Tradição de deboche político não poupa governo nem oposição no carnaval

Por Luciana Lima - iG Brasília |

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Em Brasília, pacotão sugere que presos do mensalão sejam transferidos para o presídio de Pedrinhas, no Maranhão, palco de rebeliões e desrespeito aos Direitos Humanos

Se a política, na maior parte das vezes, busca uma face mais sisuda, o carnaval é puro deboche. Mesmo assim, no Brasil, política e carnaval sempre estiveram juntos, para desespero dos políticos. Em ano de eleição e com o poder de divulgação das redes sociais, a relação se torna ainda mais intrínseca e instantânea.

Tanto que não funcionou o argumento utilizado na semana passada pelo prefeito de Salvador Antônio Carlos Magalhães Neto, para se esquivar de revelar de quem será seu apoio para o governo da Bahia. “É carnaval. Está proibido falar de política e sucessão estadual”, argumentou o prefeito, que por onde passa tem um perguntando se o candidato será mesmo Paulo Souto (DEM-BA).

Fantasia

Reprodução
Fantasia que tem feito sucesso entre os foliões ‘de esquerda’: ‘Eu tenho ligação com Freixo’

Em muitos momentos, o deboche é mais instantâneo do que se imagina. Neste ano, no Rio de Janeiro, uma fantasia que tem feito sucesso entre os foliões “mais de esquerda” é intitulada “Eu tenho ligação com Freixo”.

Para os foliões que aderiram ao apetrecho, trata-se de uma reação bem humorada contra a tentativa de ligar o deputado Marcelo Freixo (PSOL) aos acusados da morte do cinegrafista morte do cinegrafista Santiago Andrade, ferido em um confronto entre manifestantes e a polícia no mês passado.

Pacotão

Em Brasília, onde a política sempre pulsou mais que a folia, a catarse é puxada todos os anos pelo mais antigo bloco sujo da cidade, que sustenta o pomposo “nome cienífico” de “Sociedade Armorial Patafísica Rusticana Dër Pakoton”. É claro que a agremiação é mais conhecida como Pacotão, bloco que “não poupa situação nem oposição”.

Portanto, se não quiser ser citado pelo escracho do Pacotão, não seja político, ou ande na linha. Do contrário, será mais um personagem do bloco sujo que desde 1978 reúne foliões que brincam embalados pela crítica política, a ironia e a irreverência nas ruas da capital. Se o escândalo foi grande então, prepare-se para ser tema de marchinhas do bloco.

Neste ano, a marchinha vencedora é contra a censura. O Pacotão usou o som do apito para “vetar” políticos e ainda “eleitor burro”. Sobrou para a presidente Dilma Rousseff, para o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, e para os petistas condenados no processo do mensalão, José Dirceu e José Genoino.

“Para quem pensa que a censura acabou, está enganado agora que começou. Corta pra mim que agora eu vou falar, o Pacotão está na rua vem brincar. Corta pra mim, eu agora vou dizer. Pipipi é o que eu falo para vc. Para o PT (pipi), governador (pipi), para a presidenta (pipipipipipipi). José Dirceu (pipi), o Genoino (pipi), eleitor burro (pipipipipipipi)”, diz a letra da marchinha de autoria de Antônio Jorge.

Ele explica a escolha do som: “Trata-se do símbolo mais sonoro da censura. É usado em transmissões televisivas para bloquear palavrões”.


Outra marchinha deste ano, de autoria do jornalista Paulão de Varadeiro, sugere mandar os condenados do mensalão petista para o presídio de Pedrinhas, no Maranhão, palco de graves rebeliões de desrespeito a direitos humanos.

“Bumba meu boi, bumba dona vaquinha. Que maravilha que esplendor é o Maranhão. Eu vou morar na cadeia de Pedrinhas, com o Zé Dirceu e o pessoal do mensalão”.

A composição também não poupa denúncias de regalias que os presos de colarinho branco teriam recebido no presídio da Papuda, em Brasília. “O Zé Sarney a Roseana e a Dilminha já prometeram melhorar a situação. Vai ter lagosta caviar e mordomia. E muita grana pra gastar na eleição. Não é pouca merda não, não é pouca merda não, o semiaberto vai sair no Pacotão. Não é pouca merda não. Não é pouca merda não. O pacotão vai se mudar para o Maranhão”, diz a letra.

O bloco ainda guarda a irreverência de 36 anos, quando a luta era contra a ditadura militar, e segue sempre pela contramão da W3, uma das vias mais movimentadas da capital.

“Pó Royal”

Já a Banda Mole, o pré-carnaval de Belo Horizonte, foi embalada pela marchinha “O Baile do Pó Royal” que neste ano venceu o Concurso de Marchinhas Mestre Jonas, tradicional na capital mineira. Antes de ser a vencedora, a composição já fazia sucesso nas redes sociais ao ironizar a apreensão feita pela Polícia Federal do helicóptero pertencente ao deputado Gustavo Perrella (Solidariedade). A aeronave estava carregada com quase meia tonelada de pasta de cocaína.

A premiação rendeu R$ 5 mil aos autores da marchinha, Alfredo Jackson, Joilson Cachaça e Thiago Dibeto e aos intérpretes Gustavo Maguá, Oleives e Vitor Velloso. Para evitar processos, o vídeo com a composição, postado nas redes sociais ressalta que se trata de uma “história fictícia” e que “qualquer semelhança com personagens, acontecimento, ou fatos reais é mera coincidência”.

A letra brinca com os fonemas ao falar do pó espalhado no salão. “O pó rela no pé, o pé rela no pó”, diz o refrão. A letra também pergunta de quem é o pó. E confirma a resposta: “Ah é sim, Ah é sim”, insinua.


"Deixaram o Pó Royal cair no chão, em pleno baile de carnaval. Achei que ia rolar a confusão, mas a turma achou legal. O pó chegou voando no salão. Que farra sensacional! Deu até notícia na televisão. Virou Baile do Pó Royal. O pó rela no pé. O pé rela no pó. Esse pó é de quem eu tô pesando? Ah é sim, ah é sim. Você sabe e eu também sei de cor? Ah é sim, ah é sim. Não espalha que vai ser melhor”, diz a letra da marchinha.

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