faz parte do jogo e ela precisa se aproximar do eleitor.”

Chaverinho, que fala de política com a mesma desenvoltura com que canta sobre mulheres e marcas de roupa, não vê contradição em ostentar e pregar justiça social. “Só porque eu sou presidente da Associação dos Rolezinhos eu não posso usar marca?”, pergunta ele. “Eu trabalho a semana toda pra ir ao shopping no fim de semana e comprar um tênis que pode sim ser de mil reais. Não vai ser a presidente, o prefeito, ou um jornalista que vai me dar esse tênis.”

O PT e os movimentos sociais

A cientista política lembra que o PT tem tradição com outro tipo de movimento social: “Os tradicionais, que nos últimos anos se retraíram, como o MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra)”, exemplifica. “Nos últimos anos, outros foram surgindo com a característica de não estarem atrelados a partidos políticos.”

Para a professora, as novas lideranças têm a internet como principal aliado. “Eles se mobilizam do próprio quarto. Os rolezinhos e as manifestações de julho são o melhor exemplo.”

Na essência, diz ela, são movimentos de “pressão”, caracterizados justamente por estarem nas ruas. “Quando a Dilma chama para si a responsabilidade de trazê-los para a arena política, ela está dizendo ‘olha, se querem ser ouvidos, não adianta só ir para rua, tem de criar órgãos específicos que se organizam por meio de instituições publicas’. Mas essa não é a essência desses manifestantes.”

O MC Chaverinho dá uma pista. “Eu não gosto de política. Eu voto nulo”, afirmou ao ser questionado sobre suas preferências partidárias. “Também não me interessa se a Dilma vai se reeleger. O que eu quero é que o presidente, seja quem for, cuide das comunidades.”

Será que a estratégia da presidente vai dar certo? “Vamos ver na eleição”, diz a professora. “Mas o primeiro teste a gente vai ver na Copa do Mundo.”

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