Por conveniência, imprensa aceitou censura na ditadura militar, diz historiadora

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Beatriz Kushnir, diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, afirma que veículos se organizaram para conviver com os censores. “Foi uma opção”

A historiadora Beatriz Kushnir, diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, está enfiando a mão num vespeiro. Amparada em pesquisa nos arquivos públicos, entrevistas e tendo os próprios jornais e revistas como fontes, ela afirma que, além de não se insurgir contra a censura, a chamada grande imprensa adaptou-se convenientemente às exigências do regime militar e, em alguns casos, de requintes escabrosos, ainda colaborou com os órgãos de repressão.

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“Não houve resistência. Os veículos adotaram a autocensura e se organizaram para conviver com os censores dentro das redações. Foi uma opção”, diz a historiadora. No painel que apresentará nesta quinta-feira à Comissão da Verdade de São Paulo (“A imprensa que colaborou com a ditadura”), Kushnir pretende derrubar alguns mitos na relação entre a imprensa e a ditadura. Um deles é o de que alguns jornais, como o Estado de S. Paulo, publicaram receitas de bolo, poemas ou versos de Camões para resistir, driblando os censores e avisando leitores sobre reportagens proibidas.

Reprodução
Correio da manhã pedindo a saída de Jango

“Ninguém estampou uma tarja no vazio ou deixou o espaço em branco para avisar que estava sob censura”, afirma a historiadora, autora de uma alentada pesquisa sobre o tema, condensada no livro “Cães de Guarda – jornalistas e censores, do AI-5 a Constituição de 1988”, em que mostra certa simbiose entre a atividade jornalística e a censura.

Os profissionais que se especializaram no uso do lápis vermelho e da tesoura para enviar às redações os famosos bilhetinhos da censura (“por ordem superior, fica proibido...”), segundo ela, eram recrutados, predominantemente, no meio jornalístico, embora muitos também tivessem formação em direito, letras e psicologia – requisitos necessários no perfil exigido pelo governo.

Os dez primeiros censores recrutados pelo Ministério da Justiça no regime militar, segundo ela, eram jornalistas. A historiadora diz que sem o consentimento dos donos de veículos de comunicação – alguns chegaram a mandar funcionários a Brasília para se adequar ao que o regime queria – e a concordância dos diretores de redação da época seria impossível controlar a imprensa. “Os censores eram, no máximo, 200. Como dar conta do país inteiro com esse número?”, observa a historiadora.

Em linha com o entendimento adotado pela Comissão Nacional da Verdade, Beatriz Kushnir diz que é um equívoco tratar a derrubada do ex-presidente João Goulart como um golpe militar. “Foi civil-militar. A sociedade apoiou. Jornais como o Correio da Manhã pediram, em editoriais, a destituição do presidente da República na véspera do golpe”, lembra a historiadora. Os demais jornais também conspiraram a favor do golpe.

O Correio da Manhã foi um dos primeiros a fazer oposição ao regime e acabou fechado em 1970. Os outros veículos, todos eles dominados por famílias no eixo Rio-São Paulo, esboçaram alguma reação apenas a partir do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em 1968, que aprofundaria a ditadura, com estado de sítio, censura explícita e repressão ferrenha aos militantes da esquerda armada. Segundo a historiadora, a colaboração ou a autocensura na imprensa refletiu o apoio da sociedade ao golpe.

As observações mais contundentes são reservadas ao Grupo Folha, cujo dono, Otávio Frias de Oliveira, já falecido, teria deixado que os caminhões de distribuição de jornais fossem usados como espaço de infiltração de agentes da repressão e autorizado que a presença de policiais no comando de um dos veículos, a extinta Folha da Tarde.

Ela afirma que Frias e outros empresários – como Sebastião Camargo, da Construtora Camargo Corrêa – se tornaram alvos da esquerda armada pela suposta colaboração ao regime militar, mas as ações acabaram não se concretizando. Todos eles adotaram esquema de segurança depois do assassinato do empresário Henning Albert Boilesen, que também teria colaborado com os órgãos de repressão.

O então diretor da Folha da Tarde, Antônio Aggio, diz a historiadora, usou uma metralhadora durante os 16 anos em que comandou a redação, entre 1969 e 1984, e transformou o jornal numa espécie de porta-voz dos órgãos de repressão do regime. Os demais dirigentes da redação eram todos egressos dos órgãos militares ou da polícia paulista.

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