Espionagem contra Dilma atrapalha lobby dos EUA para venda de caças

Por Luciana Lima - iG Brasília | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Decisão a ser tomada pela presidente deverá ser motivada pelo critério da “confiança mútua” entre países. França e Suécia superaram desvantagens técnicas

O episódio de espionagem norte-americana sobre os contatos da presidente Dilma Rousseff pode ter acabado com as chances dos Estados Unidos de firmar um contrato com o Brasil para a venda de 36 caças para reequipar as Forças Armadas. A decisão a ser tomada pela presidente Dilma Rousseff deverá ser motivada muito mais pelo critério da “confiança mútua” entre países, que pelas vantagens técnicas do modelo norte-americano F-18 Super Hornet, fabricado pela empresa Boeing.

Dilma em nota: Suposta espionagem dos EUA tem motivação econômica

Reunião com Rice: Chanceler brasileiro viaja aos EUA para ouvir explicações

Crise: Após denúncias, Senado brasileiro pedirá à Rússia para visitar Snowden

Denúncias: Após Dilma, Petrobras teria sido alvo de espionagem dos EUA

AP
Episódio de espionagem pode ter acabado com as chances dos EUA na venda dos caças

Por se tratar de estratégia de defesa, o assunto vem sendo tratado a sete chaves pelo alto comando das Forças Armadas, pelo Ministério da Defesa e pela presidente. No entanto, é comum no governo a avaliação de que os Estados Unidos não preenchem mais os requisitos para atender ao contrato, que pode chegar a R$ 5 bilhões, definido no projeto FX-2, que prevê a reequipar as Forças Armadas.

A proposta, dizem interlocutores da presidente, foi pensada não como uma simples compra de equipamentos, mas como um acordo de longo prazo com o objetivo de desenvolver a tecnologia nacional por meio de transferência de conhecimento.

Além disso, o governo também tem levado em consideração que, nos últimos três anos, os outros dois modelos concorrentes conseguiram superar algumas desvantagens técnicas em relação ao modelo norte-americano, já utilizado por muitos países com grande desempenho.

Resposta: Abin cria sistema para proteger dados contra espionagem

Semana passada: Presidente Dilma foi alvo de espionagem dos EUA, diz TV

Quando a decisão de compra foi tomada, ainda no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o caça francês Rafale, fabricado pela Dassault, era utilizado somente na França. Atualmente, a Dessault conseguiu fechar um contrato com a Índia, que já vem utilizando os aviões.

Parceria

Conta ainda em favor da França, a experiência considerada exitosa envolvendo a construção de cinco submarinos, sendo um deles de propulsão nuclear. O primeiro desses submarinos já está em fase adiantada de construção no estaleiro de Itaguaí (PR) com total transferência de tecnologia. A parceria com a França prevê a construção dos outros quatro submarinos até 2025.

O país europeu só não aceitou compartilhar a tecnologia do propulsor nuclear que servirá para o quinto submarino, por isso a Marinha brasileira já se ocupa em desenvolver o equipamento no tamanho e nas condições específicas para esse equipamento.

Pesa contra os franceses o custo mais alto da aeronave e da reposição de suas peças. No entanto, o próprio governo brasileiro pondera que esse é preço por desenvolver autossuficiência no setor, decisão tomada pela França desde o governo do presidente Charles de Gaulle, no início da década de 1960.

Já o sueco Gripen NG, da empresa Saab, era apenas um projeto quando entrou na concorrência. Hoje, já existem aviões em teste. Pesam contra a Gripen o fato de que muitos componentes são comprados de outras empresas. Conta a favor a total disposição da Suécia de transferir tecnologia para a construção de caças mais modernos, chamados de 5ª geração. O F-18 Super Honet e o Rafale fazem parte da 4ª geração de caças.

Urgência

A valorização da “confiança mútua” é posição pessoal do ministro da Defesa, Celso Amorim, que considerou gravíssimo o episódio do monitoramento dos contatos de Dilma Rousseff. Também é posição do comandante da Força Aérea Brasileira (FAB) Junite Saito, que defendeu que o critério “geopolítico” seja considerado pela presidente. Saito espera que a compra seja fechada até o final desse ano.

A urgência alegada por Saito leva em consideração o fato de que, mesmo que a compra se efetive em 1013, o governo não conseguirá garantir que os aviões estejam à disposição para substituir os aviões do tipo Mirage 2000-C, também produzidos pela Dessault, que até 2015, vencem seu prazo de uso. Dos 12 caças Mirage 2000-C, seis já saem de operação no final deste ano.

Enquanto aguardam a posição de Dilma, a Aeronáutica trabalha na definição um novo desenho de para que um nível mínimo de segurança aérea seja mantido. O governo tem ciência de que o país não terá o nível de segurança aérea atual. Este novo desenho inclui equipar as aeronaves F-5M com funções de caça e interceptador desempenhadas pelo Mirage 2000-C, até que a presidente Dilma Rousseff decida quem será o vencedor do processo de aquisição dos novos aviões.

Tensão

Enquanto não toma a decisão, Dilma tem dado chances aos Estados Unidos de tornar menos constrangedor o episódio. Na conversa de 40 minutos com o presidente Barack Obama, realizada na semana passada em São Petersburgo, na Rússia, Dilma deixou claro que cabe a ele a responsabilidade de criar condições políticas para que a visita de Estado da presidente ao país norte-americano, planejada para outubro ocorra.

Por enquanto, a viagem está suspensa. Na conversa, a presidente brasileira disse que essa condição política depende de seu conhecimento de tudo que foi monitorado.

No encontro, Obama assumiu a responsabilidade de cuidar pessoalmente do caso e prometeu uma resposta até esta quarta-feira (10). Na segunda, por meio de nota, Dilma também se referiu às denúncias de espionagem americana sobre a Petrobras, caso que ela mesma já havia citado na entrevista concedida na Russia.

A presidente considerou que as denúncias evidenciam interesses econômicos e estratégicos da espionagem dos Estados Unidos e não somente a segurança nacional e o combate ao terrorismo.

Leia tudo sobre: DilmaObamaNSA

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas