Jovens hoje são mais políticos e menos partidários do que os das Diretas Já

Por Natália Peixoto - iG São Paulo | - Atualizada às

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Ao comparar protestos, especialistas ouvidos pelo iG afirmam que os manifestantes de hoje resistem à 'velha política', mas levantam bandeiras para mudar a sociedade

O ano de 2013 surpreendeu quem acreditava na apatia política do jovem brasileiro. Milhões saíram às ruas e movimentaram a agenda politica nacional a partir do grito por passe livre no transporte público. No dia 21, auge das manifestações que marcaram o mês de junho, 100 mil pessoas tomaram as principais vias paulistanas e pararam a capital financeira do País. O número, mesmo gigantesco, é menos de um décimo da massa de 1,7 milhão que encheu o centro de São Paulo no dia 17 de abril de 1984, todos entoando o grito por Diretas Já.

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Nas três décadas que separam os dois momentos políticos, seis presidentes foram eleitos diretamente, os brasileiros viram suas opções de partido saltarem de quatro (PMDB, PTB, PDT, PT) para 32, e a população saltar de 129 milhões para mais de 202 milhões. No período de maior estabilidade democrática do Brasil, o PIB per capita cresceu mais de oito vezes, saltando de R$ 2.696 em 1984 para R$ 22.235 em 2012, embora não na mesma proporção que a distribuição de renda. As manifestações, que começaram em março de 1983, em uma era sem internet e à mercê da TV e dos Correios, levaran um ano para cair no gosto do brasileiro. Em 2013, o País entrou em chamas em menos de um mês. 

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Uma coisa não mudou: a disposição política do jovem. Apesar das mudanças das bandeiras e dos métodos de expressão escolhidos, a geração que se formou sem vivenciar as Diretas ou o movimento dos Caras Pintadas em 1992, também se preocupa com política - mas não a "velha política" de sempre. Para o professor da Unesp Marco Aurélio Nogueira, autor do livro “As Ruas e A Democracia”, os jovens de hoje são resistentes a algumas características dos partidos, como estrutura hierárquica e ritos burocráticos. "Antes, em 84, os jovens eram mais ‘partidários’. Hoje, são mais ‘políticos’, no sentido de que se preocupam mais com o modo de intervir para que a vida coletiva melhore. Além disso, não aceitam a ideia de que seria preciso fazer uma entrega incondicional à política, como se a política devesse ocupar a maior parte do tempo de vida de alguém. [Eles] negociam seu engajamento e buscam preservar zonas consistentes de vida fora da política", analisa.

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Para o o historiador da UFRJ Carlos Fico, é errada a leitura de que hoje "os jovens são despolitizados". "A juventude tem uma politização que, claro, tem características diferentes, mas que estão sempre dispostos. A política muda, e a própria forma de manifestação muda. Hoje em dia há um importante papel das redes sociais, que antes não existia. Os objetivos são distintos. As manifestações hoje em dia tem uma inteligência muito grande, principalmente em relação aos eventos simbólicos. Os rolezinhos, por exemplo, os meninos que fazem têm noção consciente ou inconsciente da importância de aparecer na mídia", afirmou.

Todos filmam, fotografam, ensaiam gritos de guerra e performances, contra a polícia, o sistema, o mercado. As bandeiras variam, mas todas orbitam em torno de maior acesso à cidadania: transporte, saúde, educação etc. A tática black bloc, marca das manifestações após a redução da tarifa (de julho em diante), explora a força dos símbolos em todas as suas ações: das máscaras pretas para não serem identificados aos alvos escolhidos nas quebradeiras dos rescaldos dos protestos, como as agência bancárias.  

Tancredo Neves, que seria o primeiro civil a assumir o comando do País, morreu antes de tomar posse. Foto: AEOs governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro, André Franco Montoro e Leonel Brizola (c), estavam entre os políticos que articularam o apoio a emenda. Foto: AEAutor da emenda que pedia a volta das eleições diretas, Dante de Oliveira exerceu vários cargos, entre eles governador de MT. Foto: CID Câmara dos DeputadosA cantora Fafá de Belém foi a voz das Diretas Já. Foto: AEO jogador Sócrates, morto em 2011, também se engajou na campanha das Diretas. Foto: AEApelidado de senhor Diretas, Ulysses Guimarães - morto em 1992 - teve papel fundamental na campanha. Foto: AEO senador Teotônio Vilela, responsável por lançar a ideia da campanha, morreu antes de os comícios tomarem o País. Foto: Agência SenadoMiguel Arraes, ex-governador de Pernambuco morto em 2005, era uma das lideranças progressistas do movimento. Foto: Divulgação PSBO ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1º na foto) teve participação ativa na campanha das Diretas. Foto: AEO ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva também lutou por eleições diretas e dividiu palanque com FHC. Foto: AEO então deputado Mário Covas também estava presente nos comícios e nas articulações pró-diretas. Foto: Agência EstadoA atriz Lucélia Santos participou dos comícios das Diretas Já. Foto: George MagaraiaChristiane Torloni, chamada de musa das Diretas, teve participação ativa nos palanques. Foto: DivulgaçãoO radialistas esportivo Osmar Santos emprestou sua voz para a campanha das Diretas Já. Foto: Divulgação/Facebook Mogi MirimO ator Mário Lago, morto em 2002, era dono dos discursos mais contundentes nos comícios das Diretas. Foto: DivulgaçãoSempre engajada, a atriz Bete Mendes também teve papel importante nas Diretas. Foto: AgNewsO cantor Chico Buarque participou de vários comícios das Diretas Já. Foto: Taiz DeringProtagonista da luta contra as barbáries da ditadura, d. Paulo Evaristo Arns também apoiou as Diretas Já. Foto: Reprodução Facebook


O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) - na época o primeiro reitor eleito de forma direta na Universidade de Brasília (Unb) - diz que os jovens que lotaram o Congresso pelo direito de eleger o próximo presidente nos anos 80 tinham "mais sonhos". "Eu acho que naquela época a política tinha mais mística, mais propostas, uma empolgação em mudar o País. Hoje os políticos estão mais modestos, para não dizer medíocres. Perdemos a mística e a nitidez", diz o senador, que critica as alianças partidárias pragmáticas para assegurar o poder, segundo ele, uma prática recente e mais frequente a partir da eleição de Lula em 2002.

Nogueira também critica o desvio nos objetivos dos políticos que atuam hoje no País. "Partidos e parlamentares, que são os principais agentes da democracia organizada, perderam o pé da realidade social: cuidam mais de seus próprios negócios do que das demandas populares e dos interesses sociais. Afastaram-se da sociedade", diz. O professor credita o menor interesse do brasileiro na política institucional ao crescimento econômico constante desde a retomada democrática. "Há mais oferta de bens, o consumo está massificado, o mercado é ativíssimo e as pessoas têm boa parte de sua energia encaminhada para a economia e o comércio. O menor engajamento político de hoje tem a ver com esse processo, que praticamente desorganizou o que havia de vida organizada, especialmente na política." Para ele, o Brasil de hoje é uma sociedade ‘fora de controle’, ao contrário do País de 1984, menos desenvolvido e ‘mais simples’, mais efetivamente nas mãos de quem tinha poder.

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Se algo permanece firme desde a queda da ditadura, são os aparatos de repressão. A polícia continua militar e houve até casos de prisões de manifestantes enquadrados na Lei de Segurança Nacional, herança do governo autoritário. Em São Paulo, a corporação foi duramente criticada por deter jovens por porte de vinagre, propagandeado como um antídoto ao efeito moral do gás lacrimogênio das bombar, por agredir jornalistas que cobriam os eventos, e por usar indiscriminadamente balas de borracha.

Mas em tempo de democracia, os excessos devem ser investigados e os governantes são cobrados pela população. "Em 1984, tinha-se pela frente uma ditadura. Faziam-se comícios e ações políticas num clima de medo e insegurança. Os governos ameaçavam e seus órgãos repressivos eram fortes. Hoje, vive-se em democracia. Os governos ouvem, buscam negociar, recebem manifestantes e dão condições de manifestação a eles. Só não é melhor porque os órgãos repressivos não melhoraram como deveriam: ainda não aprenderam a lidar e a conviver com as manifestações sociais de hoje", diz Nogueira.

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