'Me orgulho de nunca ter entregado ninguém', diz ex-companheira de cela de Dilma

Por Luciana Lima - iG Brasília |

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Sônia Hypólito brinca que era chamada de 'urso gordo' e guarda até hoje bilhete que recebeu da presidente ao deixar o presídio. Para ela, luta armada foi a única forma de resistir

A servidora pública do quadro da Câmara dos Deputados, Sônia Hypólito, 65 anos, diz ter esquecido muitos detalhes do período em que lutou intensamente contra a ditadura militar. No entanto, em meio às lembranças, coexistem inusitadas doses de humor e drama, do tempo em que lutou pela democracia no País, ficou presa e dividiu beliche com Dilma Rousseff, no Presídio Tiradentes, em São Paulo.

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“Na verdade, ela me enchia o saco porque ela me chamava de urso gordo”, conta Sônia em meio a gargalhadas. “Ela dormia na cama de baixo e eu na cama de cima. Então, ela estava sempre me enchendo o saco”, conta com um tom de carinho.


Desta época, Sônia guarda uma relíquia: o bilhete que recebeu da hoje presidente da República, quando saiu do presídio. “A carta começa com a seguinte frase: ‘Querido Urso Gordo’. Guardo comigo até hoje esse bilhete, a sete chaves. Ela era uma pessoa diferente. Muito quieta, sempre muito estudiosa, passava o dia lendo muito, mas também fazia trabalhos manuais para passar o tempo. Todas nós fazíamos crochê, de barbante. Hoje não gosto nem de ver”, lembra.

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Sônia é uma das “donzelas da torre”, apelido do grupo de mulheres que passou pelo prédio mais alto, bem no centro do Presídio Tiradentes. Da “torre”, propriamente dita, restou apenas o arco de entrada na Avenida Tiradentes, esquina com a Praça Coronel Fernando Prestes em São Paulo. No final de 1972, todo presídio foi demolido em função das obras do Metrô.

“Justiçamento”

Divulgação
Portal de pedra do antigo presídio Tiradentes, onde Sônia dividiu cela com Dilma

No baú de memórias de Sônia, ela também fala de um rosto nunca lhe saiu da cabeça. A face do presidente do grupo Ultra, o dinamarquês naturalizado brasileiro, Henning Albert Boilesen, assassinado em São Paulo pela resistência em 15 de abril de 1971.

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O grupo Ultra, dono da empresa Ultragás, é investigado por ser responsável pela “caixinha” dos empresários financiadores da chamada Operação Bandeirantes (Oban). A Oban foi financiada por diversos doadores privados. Além do Grupo Ultra, figuram empresas como a Ford, GM, Grupo Camargo Corrêa, Grupo Objetivo, Grupo Folha, o banqueiro Amador Aguiar, do Bradesco, entre outros, todos na lista de investigação da Comissão Nacional da Verdade.

Sem a memória fotográfica de Sônia, o “justiçamento” de Boilesen, termo usado pelos militantes, não teria sido possível. Ela conta que, quando ficou presa na Oban, a visita do empresário era aguardada como alvoroço pelos torturadores.

“Havia uma gritaria geral. Os policiais repetiam: o chefão vai chegar, o chefão vai chegar. Eu vi, por uma ou duas vezes, um homem, de terno e gravata, que entrava nas celas, fazia perguntas, falava com os torturadores. Estava na cara que era um civil dando ordens aos miliares”.

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A identificação só ocorreu depois que Sônia saiu da prisão, em liberdade condicional, e voltou para a casa dos pais. “Meu pai era diretor de uma indústria e trazia muitas revistas empresariais para casa. Um dia ele trouxe uma revista chamada Banas, que não existe mais. Foto de capa: Henning Albert Boilesen. Passei essa informação para a organização, localizamos a casa e daí foi feito o “justiçamento” dele”.

Luta armada

Para Sônia, seu maior orgulho foi não ter nunca entregado nenhum dos companheiros, apesar das torturas que sofreu na prisão. “Me orgulho de nunca ter entregado um companheiro”, diz. Para ela, a luta armada não foi um erro. Era uma tática necessária em um momento em que não havia outras armas.

“O que nós fizemos foi importantíssimo, tinha que ser feito. Foi uma forma de mostrar que tinha gente disposta a lutar contra eles, que tinha gente que não ia baixar a cabeça frente a eles. Não tinha outro jeito de fazer. Não tinha rádio, não tinha televisão, não podia panfletar, não podia nada, o Congresso estava fechado. Só nos restava partir para a luta”, destacou.

“A gente errou em algumas coisas, mas acho que, em respeito a todos os companheiros assassinados, sob tortura, sob as formas mais cruéis de violência, nós temos que valorizar nossa luta. Nós contribuímos um pouquinho para a derrota da ditadura porque eu acho que a gente deixou sementes, a gente mostrou quer era possível. Depois outras formas de lutar apareceram, mas eu acho que nossa coragem, nosso desprendimento, nossa dedicação valeram”, ressaltou.

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Estudantes protestam contra o golpe militar no centro de São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Nas imagens, aparece o então líder estudantil José Dirceu. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais O movimento estudantil foi responsável por muitas ações de protesto em oposição ao regime militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Os estudantes também tiveram apoio de alguns partidos e organizações políticas. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais O auge dos protestos contra o regime militar foi o ano de 1968 . Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Em 1968, houve a “Passeata dos Cem mil”, a “Batalha da Rua Maria Antonia” e o Congresso da UNE em Ibiúna. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Na luta contra o regime, o movimento estudantil assumiu postura mais partidária . Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais ‘Abaixo a ditadura’ e ‘Só o povo armado derruba a ditadura’ eram algumas das palavras de ordem usadas. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Logo que se instaurou o golpe, várias universidades foram invadidas. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais A luta estudantil contra a ditadura militar  se intensificou em 1966. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Em 1966, a UNE decreta em 22 de setembro o Dia Nacional de Luta contra a Ditadura. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes infiltrados se passavam por estudantes para relatar as atividades de movimentos estudantis para a ditadura militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Estudantes saíram às ruas em vários Estados e foram violentamente reprimidos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Os estudantes viraram uma grande força de combate à ditadura. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Estudantes eram duramente reprimidos por agentes da ditadura. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais O auge das manifestações foi em 1968. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais A  repressão perseguiu os líderes estudantis para conter  o avanço do movimento. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Na luta contra o regime, o movimento estudantil assumiu postura mais partidária . Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Em 1966, a UNE decreta em 22 de setembro o Dia Nacional de Luta contra a Ditadura. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais O movimento estudantil foi responsável por muitas ações de protesto . Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais “Abaixo a Guerra do Vietnã!” também era um grito de guerra na época. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes infiltrados se passavam por estudantes para relatar as atividades de movimentos estudantis para a ditadura militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes infiltrados se passavam por estudantes para relatar as atividades de movimentos estudantis para a ditadura militar. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Agentes da inteligência da ditadura militar acompanhavam de perto os militantes estudantis das escolas e universidades. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Fotos mostram a repressão à ocupação da Faculdade de Filosofia da USP, em São Paulo, pelos estudantes. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Imagens mostram o trabalho dos serviços de inteligência da ditadura militar, que acompanhava de perto as atividades de grupos considerados subversivos. 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Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Serviços de inteligência da ditadura militar acompanham o líder Luis Carlos Prestes, líder do Partido Comunista Brasileiro. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Carlos Lamarca, um dos líderes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), guerrilha armada que combatia a ditadura militar. Foto: Arquivo pessoalRegistros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Trabalhadores fazem comício no dia do Trabalho, em 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais Registros da ditadura mostram trabalhadores protestando no 1º de maio de 1968 na praça da Sé, em São Paulo. Foto: Arquivo Brasil Nunca Mais


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