Patrulha antiboato combate mentiras na internet às vésperas de ano eleitoral

Por Ricardo Galhardo - iG São Paulo | - Atualizada às

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Acusações falsas visam atingir principais nomes da disputa presidencial de 2014; iniciativas tentam desmentir boataria

Um dos filhos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o verdadeiro dono da Friboi. Eduardo Campos vai privatizar o Banco do Brasil. Aécio Neves não quer os votos dos professores. Marina Silva prometeu entregar parte do governo ao Itaú. Dilma Rousseff foi condenada nos EUA pelo sequestro do embaixador Charles Elbrick em 1969.

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Todas estas acusações têm três pontos em comum: são falsas, foram divulgadas pela internet e visam atingir os principais nomes da disputa presidencial de 2014.

Para evitar que a onda de ataques sujos determinante nas eleições de 2010, algumas iniciativas estão surgindo na rede com objetivo de desmentir a boataria.

Em 2010: Boatos, ofensas e mentiras ganharam a internet na eleição

Alice Vergueiro/Futura Press
Ex-presidente Lula é um dos maiores alvos de boatos na internet

São páginas como boatos.org, e-farsas, Quatrocantos e mais recentemente a comunidade Boatos na Rede, criada no Facebook como parte da campanha Diga Não ao Boato, encabeçada pelo consultor Sergio Motta e Albuquerque.

Nestes ambientes - todos frutos de iniciativas pessoais - o leitor pode enviar dúvidas e procurar respostas para informações divulgadas principalmente nas redes sociais que desafiam o bom senso e aguçam a desconfiança.

Nenhuma delas tem foco na questão eleitoral, mas seus administradores preveem uma avalanche de demandas com a proximidade da disputa política. "Conforme vai chegando a eleição tende a estourar. Alguns boatos circulam desde a eleição passada e, apesar de desmentidos, voltam como se fossem verdade", disse o jornalista Edgard Matsuki, criador do boatos.com. 

Segundo ele, o alvo da maior parte dos ataques falsos é o governo, por representar o poder instituído. No site Quatrocantos, a sessão de política traz algumas pérolas coletadas ao longo dos anos, a maior parte contra o governo e a esquerda: o PT pretende criar uma Bolsa Reclusão para presidiários, Dilma teve a candidatura cassada pelo TSE, a presidente nasceu na Bulgária (atribuído a jornal búlgaro), o Senado aprovou lei que dá auxílio de R$ 2 mil a prostitutas, o governo da China estimula o canibalismo infantil (adaptação do clássico da Guerra Fria "comunistas comem criancinhas"), Lula possui fortuna pessoal de R$ 2 bilhões, Osama Bin Laden ordenou um ataque ao Cristo Redentor. 

Gabriela Bilo/Futura Press
Apreensão de drogas chegou a ser relacionada com o pré-candidato Aécio Neves

Os alvos da baixaria não se restringem à esquerda. Algumas semanas atrás circulou nas redes sociais uma falsa "afirmação" do senador Aécio Neves segundo a qual ele estaria dispensando os votos dos professores brasileiros. E nos últimos dias várias montagens também falsas tentavam ligar o presidenciável mineiro à apreensão de quase meia tonelada de cocaína no helicóptero do deputado estadual Gustavo Perrela (Solidariedade-MG).

A assessoria de imprensa do PSDB disse que não possui um sistema para
identificar os boatos. Casos pontuais são encaminhados ao departamento jurídico, mas até agora não resultaram em nenhum processo judicial.

Já o empresário Fábio Luiz Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula, alvo contumaz da boataria desde que seu pai foi eleito, perdeu a paciência e resolveu processar os responsáveis pela acusação de que ele seria dono da Friboi.

"Este caso já é um clássico", disse Matsuki, que já recusou oferta de partido poítico para financiar seu site. Segundo ele, a audiência do boato.com subiu de 5 mil para 50 mil visitas mensais depois que ele publicou um post desmentindo a farsa envolvendo Lulinha. Muitas destas mentiras aparecem travestidas de informação confidencial, indignada, com objetivo de revelar a corrupção na classe política, mas não passam de ataques disfarçados a adversários eleitorais. Algumas delas, como a "denúncia" de que a Funai trouxe 11 mil índios do Paraguai para o Brasil para fraudar as eleições de 2014, não resistem a alguns segundos de reflexão e bom senso, mas acabam se espalhando pela rede.

"Isso (aceitação e propagação dos boatos) pode ser explicado em grande parte pelo fenômeno da falácia do expert, a submissão irrefletida à autoridade imposta por uma sociedade impiedosamente hierarquizada", explicou Sergio Motta e Albuquerque, um estudioso do tema. 

Segundo os criadores dos sites, outra característica dos boatos online é a citação a fontes falsas. Uma delas, que pedia aos torcedores da Copa das Confederações que ficassem de costas durante a execução do Hino Nacional, atribuída ao apresentador Jô Soares, viralizou na rede durante os protestos de junho e julho. O apresentador nem sequer tem perfil no Facebook.

Para o analistas de sistemas Gilmar Lopes, criador do e-farsas, a disseminação dos boatos também decorre da falta de cuidado dos internautas. "Muita gente só lê o título e já compartilha. Alguns sites de humor chegam a brincar com isso e colocam conteúdo sem nexo no corpo do texto. Mesmo assim as pessoas replicam", disse ele. Para Lopes, a maioria dos boateiros da rede só quer ganhar "curtidas" ou compartilhamentos nas redes sociais, mas nos casos que envolvem política podem ter consequências perigosas. Ele cita como exemplo o boato sobre o Fim do Bolsa Família que levou milhares de beneficiários às agências da Caixa Econômica Federal no início deste ano.

Todas as pessoas ouvidas pelo iG concordaram que é muito difícil encontrar a origem da baixaria política, mas é fácil identificar quem as replica nas redes sociais. Segundo o procurador regional eleitoral de São Paulo, André de Carvalho Ramos, existem leis que criminalizam a difusão de falsas acusações.
De acordo com o procurador, a distância em relação ao pleito dificulta caracterizar os ataques como eleitorais, até porque as candidaturas
ainda não foram oficializadas, mas quem replicar notícias falsas que
ataquem a honra de políticos pode ser enquadrado em crimes como
calúnia, injúria e difamação.

Segundo Carvalho Ramos, a mini-reforma eleitoral aprovada pelo Congresso também prevê punições para quem divulgar falsas informações sobre os candidatos. "A mini-reforma eleitoral estipulou regras e permitiu o uso das redes sociais. É preciso diferenciar a divulgação de fatos inverídicos e a chamada propaganda negativa da liberdade de crítica. O choque de ideias e a crítica são indispensáveis no processo político", disse ele.

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