Hipótese de assassinato de JK reforça investigações sobre Jango e Lacerda

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | - Atualizada às

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Mortos num espaço de 272 dias, os três estavam em adiantadas conversações para formar uma frente política antirregime e eram alvos de espionagem pelo SNI

Agência Estado
Comissão da Verdade diz que JK foi assassinado na ditadura

A hipótese de que o ex-presidente Juscelino Kubistchek teria sido morto num atentado planejado pelo extinto Serviço Nacional de Informação (SNI) obriga a Comissão Nacional da Verdade (CNV) a reforçar as investigações para retirar do armário esqueletos famosos que ainda assombram remanescentes do regime militar.

Teoria da conspiração ou fato real, as novas conclusões da comissão coordenada pelo vereador paulistano Gilberto Natalini (PV) sobre o caso JK, colocam na mesma agenda a necessidade de esclarecer as circunstâncias em que morreram o ex-presidente João Goulart e ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda.

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Jango, conforme indícios que estão sendo investigados pela CNV, pode ter sido vítima de envenenamento; sobre Lacerda, a hipótese de conspiração também povoa o imaginário pelas circunstâncias: entrou numa clínica, no Rio, para tratar de uma gripe e morreu um dia depois, acometido por uma infecção no coração (endocardite bacteriana).

O mais interessante da teoria construída pelo levantamento de Natalini é que a atmosfera da época conspira a favor dos supostos atentados: Jango, JK e Lacerda estavam em adiantadas conversações para formar uma frente política de enfrentamento ao regime; os três eram alvos de permanente espionagem pelo SNI, de sua congênere chilena, a Diretoria de Inteligência Nacional (DINA) e com a colaboração da Agência Central de Inteligência (CIA) no âmbito da chamada Operação Condor; os três morreram num espaço de 272 dias, entre 22 de agosto de 1976 a 21 de maio de 1977.

Divulgação
Revelações sobre JK reacendem debates sobre Jango e Lacerda

Um ponto comum nas mortes dos dois ex-presidentes é a precariedade técnica das investigações para esclarecer as circunstâncias. Voluntárias ou involuntárias, as brechas deixadas pelos procedimentos investigatórios - que ignorou laudos, sumiram com parte das fotografias e até com um fragmento de metal cujo exame poderia ser o tira-teima da investigação - formam as principais dúvidas e mistérios levantados pela nova versão.

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“O Juscelino foi morto porque poderia tirar o poder dos militares, fazendo o país voltar à democracia”, sustenta o advogado Paulo Castelo Branco, que desde 1996, como defensor do ex-secretário de JK, Serafim Jardim, vem tentando reabrir o caso. “O Juscelino havia recuperado os direitos políticos e ganharia a eleição no quintal do regime militar, que era o Colégio Eleitoral”, acrescenta Natalini.

Na lista dos 90 itens que reforçam a hipótese de conspiração, o relatório do vereador resgata um interessante diálogo entre o responsável pela espionagem do regime do ditador Augusto Pinochet, Manuel Contreras Sepulveda, com o então chefe do SNI, general João Batista de Figueiredo. Contreras falava do apoio dos democratas americanos a JK e ao embaixador chileno nos Estados Unidos, Orlando Latelier, como fator de instabilidade às duas ditaduras.

Reprodução TV Tupi
Lacerda, JK e Jango estavam em adiantadas conversações para uma frente antiregime

Em seguida, numa demonstração da afinidade, dirige-se a Figueiredo nos seguintes termos: “O plano proposto por você para coordenar nossa ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social democratas e democratas cristão da América Latina e Europa, conta com nosso apoio decidido”. JK morreu em 22 de agosto e, um mês depois, a 21 de setembro, Latelier foi explodido por uma bomba colocada no carro que o conduzia em solo americano. Contreras foi condenado e preso pelo assassinato.

Concluído o inquérito sobre a morte de JK com a versão de acidente na Via Dutra e a censura ainda em vigor, Figueiredo foi eleito presidente em 1978, governando o país de 1979 a 1985, quando passou a faixa a José Sarney. O relatório de Natalini atribuiu a responsabilidade pelo suposto assassinato a Figueiredo e outros dois generais, Golbery do Couto e Silva, guru do regime, e Newton Junqueira Villa-Forte, este dono do hotel em que JK descansou antes da derradeira viagem pela Dutra.

A longa lista de Natalini não traz provas do assassinato, mas é um bom roteiro para eventual reabertura do caso. O que ele quer, na verdade, é que a CNV e o governo federal encampem o relatório e mudem o atestado de óbito de JK em cuja causa mortis, em vez de acidente, conste homicídio.

A CNV, discretamente, já conduz investigações. Um grupo de peritos está debruçado em laudos e detalhes que possam esclarecer a morte de JK. O relatório de Natalini será analisado nesse contexto. A CNV tem ainda os casos de todos os desaparecidos políticos, mas descartou, por determinação das famílias, abrir procedimentos em torno de Lacerda e do ex-presidente Tancredo Neves, que morreu em abril de 1985 às vésperas da posse.

Entre as requisições que chegaram à comissão, há também uma que pede uma nova apuração para a morte do homem mais temido pela esquerda durante os anos de chumbo, o delegado Sérgio Fleury, a quem é atribuída grande parte das execuções e mortes por tortura nos porões do regime. A esquerda nunca aceitou a versão bancada pela família, de que o delegado morreu afogado ao cair no mar ao atravessar uma passarela entre dois barcos em Ilhabela, no litoral Sul de São Paulo.

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