Improvisos e metodologia confusa marcaram estreia do voto aberto

Por Marcel Frota e Nivaldo Souza - iG Brasília |

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Após confusão sobre presidência da sessão, deputados e senadores atrapalharam-se com o uso do painel eletrônico no lugar das cédulas de papel

A estreia do voto aberto no Congresso Nacional para apreciação de vetos presidenciais, nesta terça-feira, evidenciou a dificuldade de parlamentares em lidar com a novidade. Mas preocupação de deputados e senadores versava menos sobre a votação em si - já que os vetos eram considerados pouco polêmicos pelo próprio governo - e mais sobre a metodologia da votação.

A relação de três vetos analisados pelo Congresso tinha como ponto mais polêmico o que tratava da carreira específica para profissionais incluídos no programa Mais Médicos, do governo federal. Dias atrás, a presidente Dilma Rousseff já havia mobilizado a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), que conversou pessoalmente com líderes para medir o engajamento dos parlamentares aliados.

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Agência Câmara
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Assim, a confusão na votação acabou ficando por conta principalmente da metodologia. Na sessão, chamava a atenção a ausência do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que trocou o comando da mesa por uma agenda com prefeitos alagoanos. Passou o bastão para André Vargas (PT-PR), primeiro vice-presidente da Câmara. Só que o petista engrossava o quórum no gabinete da presidência da Câmara, onde o presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves (PMDB-AL), assoprava as velinhas do 65º aniversário. A primeira sessão com voto aberto acabou, então, sendo presidida por Sibá Machado (PT-AC).

A manobra fez com que deputados da oposição questionassem a legitimidade de Machado para presidir a sessão, algo que não poderia ter sido feito por um congressista que não é membro da Mesa Diretora. E justamente no item que tratava do programa Mais Médicos. Resultado: o PSDB resolveu levar até o limite a defesa da emenda vetada por Dilma e prometeu questionar essa parte da sessão na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Na base, entretanto, parlamentares se diziam despreocupados e garantiam que a confirmação do veto é matéria vencida.

A partir daí, o que se viu foi um plenário batendo cabeça para entender a mecânica do voto aberto. Se antes a velha cédula de papel resolvia rapidamente o assunto, a modalidade nova, que exigiu votação nominal via painel eletrônico, fez os congressistas sofrerem para decidir o futuro dos vetos de Dilma.

O líder do PDT, André Figueiredo (CE), chegou a sugerir uma adaptação no sistema eletrônico para que os parlamentares possam votar cada trecho de texto vetado pela chefe do Executivo, como acontecia anteriormente com a cédula de papel. Ronaldo Caiado (DEM) chegou a dizer que a sessão foi um "esculacho geral" por não ter sido feita uma reunião preparatória com os líderes.

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Diante do improviso, Caiado defendeu uma mudança nas votações futuras, para as quais ele sugere um voto agrupado em acerto de líderes. Enquanto teses surgiam, os mais impacientes com a situação chegaram a abandonar o plenário e buscaram entretenimento do lado de fora.

Alguns aproveitaram o lançamento do livro Líderes do PT na Câmara: tragetória e lutas, que ocorria no cafezinho do salão verde, e por ali mataram o tempo enquanto os mais engajados tentavam se encontrar com o novo formato dentro do Plenário. Outros resolveram não adiar o jantar e desfrutaram do cardápio no restaurante da Câmara.

Apressados

Os retardatários eram frequentemente chamados pelo pelos colegas a comparecer à sessão. Muitos chegaram atrasados e entraram no Plenário esbaforidos, perguntando o que deveriam fazer. Alguns questionavam se seria possível votar itens que já haviam sido apreciados.

Anthony Garotinho (PR-RJ) era um dos mais engajados na tarefa de trazer os ausentes. Garotinho chegou a provocar risos dos colegas ao pedir um aparte para que pudesse, por seis minutos, conclamar que os colegas se mobilizassem para a votação.

André Vargas, que a essa altura já presidia a sessão, disparou: "Lembram aquela música, 'para nossa alegria', que foi sucesso na internet? Pois é, o Garotinho pediu a palavra por seis minutos para nossa alegria", disse ele num misto de bom humor e desabafo, para em seguida emendar: "Já que são seis minutos, vou ali no meu gabinete, vou ao toalete".

A confusão prosseguiu e os trabalhos só foram declarados encerrados quando já passava das 22h, numa sessão marcada para as 14h, mas que começou quando já passava das 17h.

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