Só no primeiro dia, partido pagou a Ramona R$ 850, arrecadados pela legenda para roupas e itens de higiene

A acolhida à médica cubana Ramona Matos Rodríguez pela liderança do DEM na Câmara inclui hospedagem em apartamento funcional, carro com motorista contratado pelo gabinete do deputado Abelardo Lupion (DEM-PR) e uma “vaquinha” para arrecadar fundos para a ex-integrante do Programa Mais Médicos . Na terça-feira (4), primeiro dia da cubana como refugiada na liderança do DEM, a médica recebeu R$ 850,00 para comprar roupas e itens de higiene pessoal. Desde então, novos valores têm sido repassados de acordo com pedidos de Ramona, conforme apurou o iG .

Brasil: Custo de vida assusta médicos cubanos, mas salário atrai

Médica diz que decidiu ficar no Brasil porque se sentiu injustiçada

A vaquinha do primeiro dia é quase o equivalente aos R$ 950,00 (US$ 400) recebidos mensalmente pela cubana quando trabalhava no Mais Médicos – outros US$ 600 (cerca de R$ 1.426) eram depositados pelo governo cubano numa conta.


O auxílio repassado pelo DEM foi usado nesta quinta-feira (6) pela médica para almoçar em um restaurante da Asa Sul de Brasília, na capital federal. Ramona está hospedada no bairro, mais precisamente no apartamento funcional onde vive Lupion. De acordo com as regras da Câmara, é “vedada cessão ou transferência (do apartamento funcional) para terceiros”, conforme definido no Ato da Mesa Diretora da Câmara nº 5, de maio de 2011. “O imóvel destinar-se-á exclusivamente à residência do Deputado e de seus familiares, vedada a cessão ou transferência a terceiros, a qualquer titulo”, diz o ato.

Lupion também colocou seu carro pessoal para Ramona circular por Brasília – o deputado não tem direito a veículo oficial por não ser membro da Mesa Diretora da Câmara. Embora o automóvel seja pessoal, o deputado tem direito a combustível pago pela Câmara. Em novembro, última prestação de contas realizada, Lupion apresentou nota de R$ R$ 428,69 em combustível.

Médica cubana terá visto cassado se for desligada do Mais Médicos

Cubana que abandonou o Mais Médicos será desligada do programa

A médica é transportada pela capital federal pelo motorista Geosmar Soares Cunha, que é lotado oficialmente como “secretário parlamentar” no gabinete de Lupion. O cargo oficial do motorista é definido pelo Ato da Mesa nº 58, de 2010, como de “exercício em Brasília, nos gabinetes parlamentares, ou no Estado de representação do parlamentar”. A definição, contudo, recebeu do mesmo ato da Mesa Diretora da Câmara a atribuição de “conduzir veículo” como uma das tarefas de um secretário.

Além de dirigir, o motorista também assumiu o papel de acompanhante da médica cubana no apartamento funcional ocupado por ela. Ramona tem sido acompanhada por uma funcionária aposentada da Câmara, que passa o dia apresentando Brasília à estrangeira. À noite, além da companhia do motorista de Lupion, Ramona é assistida por um funcionário da liderança do DEM – a equipe se reveza para dormir no apartamento junto com a médica.

Em viagem pelo interior do Paraná, o iG não conseguiu contatar o deputado Abelardo Lupion. O DEM afirma por meio da assessoria de imprensa da liderança que o uso do apartamento funcional de um servidor público faz parte de uma ação que atende a “questões humanitárias”. “Uma das funções parlamentares é fiscalizar o Poder Executivo. A médica Ramona esteve ligada ao Programa Mais Médicos, aprovado no Congresso Nacional, que foi enganado pelo Executivo, já que há diversas informações repassadas pelo Executivo que não se confirmam”, diz a legenda.

O partido tem ajudado a médica cubana como parte do que vem sendo chamado informalmente entre os deputados como “corrente do DEM”, uma ação coletiva de simpatizantes de Ramona. Essa corrente está ajudando a médica a alugar uma casa em Brasília.

Ofertas de emprego

A médica recebe ainda a assistência jurídica de Fabrício Medeiros, a advogado do DEM, que auxiliou Ramona a obter carteira de trabalho no Tribunal Superior do Trabalho (TST) para retirar carteira de trabalho.

O advogado orientou Ramona a entrar com pedido de refúgio ao governo brasileiro no Comitê Nacional Para Refugiados (Conare). O órgão do Ministério da Justiça tem aproximadamente 1.500 pedidos de refúgio em análise e concedeu 180 dias de permissão para Ramona ficar no Brasil sem visto definitivo. A autorização de permanência pode ser renovada enquanto não houver decisão final do Conare.

Enquanto o visto não sai, a médica avalia proposta de emprego articulados pela “corrente do DEM”. A médica recebeu propostas de entidades depois que a Associação Médica Brasileira (AMB) ofereceu trabalho na área administrativa. Ramona avalia ainda duas propostas de empresas fora da área médica.

‘Faltou diálogo’, diz amiga

A funcionária pública Silvana de Souza, que trabalha para a prefeitura em Pacajá (PA), cidade a 360 quilômetros de Belém onde a médica atendia no Mais Médicos, afirma que a cubana reclamava com frequência do salário abaixo dos R$ 10 mil pagos pelo Ministério da Saúde a profissionais de outros países que participam do Mais Médicos. “Ela sempre colocava que o salário era muito pouco”, diz.

Segundo a servidora as Secretaria de Habitação de Pacajá, que ficou amiga de Ramona no período em que ela chegou à cidade paraense, a médica recebia auxílio alimentação, alojamento mobiliado que dividia com outros integrantes do Mais Médicos, internet Wi-fi e motorista com carro da prefeitura. “Acho que houve muita falta de diálogo dela com a gente”, opina Silvana.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.