Ex-deputada Thelma de Oliveira revela que Dante de Oliveira viveu momentos de tensão diante das incertezas e da hesitação dos principais líderes da oposição

O então deputado Dante de Oliveira foi autor da emenda para eleição direta do presidente
CID Câmara dos Deputados
O então deputado Dante de Oliveira foi autor da emenda para eleição direta do presidente

A ex-deputada Thelma de Oliveira, viúva do autor da emenda que propunha eleições diretas para presidente em 1984, revela, três décadas depois da maior jornada de manifestações populares de massa, que o ex-governador mato-grossense Dante de Oliveira viveu momentos de tensão diante das incertezas e da hesitação dos principais líderes da oposição. “O Dante teve medo que a campanha virasse uma mobilização da esquerda”, lembra Thelma, que atualmente integra o diretório nacional do PSDB.

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iG: Qual foi o momento mais tenso entre a apresentação da emenda e a campanha?

Thelma de Oliveira: Dante sempre achou que a população queria a volta das eleições diretas para presidente. Assim que assumiu o cargo de deputado, em março de 1983, ele fez uma pesquisa na Câmara e, para sua surpresa, descobriu que todas as emendas que tratavam do tema tinham perdido a validade. Decidiu então apresentar imediatamente a proposta. Ele era engenheiro especializado em cálculos estruturais e resolveu dar à emenda um texto curto, simples e, segundo sua concepção, com engenharia política que fosse compreendido pela sociedade.

Quando o tema era discutido entre os deputados que o apoiavam (um reduzido grupo egresso das organizações armadas) e os grandes líderes de oposição ao regime ainda não manifestavam interesse, ele ficou com medo de que a campanha ficasse reduzida a uma mobilização da esquerda. Foi um momento de dúvidas, mas ele sabia se Ulisses e os governadores encampassem a proposta, a campanha deslancharia e poderia mudar o país.

iG: Quando as coisas começaram a mudar?

Thelma de Oliveira: Foi depois do comício de Goiânia (junho de 1973). A população entendeu a mensagem e foi às praças, despertando os governadores da oposição. O tema empolgou mesmo quando se percebeu que todos os setores da sociedade, inclusive as crianças – que compareciam em grande número –, passaram a participar. Depois que artistas, intelectuais, estudantes e sindicalistas se incorporaram, o movimento conquistou o país. A população tinha consciência clara sobre democracia e o direito de escolher o presidente. A emenda atendia esse desejo.

iG: Qual a diferença entre 1984 e as manifestações de 2013?

Thelma de Oliveira: Nas diretas a população percebeu a força que tinha e queria mudar. O foco era tirar a ditadura do poder e trazer democracia de volta. Quando a emenda foi derrotada, essa mesma população ficou decepcionada, mas permaneceu mobilizada. Respaldou a disputa de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, pressionou pela convocação da
Assembleia Nacional Constituinte e, mais tarde (1992), participou do processo de impeachment do Collor. Em 2013, a pauta era mais ampla: qualidade de vida, saúde, mobilidade urbana, educação, etc.. Acho que houve imaturidade e não se conseguiu avançar.

iG: Como a senhora recebeu a notícia da derrubada da emenda?

Thelma de Oliveira: Nós estávamos ao lado de Ulysses Guimarães e de dona Mora (mulher de Ulysses). Foi um momento de frustração porque faltaram apenas 22 votos. Dante lamentou, mas ao mesmo tempo avaliou que o país tinha avançado, o sistema de governo havia sido quebrado e que não poderia haver recuo nem retrocesso. Era preciso seguir em frente com o Tancredo, que simbolizava as mudanças.

iG: Depois veio uma nova frustração, com a morte de Tancredo. Como reagiram?

Thelma de Oliveira: O Dante foi convidado para assumir o Ministério (da Reforma Agrária), mas ficou em dúvida se Sarney (ex-presidente e hoje senador José Sarney) queria fazer a reforma agrária. Também tinha dúvidas se aceitava o convite (Sarney tinha sido contra as diretas e conspirara pela rejeição da emenda). Ele discutiu o assunto com companheiros e, no final, concluiu que havia espaço para trabalhar e avançar. O latifúndio era muito forte (época em que União Democrática Ruralista, UDR, atingira seu auge) e havia um movimento fraco de pequenos agricultores, que eram chamados simplesmente de posseiros. Não havia nem a expressão sem-terra. Ele abriu o diálogo com os movimentos sociais.

iG: O que mudou no seu Estado com a campanha?

Thelma de Oliveira: Mato Grosso era historicamente governado por uma elite com fortes ligações com os militares. A campanha das Diretas criou um cenário diferente no Estado, com novos atores e novos líderes. Dante consolidou sua trajetória e construiu uma nova força política. O primeiro efeito se deu na estrutura de poder: a oligarquia caiu. (Dante de Oliveira se elegeria prefeito de Cuiabá, governador por dois mandatos e se transformaria no principal líder regional durante 17 anos, até ser derrotado em 2002 pelo senador Blairo Maggi. Morreria em 2006, de uma pneumonia agravada pelo diabetes).

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