Cardozo levou denúncia sobre suposto cartel envolvendo tucanos à Polícia Federal

Por Agência Estado |

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Documento com informações sobre superfaturamento em contratos do metrô teria sido entregue pelo ministro da Justiça, e não pelo CADE

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José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou nesta sexta-feira que foi ele o responsável pelo envio à Polícia Federal de um relatório sobre o cartel de trens que cita corrupção envolvendo políticos ligados a Geraldo Alckmin (PSDB), entre eles o chefe da Casa Civil do governador paulista, Edson Aparecido. Cardozo informou ainda ter recebido o texto, elaborado pelo ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer, das mãos do deputado estadual licenciado Simão Pedro (PT), hoje secretário de Serviços da Prefeitura de São Paulo.

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As informações constam de nota oficial divulgada nesta sexta pelo Ministério da Justiça e contradizem um memorando de 11 de junho do delegado Braulio Cezar da Silva Galloni, coordenador-geral de Polícia Fazendária da Polícia Federal de Brasília. Esse memorando anunciava o encaminhamento das acusações contra os tucanos aos policiais federais paulistas. Nele, o delegado dizia expressamente que o relatório com as denúncias tinha chegado a ele via Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

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Àquela altura, o Cade já havia fechado um acordo de leniência com a Siemens e investigava oficialmente o cartel de trens em São Paulo e no Distrito Federal. O acordo de leniência, porém, não citava corrupção. Já o relatório do ex-diretor da Siemens, sim. O conteúdo desse relatório foi revelado pelo jornal "O Estado de São Paulo" na quinta-feira.

Cardozo diz, na nota, que repassou a papelada para a Polícia Federal, órgão que é submetido ao seu ministério, "no estrito cumprimento do dever legal, para as devidas investigações". O Cade, a quem o delegado de Brasília atribuía a origem do relatório com as acusações contra tucanos, é uma autarquia do mesmo ministério. Ou seja, também é submetido a Cardozo.

Ainda na quinta-feira, quando a reportagem foi publicada, o Cade divulgou nota dizendo que não havia recebido ou enviado qualquer relatório aos federais.

Relações antigas

Simão Pedro, que, segundo a nota do Ministério da Justiça, entregou o relatório com as acusações contra os tucanos para Cardozo, é autor, como deputado estadual, de duas representações ao Ministério Público sobre o cartel. O petista tem se empenhado para que o escândalo seja investigado. Ele e o ministro integram a mesma corrente política do PT, a "Mensagem ao Partido".

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O hoje secretário municipal de Haddad também é próximo do presidente do Cade, Vinícius Carvalho. Antigo militante petista, Carvalho trabalhou como chefe de gabinete de Simão Pedro na Assembleia Legislativa paulista. Pelo fato de ter omitido essa relação em cinco currículos oficiais - inclusive em material entregue aos senadores que aprovaram sua indicação ao cargo -, o presidente do Cade foi recentemente advertido pela Comissão de Ética da Presidência da República.

No relatório com as denúncias contra políticos tucanos, o ex-diretor da Siemens cita três vezes o nome de Simão Pedro. Nas duas primeiras, diz que foi com base em informações suas que o petista fez as representações protocoladas no Ministério Público paulista, e que ambos se reuniram com três promotores. Na outra, afirma que, com a ajuda do petista, encontrou-se por duas vezes com o presidente do Cade "para orientá-lo sobre alguns aspectos importantes do acordo de leniência a ser assinado entre o órgão e a Siemens".

O ex-diretor diz ainda que ajudou Carvalho a elaborar a lista de nomes e endereços para a execução dos mandados de busca e apreensão pela Polícia Federal, "de forma que nenhum nome, fato ou documento importante fosse omitido pelas empresas".

Em contato telefônico nesta sexta, o secretário de Haddad foi questionado sobre as informações prestadas por Cardozo e sobre sua relação com Rheinheimer. Ele pediu alguns minutos para responder e disse que ligaria de volta. Porém, não atendeu mais as ligações. Duas horas depois, enviou uma mensagem de texto por celular dizendo que em 15 minutos encaminharia uma nota comentando o assunto. Contudo, 20 minutos à frente enviou novo torpedo: "Não vou me manifestar por enquanto".

Colegas de Carvalho relataram na sexta que ele estava "angustiado" e "indignado" com pressões que passou a sofrer de políticos tucanos citados no relatório do ex-diretor da Siemens.

Até o relatório escrito por Rheinheimer ser revelado, apenas ex-diretores de estatais paulistas eram citados como beneficiários de propina do cartel de trens. Os políticos negam qualquer relação como esquema. 

"Anônimo"

Horas depois de o Ministério da Justiça assumir a autoria do repasse do relatório com acusações contra tucanos à Polícia Federal, o ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer também divulgou uma nota. Nela, disse que o documento com as denúncias "é anônimo". "Eu nunca encaminhei tal documento ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica ou à Polícia Federal."

Apesar de tentar se esquivar da autoria do relatório que faz parte dos autos do inquérito da Polícia Federal que investiga cartel e corrupção no sistema metroferroviário dos governos do PSDB entre 1998 e 2008, Rheinheimer fez uma delação premiada, na Polícia Federal e no Ministério Público Estadual.

Nessa delação premiada, mantida em sigilo, ele confirma os dados do relatório revelado pelo Estado na quinta-feira. Em troca da delação, o ex-executivo da Siemens pode obter redução de pena ou perdão judicial - no texto que divulgou nesta sexta, ele diz que "sempre colaborou com as autoridades competentes" e que "jamais fez acusações levianas".

O pacto de delação impõe uma série de condições, entre elas a blindagem do delator, com a preservação de sua identidade. 

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