Artigo: Da ribalta às coxias

Por iG São Paulo - Itamar Garcez *, especial para o iG |

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O assessor de comunicação Marcelo Déda fala sobre a experiência de conviver com o governador de Sergipe, morto em 2013

Do lado de fora, ele esperava sentado num modesto banco de madeira. Com serenidade, observava transeuntes, já que a parte oficial da viagem estava encerrada. Dentro do pequeno quiosque, eu buscava o presente que levaria na volta para casa. Ele era Marcelo Déda, com quem convivi, ao todo, por oito anos. Sua atitude respeitosa ao esperar-me, de não se impor desnecessariamente pela força do cargo que ocupava, não era exceção ou deferência pela amizade mútua.

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Certa vez, um motorista narrou-me a generosidade do então governador de Sergipe. Em viagens, Déda retardava sua refeição com o intuito de que todos os comensais, inclusive os que serviam de apoio às comitivas, terminassem de comer. "Ele queria que todos comessem com calma", contou. "Se ele se levantasse, todo o mundo levantava. Aí, ele comia com um olho na gente".

Quantos forem ouvidos, tantas histórias semelhantes surgirão. Como, saindo de um restaurante, ao avistar, da janela do carro, o assessor desembainhando o guarda-chuva diante das nuvens taludas e do vento que crispava, pediu ao motorista que retornasse para oferecer carona.

Este era o mesmo Déda que, certa vez, chamou-me para vê-lo abraçando suas três filhas (deixou mais dois meninos), orgulhado de sua prole, de quem cuidava com desvelo. Noutra vez, numa cerimônia oficial com governadores de todo o país, não sossegou até que o mais novo, indisposto após uma viagem, fosse medicado.

Há um recurso usado com alguma frequência no cinema para demonstrar a personalidade camaleônica que indivíduos adquirem a depender do ambiente onde se encontram. Ao deixar um local de exposição pública, o palco, e adentrar outro que lhe dê privacidade, o bastidor, o protagonista transfigura-se, alteram-se as feições de seu semblante.

Pois, se o seguisse uma câmera invisível, não se veria Déda com outra face que não aquela que o marcou nos grandes palcos da vida pública. Da ribalta às coxias, ao transpassar cortinas reais e imaginárias, não havia dois Dédas. Era o mesmo na intimidade. Placidez no momento de decidir, alegria como genuína virtude, respeito ao interlocutor, honestidade moldada com solidez em seu caráter. Cobrança rigorosa, mas sem ferir. Retórica indefectível, mas nunca cabotina.

Certa vez, durante uma longa viagem, discorreu sobre mitologia grego-romana com a presidente. Admiradora manifesta, com ele perscrutou a Antiguidade e as correspondências entre as deidades. Com a mesma erudição, embevecia seu interlocutor abarcando artes, filosofia, literatura, história ou ciência política. Em todos os colóquios, descia, ao sabor do ouvinte, às minudências do tema.

Num outro cenário, deparando-se com conversadores menos dispostos à erudição, da mesma forma exercia sua verve fluida. Podia ser futebol, culinária, cinema ou Nordeste - tema este que lhe intumesciam as veias de orgulho. Em qualquer contexto, sobressaía-se o modo espirituoso e espontâneo de abarcar repertório diverso.

A estas características somavam-se as mais propaladas. Inflexível com o uso consciencioso do erário, era gestor rigoroso e conhecia com abrangência a administração pública. Nela, introduziu desde o início de seus mandatos o planejamento de longo prazo - imberbe no setor público. Seus alvos: a inclusão e a igualdade de oportunidades.

Político conciliador, mas com posições inequívocas, era respeitado igualmente por correligionários e oposicionistas. Por isto mesmo, como constatou um jornalista dia desses, até mesmo seus adversários sentirão sua falta. De minha parte, doravante meu currículo elencará com júbilo o tempo em que o assessorei.

* Itamar Garcez é jornalista. Foi assessor de comunicação do governador Marcelo Déda (1960-2013)

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