Guerrilha do Araguaia estava fadada ao fracasso, diz ex-dirigente comunista

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Wladimir Pomar, membro do PCdoB na ditadura e hoje no PT, reconhece que houve erros graves na execução do maior movimento armado de esquerda que enfrentou o regime

Membro do Comitê Central do PCdoB no período da luta armada, o engenheiro Wladimir Pomar, hoje militante do PT, reconhece que houve erros graves na execução da Guerrilha do Araguaia e que o enfrentamento aos militares nos termos em que foi planejado estava fadado ao fracasso. 

“Faltou trabalho político de massas, o comando da guerrilha acreditou (equivocadamente) que estavam criadas as condições nacionais para a luta armada e, em vez de adotar uma tática defensiva, partiu para a ofensiva”, afirma Pomar.

Infográfico: os 10 fatos no Brasil e no mundo antes e depois de 1964

Violência policial é herança da ditadura: ‘Pau-de-arara está onde sempre esteve'

América Latina: Brasil foi o único país a mascarar golpe com 'ar democrático'

Site Wladimir Pomar
'Faltou trabalho político de massas', diz Wladimir Pomar, membro do PCdoB durante a luta armada


O dirigente disse que os sinais da queda de João Goulart, em 1964, eram tão visíveis que o golpe já havia sido tentado pelo menos cinco vezes entre 1945 e 1961. “Ninguém pode dizer que foi pego de surpresa”, afirma Pomar. O PCdoB, que anteviu o desfecho da conspiração, iniciou os preparativos da guerrilha antes do golpe e, em 1966, já havia se instalado no Araguaia.

Nesta entrevista exclusiva ao iG, o ex-dirigente comunista diz que o apoio da China a guerrilha era apenas político, fala da delação que levou à Chacina da Lapa - onde seu pai, Pedro Pomar, está entre os mortos - e conta que tratará do tema num livro que está escrevendo. Wladimir Pomar é atualmente consultor e, sinal dos tempos, por uma coincidência natural da militância política, intermedia negócios entre Brasil e China.

iG: Que avaliação o senhor faz hoje da Guerrilha do Araguaia? Não tinha condições de dar certo ou foi abortada?

Wladimir Pomar: A mesma que eu fazia no processo de preparação dela. Isto é, uma guerrilha que não tivesse por base um grande trabalho político de massas, e não levasse em conta o nível de consciência e de experiência de luta dessas massas, estaria fadada ao fracasso. Para piorar, o comando da guerrilha do Araguaia, ao invés de adotar uma estratégia defensiva, de acumulação paulatina de forças, acreditou que as condições nacionais para a luta armada estavam dadas e adotou uma tática ofensiva. O que o impediu de perceber o quanto fazia falta uma base política de massas e apressou a derrota da guerrilha.

iG: Que circunstâncias históricas justificaram o planejamento da guerrilha?

Pomar: Por um lado, o período compreendido entre o final dos anos 1940 e meados dos anos 1960 foi não só de tentativas de golpes militares, mas de efetivação de golpes e ditaduras militares, patrocinados ou apoiados pelos Estados Unidos, no contexto da Guerra Fria. No Brasil, ocorreram tentativas e golpes militares em 1945, 1954, 1955, 1957 e 1961. Tudo indicava que a ascensão do movimento social por reformas democráticas, intensificada nos primeiros anos da década de 1960, se confrontaria com nova tentativa de golpe militar. A preparação desse golpe era de conhecimento público. Ninguém pode dizer que foi apanhado de surpresa. Nessas condições, quem quer que pretendesse resistir a ele teria que planejar a resistência armada. A guerrilha rural era uma das opções.

iG: Em que a resistência armada contribuiu?

Pomar: A resistência armada, tanto a do Araguaia quanto as demais, contribuíram para colocar a nu a verdadeira natureza do golpe militar de 1964 e o regime que os militares reacionários tinham em vista implantar por cem anos ou mais, como declarou o general Etchegoyen. A resistência armada tirou a falsa mascara nacionalista e democrática que tentou justificar o golpe e o regime, e contribuiu para intensificar as contradições internas no poder.

iG: Que lições o conflito deixa para a história e para a democracia?

Pomar: Há muitas. Mas eu destacaria a que diz respeito à necessidade absoluta de ter uma massiva participação das classes populares em qualquer processo de resistência e/ou de transformações políticas.

iG: A reunião do Comitê Central de 1976, na Lapa, poderia ter outro desfecho se a chacina não tivesse ocorrido? A tese predominante não teria sido o prosseguimento das atividades de guerrilha?

Pomar: A reunião do Comitê Central (CC) de 1976, na Lapa, teve como desfecho a decisão de considerar, com pesar, a derrota estratégica no Araguaia e reavaliar em profundidade a estratégia em curso. A tese que predominou não foi a de dar prosseguimento à preparação de novas guerrilhas, como pretendia a minoria dos membros do CC. Mas a chacina policial militar, além de matar e prender parte considerável do CC, criou condições para que fossem apresentadas versões de que o CC não teria feito qualquer avaliação crítica do Araguaia. De qualquer modo, a evolução da vida política do país, nos anos seguintes, mostrou que a avaliação predominante naquela reunião do CC era a mais correta.

iG: O senhor sustentou que outro militante, Jover Telles, delatou a reunião. Como chegou a essa conclusão? Outros militantes colaboraram com a polícia?

Pomar: Primeiro eu sustentei que a reunião do CC fora chacinada pela existência de um traidor, tendo por base minha observação sobre o planejamento levado a cabo pelo DOI-CODI para executar sua ação. Tal planejamento seria impossível sem a colaboração de alguém que tinha pleno conhecimento de particularidades de funcionamento daquela reunião. Depois, quase dois meses depois, quando os presos puderam contar detalhes de suas prisões, e de como como Jover Telles e Manoel Novaes conseguiram escapar, tive a certeza de Jover era o traidor. Mas provar isso foi uma tarefa difícil e demorada, só completada quase oito anos depois, quando tive acesso a um documento do Exército que mostrava a prisão de Jover antes da reunião. Estou agora trabalhando um livro em que conto a saga para tal descoberta.

iG: Por que o grupo do qual o senhor fazia parte se desligou do PCdoB?

Pomar: Na verdade, vários membros do CC, inclusive eu, foram expulsos por supostas “atividades antipartido”. Naquela ocasião, havia certa convergência entre esses dirigentes expulsos sobre a necessidade de completar a avaliação crítica da guerrilha do Araguaia e as responsabilidades sobre a derrota. No mais, havia enormes divergências. Havia os que consideravam que o Brasil vivia uma situação revolucionária e que precisava, com urgência, de um novo partido dirigente. Eu achava que isso não existia e que tal caminho levaria apenas à formação de uma nova seita. Eles formaram o PRC, enquanto eu me filiei ao PT.

iG: Em que consistia o apoio da China à guerrilha? Onde e como entra a Albânia no cenário?

Pomar: O Partido do Trabalho da Albânia e o Partido Comunista da China eram os únicos partidos no poder com os quais o PCdoB mantinha relações internacionais. A pedido do PCdoB, o PC da China facilitou o treinamento militar de uns dois ou três grupos de militantes. Não me consta que o PT da Albânia tenha promovido algo idêntico. No mais, as relações eram estritamente políticas.

iG: Qual foi o desfecho da relação com a China?

Pomar: Em 1978, em virtude das reformas de mercado no socialismo chinês, o PCdoB passou a fazer críticas ao PC da China e, mais adiante, cortou relações com esse partido. Ignoro quando voltaram a reatar relações.

iG: Os militares dizem que caso a guerrilha vencesse ou se enraizasse, a China passaria a interferir numa faixa da Amazônia. Isso procede? Se não procede, o que o PCChinês ganharia com o apoio?

Pomar: Muitos militares construíram mitos e mais mitos sobre os comunistas e revolucionários. Antes havia o “ouro de Moscou”. No caso da guerrilha do Araguaia, havia esse mito da interferência da China na Amazônia. Naquela ocasião a China não tinha qualquer condição para interferir onde quer que fosse, ainda mais na Amazônia. Encontrava-se assediada. A leste havia o Japão e a Sétima Frota dos Estados Unidos. Ao sul, havia os 500 mil homens das tropas de combate dos Estados Unidos que tentavam derrotar a guerra de libertação do povo vietnamita. Ao norte, os soviéticos haviam acantonado um milhão de homens no rio Ussuri, e os chineses temiam uma invasão a qualquer momento. A oeste, por sorte dos chineses, havia as cordilheiras do Himalaia e do Pamir. Por outro lado, os chineses haviam aceito negociar com os Estados Unidos a intermediação para o fim da guerra do Vietnã e para o estabelecimento de relações diplomáticas entre ambos os países. Isso daria fim ao bloqueio militar, econômico e político-diplomático imposto pelos Estados Unidos desde 1949. Portanto, se a guerrilha vencesse, o único benefício da China seria contar com mais um aliado no contexto internacional.

iG: Por outro lado, em que medida os Estados Unidos contribuíram para eliminar a guerrilha?

Pomar: Do ponto de vista particular, talvez nenhum. Do ponto de vista geral, os Estados Unidos sustentaram a ditadura militar brasileira por todo o tempo, só havendo surgido rusgas com o plano do uso da energia nuclear e, mais tarde, com as denúncias de torturas e assassinatos, que fizeram surgir dentro dos Estados Unidos um forte movimento de pressão sobre o governo norte-americano.

iG: Gostaria que o senhor comentasse suas relações profissionais hoje com a China. O que vem a ser esse trabalho de consultoria entre Brasil e China?

Pomar: Minhas atuais relações profissionais com a China tiveram início em 1996. Portanto, muitos anos depois de eu haver me desligado das atividades práticas do PT. Elas tiveram por gancho, é lógico, minhas anteriores relações políticas com o PCdaChina, e minhas pesquisas sobre as reformas no socialismo chinês, que haviam resultado no ensaio “O Enígma Chinês, Capitalismo ou Socialismo”. Quando o desenvolvimento econômico e social chinês, previstos naquele ensaio, se mostrou real, justamente na década de 1990, vi a possibilidade de contribuir para a intensificação das relações econômicas e comerciais entre os dois países através de atividades profissionais concretas.

iG: Acredita que a Comissão Nacional da Verdade vá esclarecer ou reconstituir o que aconteceu no Araguaia e apontar onde foram parar os militantes desaparecidos?

Pomar: Acho difícil, porque a maioria dos desaparecidos parece ter sido incinerada. O que ela pode esclarecer melhor é a repressão selvagem contra os camponeses e índios acusados de simpatizarem com os guerrilheiros.

iG: Por que a CNV patina tanto nessa questão? Falta interlocutor para um diálogo produtivo com as Forças Armadas?

Pomar: O problema não é de interlocução. O problema é que a Constituição de 1988 não definiu claramente o papel das Forças Armadas, nem sua subordinação incondicional ao poder político. Na teoria as manteve como uma espécie de “poder moderador” e, na prática, como um “poder tutelar”. Nessas condições, é muito difícil fazer com que as Forças Armadas entreguem documentos que consideram confidenciais ou secretos, modifiquem seus sistemas autoritários e salvacionistas de ensino e treinamento, e se comportem como um aparato democrático do Estado.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas