50 anos do golpe: Ato no DOI-Codi de São Paulo homenageia as vítimas da ditadura

Por Agência Brasil | - Atualizada às

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'Estamos aqui hoje para que aquele horror nunca mais aconteça', declarou Maria Amélia Teles, ex-presa política

Agência Brasil

Rua Tutoia, 921, bairro Paraíso, São Paulo. Esse é o endereço de um dos mais violentos centros de repressão da ditadura militar brasileira: o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Defesa Interna (DOI-Codi). No prédio, onde atualmente funciona uma delegacia de polícia, pelo menos 56 militantes políticos foram mortos por fazer oposição ao regime e lutar pelo retorno à democracia. Hoje (31), no dia em que o golpe militar de 1964 completa 50 anos, movimentos sociais e organizações de direitos humanos fizeram um ato político-cultural no pátio externo do local.

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“Estamos aqui hoje para que aquele horror nunca mais aconteça”, declarou Maria Amélia de Almeida Teles, ex-presa política e uma das fundadoras da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos. Ela ficou presa por um ano no DOI-Codi. “Vi amigos serem mortos aqui. Vi minha irmã, grávida de oito meses, levar choques na barriga. Aqui foi lugar de estupro. Eu fui torturada aqui”, relembrou.

Renato S. Cerqueira/Futura Press
Ato no DOI-Codi presta homenagem aos mortos, torturados e desaparecidos durante a ditadura militar


Transformar as instalações da Rua Tutoia em um centro de memória, a exemplo do que ocorreu com a antiga sede do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), é uma das propostas apresentadas no manifesto lançado nesta segunda-feira por organizações de direitos humanos.

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O prefeito Fernando Haddad, que compareceu ao ato, considerou positiva a iniciativa de tornar o prédio em um espaço de memória. “Há projetos em cursos. Uma maneira de não repetir os erros da ditadura é manter a história viva”, disse. Somente na semana passada, o decreto do governo estadual que permitia o uso do imóvel pelo Exército foi revogado. O pedido foi feito pelo deputado Adriano Diogo, ex-preso político, que preside a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva. Em janeiro deste ano, o prédio foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), com o objetivo de consolidar a transformação do espaço em memorial das vítimas da ditadura.

O documento pede, ainda, a desmilitarização das polícias, por entender que a banalização dessa violência é “a pior herança da ditadura”. Segundo as mais de 140 organizações que assinam o manifesto, as mortes que eram acobertadas por falsas versões de suicídio, atropelamentos e mortes em tiroteios, durante o regime militar, têm uma forma atual: os registros policiais de “resistência seguida de morte” para ocultar o “extermínio de jovens negros e pobres de nossas cidades”. O manifesto critica as propostas de reformas legislativas como a Lei de Segurança Nacional.

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A advogada criminalista Rosa Cardoso, que integra a Comissão Nacional da Verdade (CNV), destacou que o DOI-Codi tem uma importância histórica e política, “não só pela quantidade de pessoas que foram mortas, desaparecidas, mas, também, por ter se constituído como referência para outros destacamentos instalados no Brasil”. Ela explicou que a sede abrigou, inicialmente, a Operação Bandeirantes, a qual, segundo apurações da Comissão Estadual da Verdade, contou com o financiamento de empresários paulistas. A advogada acredita que esse modelo de “tortura e extermínio” foi exportado para outros estados do país.

Sobre os movimentos recentes de apoio à ação dos militares, como a reedição da Marcha da Família, o ex-preso político Ivan Seixas, que coordena o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe), avaliou que são grupos minoritários, mas representam um pensamento de retrocesso no país. “Eles têm que agradecer a nós que derrubamos a ditadura. As pessoas que protestaram contra a instalação da ditadura há 50 anos foram abatidas a tiro e nós damos direitos a eles de se manifestar. A democracia é a melhor coisa que existe”, declarou.

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