'Forças Armadas devem pedido formal de desculpas ao País', diz Franklin Martins

Por Luciana Lima e Marcel Frota - iG Brasília | - Atualizada às

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Ex-ministro de Lula, protagonista do sequestro do embaixador Elbrick, diz que erro de avaliação levou Jango a não resistir ao golpe, na esperança de que se tratava de um movimento efêmero

Protagonista de um dos episódios mais marcantes da resistência à ditadura – o sequestro do embaixador norte-americano, Charles Burke Elbrick –, o jornalista Franklin Martins tinha apenas 15 anos quando se engajou na luta contra o regime militar. Ex-ministro da Secretaria de Comunicação do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ele foi obrigado na época a se exilar em Cuba, Chile e França. Passou períodos na clandestinidade e articulou movimentos de esquerda contrários ao regime ditatorial instalado pelos militares com apoio da direita conservadora.

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Passados 50 anos do golpe que na noite do dia 31 de março de 1964 mudaria os rumos políticos do Brasil, Franklin cobra um gesto contundente do Exército: “As Forças Armadas devem um pedido formal de desculpas ao país.”

O ex-ministro defende uma mudança profunda na formação dos militares brasileiros para que eles passem a enxergar que o que ocorreu no Brasil foi um golpe e não uma revolução. Desta forma, defende o jornalista, as Forças Armadas se tornariam mais integradas à sociedade, atuando permanentemente subordinadas ao poder civil. “As Forças Armadas não podem continuar nas academias com currículos que tratam o golpe de 64 como uma revolução libertadora”, critica ele. “Instituições de Estado não podem ir contra a democracia”, disse em entrevista ao iG.

Franklin ponderou ainda que as Forças Armadas “foram manipuladas por comandos que as colocaram contra o País”. “Para colocá-las contra o País tiveram de fazer um expurgo nas Forças Armadas de dimensões gigantescas. Não houve só golpistas nas Forças Armadas. Tinha gente que era contra o golpe”, afirma.

Erro de avaliação

Franklin lembrou o contexto de “efervescência” na política, na cultura e na economia brasileira no início da década de 1960 no Brasil e, apesar disso, a falta de um movimento de resistência ao golpe. Segundo ele, a maioria do País apoiava o cronograma de reformas apresentado e defendido pelo então presidente João Goulart e esse segmento acabou, entretanto, carente de apoio quando buscou um baluarte de resistência. “Quem tentou resistir procurou as lideranças políticas e as lideranças políticas não sabiam o que fazer”, contextualiza o ex-ministro.

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Para Franklin, um “erro de avaliação” levou o ex-presidente João Goulart a não resistir ao golpe. “Ele não tinha um esquema militar preparado, o que demonstra a falácia das teses de que ele estaria preparando um golpe de Estado. Não tinha golpe de Estado coisa nenhuma”, diz ele. “Acho que havia da parte do Jango um certo erro de avaliação semelhante ao que havia por parte de vários dirigentes políticos do País, inclusive dirigentes da direita que apoiaram o golpe, que é o seguinte: o golpe vem, ele durará seis meses, um ano, depois se convoca eleição e aí se retoma a normalidade democrática”.

Para Franklin, o golpe foi a realização de uma empreitada que visava impedir que demandas populares entrassem na pauta política do País. “O golpe, no fundamental, é uma tentativa de evitar que os trabalhadores, as forças populares, os camponeses, a intelectualidade, tudo isso, pudessem formar uma nova agenda do País, com modernização do País baseada na justiça social”, resume ele.

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O ex-ministro falou brevemente sobre as reedições das passeatas que em 1964 canalizaram apoio ao golpe, como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, ressuscitada recentemente e que aconteceu em São Paulo no sábado (22). “Acho isso uma bobagem sem tamanho”, dispara. “Tem um pessoalzinho no Brasil que vive dentro de um cápsula, uma bolha. Nem as Forças Armadas irão para uma coisa dessas”, emendou, ao defender que o Brasil não abandonará a democracia. “Quem pensar em algo diferente será isolado e não terá influência na vida política do país”.

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