Réus que deixaram julgamento do mensalão para trás tentam retomar vida normal

Por Wilson Lima - iG Brasília | - Atualizada às

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Paulo Rocha e Duda Mendonça buscam reconstruir capital político. Silvio Pereira sonha com volta ao PT. Há de tudo entre aqueles inocentados pelo STF. Veja como eles vêm retomando a vida normal depois do julgamento

Enquanto 25 réus do julgamento do mensalão amargam a expectativa pelo desfecho do processo, alguns com a possibilidade de irem para a prisão, outros 12 acusados que foram inocentados ou fecharam um acordo judicial tentam retomar a vida normal. A lista dos que já deixaram para trás o julgamento político mais polêmico do País inclui desde políticos empenhados em reaver um mandato eletivo até aqueles que tentam se reinventar em outras áreas.

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Um dos réus absolvidos durante o processo, o ex-deputado Professor Luizinho foi inocentado do crime de lavagem de dinheiro, após ser acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de ter sacado R$ 20 mil do mensalão e ocultado a origem do dinheiro. Após o julgamento, ele chegou a afirmar que se sentia um “ex-presidiário” e se queixava do prejuízo moral imposto a si e à sua família. Sem cargo eletivo há oito anos, Luizinho ainda tentou uma sobrevida política no ano passado. Candidatou-se a uma vaga de vereador em Santo André (SP), seu berço político, mas não se elegeu.

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Agência Brasil
Professor Luizinho não deve mais se candidatar e teria aberto uma empresa de consultoria

Até o episódio do mensalão um dos principais líderes do PT na região do ABC paulista, Professor Luizinho agora demonstra não cogitar mais uma candidatura. Chegou a ser incentivado por amigos a tentar uma cadeira de deputado federal ou estadual no ano que vem, mas achou melhor mudar de vida. Assim, segundo fontes próximas, abriu uma empresa de consultoria política em Santo André. Conforme um aliado, “o salário dele como professor, de R$ 800, era muito baixo para manter-se apenas como docente”.

Como consultor, ele presta serviços a outros políticos e também a empresas. É visto com frequência em Brasília, em sessões da Câmara dos Deputados e gabinetes de parlamentares. “O Luizinho é sempre visto aqui. Acho até que ele mantém seu mandato”, brincou o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ). Luizinho também já foi visto este ano em audiências com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, segundo informações de parlamentares. O Planalto, no entanto, não confirma.

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Luizinho trabalha, por exemplo, em favor de empresas que administram portos secos. Foi visto durante algumas sessões, em julho do ano passado, que discutiram a MP 612/2013. A MP visa não exigir procedimento licitatório para empresas que tenham a intenção de explorar portos secos (locais destinados ao uso público para armazenagem e movimentação de mercadorias). Durante duas semanas, a reportagem do iG tentou contato por telefone com o ex-deputado, mas ele não atendeu o telefone, nem retornou as ligações.

Em campanha

Agência Câmara
Inocentado, o ex-deputado petista Paulo Rocha nunca se afastou da política

Entre os réus inocentados no mensalão, um dos que tiveram prejuízos políticos menos drásticos foi o ex-deputado federal Paulo Rocha. Julgado pelo crime de lavagem de dinheiro por ter recebido R$ 620 mil do mensalão, Rocha foi inocentado graças ao princípio do in dubio pro reo, quando, em caso de empate em um julgamento no Supremo, o resultado é sempre a favor do acusado.

O petista nunca se afastou da política. Ainda mantém a sua militância em Belém e está constantemente em Brasília, conversando com deputados e colegas petistas. Atualmente, costura um acordo para a sua candidatura ao Senado, ao lado do filho do senador Jader Barbalho (PMDB-PA), Helder Barbalho (PMDB-PA).

Pela aliança nacional do PMDB e do PT, a expectativa é que esses partidos lancem uma chapa conjunta no Pará em 2014. Ex-prefeito da cidade de Ananindeua, Helder deve ser candidato ao governo do Estado e Rocha novamente deve se lançar a uma disputa ao Senado. Em 2010, Rocha perdeu a disputa justamente para Jader. “Continuei mantendo a minha atividade política mesmo sem mandato após o mensalão”, confirmou Rocha.

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O ex-deputado não descarta a possibilidade de entrar em uma disputa para o governo do Estado, mas isso depende diretamente de uma eventual desistência de Helder Barbalho. “É um processo que está em discussão”, admite. “Eu não sofri muito o impacto do julgamento do mensalão, pelo fato de eu ter uma vida muito transparente. Eu não sofri no Pará, digamos assim, o que nós sofremos em nível nacional por causa da acusação. Estou bem. Embora fique a marca”, admitiu Rocha.

Volta ao marketing

AE
O marqueteiro Duda Mendonça teve os bens liberados por decisão de Barbosa

Inocentado pelo Supremo dos crimes de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, o publicitário Duda Mendonça é um dos que tentam dar a volta por cima. Por trás da campanha presidencial que elegeu Lula em 2002, Duda garimpa um espaço junto ao PSB para comandar a campanha do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), caso se confirmem os planos do socialista de se lançar à sucessão da presidente Dilma Rousseff (PT). No julgamento do mensalão, Duda respondeu no Supremo por ter efetuado cinco saques em uma agência do Banco Rural, em São Paulo, no valor de R$ 1,4 milhão, e por 53 depósitos em uma conta offshore nas Bahamas, no valor de R$ 10,4 milhões.

Segundo pessoas próximas, Duda vê a campanha de Campos como vital para voltar aos holofotes e ser novamente considerado como “milagreiro” no meio político. Sua última grande investida política ocorreu em 2011, durante o plebiscito do estado do Pará. Na época, ele defendeu o movimento pró-divisão do Estado, derrotado no plebiscito. A divisão do estado foi rejeitada por aproximadamente 65% dos paraenses.

As empresas de Duda Mendonça também trabalham na publicidade de alguns estados brasileiros. No Maranhão, por exemplo. Ele foi publicitário da mais recente campanha de Roseana Sarney (PMDB), em 2010, e hoje é responsável pelas peças publicitárias da Secretaria de Saúde do Estado. A pasta é comandada pelo cunhado de Roseana, Ricardo Murad.

Se de um lado Duda tenta retomar o prestígio no meio político, do outro, mesmo com o final do julgamento do mensalão, ele ainda luta no STF para desbloquear parte de seus bens. No último dia 6, Barbosa determinou o desbloqueio em vigor desde 2006, mas o publicitário ainda terá de esperar o transitado em julgado (quando não há mais possibilidade de recursos) de todos os réus do mensalão para poder movimentar esses bens. Hoje, o julgamento do mensalão está ainda em fase de recursos. Parte do capital que Duda usou para se reerguer é fruto de reservas de outras empresas do publicitário com atuação na Europa.

Na cozinha

Agência Estado
Acordo com a Justiça retirou nome de Silvio Pereira da lista de réus do mensalão

Secretário-geral do PT na época do escândalo, Silvio Pereira tem uma situação diferente daquela vivida por réus inocentados no processo. Conhecido por ter recebido de uma empresa um jipe Land Rover, ele foi acusado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) de ter negociado indicações políticas e de ter sacado aproximadamente R$ 4,9 milhões do valerioduto. O ex-dirigente petista admitiu ilícitos e fez um acordo com a Justiça, antes mesmo de começar o julgamento do mensalão.

Ao final, Silvinho, como é chamado, ficou isolado no PT e foi expulso do partido. Hoje, ele vive no ostracismo político comandando um restaurante simples de família, em Osasco, na grande São Paulo. Se há dez anos era um dos homens fortes do PT, hoje Silvinho oscila entre cortes de legumes, carnes e experiências com novos temperos na cozinha e o atendimento ao público. Conversas sobre política, segundo pessoas próximas a ele, só mesmo com os amigos.

Silvinho foi o único do chamado núcleo dirigente do PT (fazem parte dele também o ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu; o deputado federal José Genoino; e o ex-tesoureiro da legenda Delúbio Soares) a fazer um acordo com a Procuradoria. Ele não chegou a ser julgado pelo crime de formação de quadrilha, ilícito pelo qual havia sido indiciado. Advogados afirmam que, se fosse julgado no Supremo, sua pena provavelmente prescreveria. Mas, na dúvida, Pereira preferiu colaborar com as investigações, fez um acordo judicial e prestou serviços comunitários por 750 horas. Há um ano, teve sua pena alternativa extinta.

Em conversas com amigos, ele se diz um homem frustrado. Não por comandar o restaurante da família - a culinária é uma de suas grandes paixões -, mas pelo fato de não poder mais integrar o PT. No início de 2011, na esteira da articulação para reintegrar Delúbio aos quadros petistas, Silvinho tentou o mesmo caminho. Ouviu dos antigos colegas de legenda que seu caso era diferente, justamente por ter recebido um jipe de presente de um empresário e por ter admitido culpa pelas acusações no acordo com a Procuradoria. Ele chegou a implorar, mas nunca foi aceito novamente entre os quadros petistas. Ele ainda recebe algumas visitas de integrantes do partido em São Paulo, mas são poucos. Ainda assim, dizem os mais próximos, ele repete que seu maior sonho é, um dia, voltar ao PT.

Constrangimento

Há ainda nos núcleos menos expressivos do caso aqueles que dizem amargar um constrangimento na vida pessoal em função do julgamento. Um caso é o da ex-funcionária da SMP&B Geiza Dias. Na denúncia da PGR, ela foi acusada de ter repassado ao Banco Rural as informações sobre os destinatários dos empréstimos obtidos por Marcos Valério.

Geiza respondeu pelos crimes de formação de quadrilha, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Poderia pegar no mínimo 8 anos de prisão pelos quatro crimes, em regime fechado. Mas foi inocentada após o STF entender que ela era uma mera “batedora de cheques”, conforme seu advogado, Paulo Sérgio Abreu e Silva.

Durante o julgamento, Geiza foi classificada por seu defensor como “funcionária mequetrefe”. Desde então, alega que sofreu um constrangimento ainda maior após a afirmação, transmitida ao vivo pela TV Justiça. Geiza diz ter perdido amigos e oportunidades de emprego em consequência do episódio, conforme apurou iG. Ainda assim, ela manifestou ter ficado imensamente grata a Paulo Sérgio Silva. O defensor até hoje não recebeu pelos honorários. Eles deveriam ter sido pagos pelas empresas de publicidade de Marcos Valério.

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