'Não tinha nem banheiro feminino', diz primeira mulher no Senado

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Eunice Michiles, que começou a carreira política em 1974,, disse que era 'bem tratada', mas não de 'igual para igual'

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Eunice Michiles, 84 anos, foi, em 1979, a primeira mulher a assumir uma vaga no Senado brasileiro no período republicano e pelo processo eleitoral. Antes dela, a única mulher a ocupar uma vaga no Senado no Brasil foi a Princesa Isabel (1846-1921) – que tinha direito a uma vaga por direito dinástico durante o Império.

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Michiles começou a carreira política como deputada estadual pela Arena (partido de apoio ao regime militar da época), em 1974, e depois candidatou-se a senadora. Assumiu o cargo como suplente de João Bosco de Lima, morto no início de seu mandato.

Ela conta à BBC Brasil que foi "bem tratada" na casa, mas porque era uma dama. "Não havia aquele sentimento de que eu era uma colega", diz.

Eunice Michiles, 84 anos, foi, em 1979, a primeira mulher a assumir uma vaga no Senado. Foto: Agência SenadoEunice Michiles, 84 anos, foi, em 1979, a primeira mulher a assumir uma vaga no Senado. Foto: Agência SenadoEunice Michiles, 84 anos, foi, em 1979, a primeira mulher a assumir uma vaga no Senado. Foto: Agência Senado


BBC Brasil - Como era seu dia a dia de política? Dava para ter voz ativa num ambiente tão dominado por homens?

Eunice Michiles - Realmente era muito difícil. A mulher bem colocada era a casada, não podia se expressar muito. Não era considerado de bom tom que a mulher falasse alto, aparecesse muito. E na política precisa aparecer, ir ao palanque.

Na época (minha entrada no Senado) foi uma "pequena revolução", porque era um local só de homens. Imagine, não tinha nem banheiro feminino. Mas consegui de alguma forma dar o recado.

BBC Brasil - A senhora se sentia levada a sério?

Eunice Michiles - Quando eu entrei no Senado, fui "muito bem recebida", com flores, poesias - muita badalação. Mas percebi o seguinte: (para os congressistas) eu não era uma colega que estava chegando. Era uma senhora, uma dama.

Era aquela história do homem que abre porta para a mulher. Mas não havia aquele sentimento de que eu era uma colega (com quem eles) iam trabalhar junto. Não era de igual para igual.

Um dia, me atrasei no Senado, e um senador de dedo em riste me disse "não faça mais isso". Fui murchando, como se tivesse (levado uma bronca) do meu pai. Um outro senador respondeu: "Minha filha, não permita que façam isso com você. Você é tão senadora quanto eles". Me dei conta: era mesmo. A partir daí, senti que tinha a responsabilidade de me colocar à altura deles.

BBC Brasil - Hoje, apesar de termos uma presidente mulher e diversas ministras, inclusive no Supremo Tribunal Federal, há apenas 45 mulheres no Legislativo atual. O que falta para a mulher dar um salto grande na política?

Eunice Michiles - Tudo é progressivo - a mulher já andou muito. (O fato) de termos uma presidente é muito, muito importante. Nas casas legislativas realmente ainda (há poucas mulheres). Mas olhe, quando eu entrei não havia nenhuma ministra, nem nos tribunais superiores.

A primeira ministra da Educação, Esther Figueiredo Ferraz, entrou após um trabalho de um grupo político que nós formamos. Fomos ao presidente (João) Figueiredo e exigimos, porque nos outros países sul-americanos já existiam muitas mulheres como ministras.

Poucos dias depois ele a nomeou.

(Desde então,) poderia ter sido mais rápido, mas estamos bem representadas nos ministérios e tribunais superiores.

Lutei muito pelo planejamento familiar, depois de conhecer mulheres que tinham tido 21 filhos no Amazonas, não por que quisessem (mas por falta de acesso a contraceptivos). Na época isso era considerado um tipo no pé.

BBC Brasil - Como a senhora entrou na política?

Eunice Michiles - Meu marido (Darci Augusto Michiles) era político, mas nós nos separamos. Eu tinha verdadeiro horror à política, porque era como se ela fosse minha rival: absorvia meu marido completamente, o rodeava de mulheres. Meu casamento não suportou isso.

Mas depois de algum tempo de separada eu me sentia "inútil" em Manaus, porque onde morávamos antes, no interior do Amazonas, eu tinha uma atividade social muito grande. Sou filha de pastor adventista e sempre me realizei muito nesse campo (social) no interior, onde havia muita carência. Em Manaus eu me sentia deslocada, não tinha perfil de dondoca.

Uma noite de muito calor, abri a janela e vi muitas crianças na praça, um garotinho em uma caixa de papelão. Na época, criança na rua era inconcebível. Fiquei profundamente chocada. E eu achando a minha vidinha muito chata. E estava aí uma coisa importante para eu fazer.

Me ocorreu que eu poderia fazer algo pela via política. Resolvi me candidatar a deputada estadual.

Quando fui me apresentar no diretório (da Arena), fui tão bem recebida que fiquei empolgada. Na época, era moderno ter nos quadros uma mulher disputando. Mas não era para ganhar. Era só um charme.

Mas me elegi, e minha intenção era me reeleger deputada estadual. Na época, a chapa oposta (do MBD, de oposição) apresentou uma mulher candidata. Eu não queria (apresentar a minha candidatura), porque não tinha estrutura e dinheiro para a campanha. Mas a insistência do partido foi tão grande que eu entrei. Dois meses depois, o senador eleito (João Bosco de Lima) morreu, e eu acabei entrando como suplente e passando oito anos como senadora.

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