Brasilianista critica resistência dos militares em abrir arquivos da ditadura

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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'É estranho porque os jovens oficiais não estão comprometidos com o passado', diz Anthony Pereira, pesquisador das ditaduras militares do Cone-Sul

O brasilianista Anthony Pereira, diretor do Kings College London, autor de alentada pesquisa em que analisa as ditaduras militares do Cone-Sul, considerou “estranha e misteriosa” a resistência das Forças Armadas brasileiras em abrir seus arquivos para esclarecer os anos de chumbo.

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“É estranho porque os jovens oficiais não estão comprometidos com o passado, mas por alguma razão não querem largar a identidade com a herança autoritária. A academia (militar) perpetua a afinidade com o regime”, disse.

Arquivo Cedoc UnB/Divulgação
Invasão no campus da UnB durante a ditadura

Segundo ele, ao pregar os “feitos” do regime militar na economia, as Forças Armadas deveriam, também, abrir seus arquivos e ajudar a esclarecer o que houve no período. Segundo o brasilianista, caso os arquivos tenham sido destruídos, as Forças Armadas deveriam mostrar à sociedade os registros e os procedimentos adotados à época.

Autor do livro Ditadura e Repressão, o autoritarismo e estado de direito no Brasil, no Chile e na Argentina , Pereira afirma que nos dois países vizinhos a colaboração dos militares para esclarecer os episódios dos anos de chumbo foi mais produtiva.

Uma das razões pode estar no resultado da pesquisa do brasilianista nos arquivos do Brasil Nunca Mais: pelo menos um quarto dos sete mil presos e processados (1.750 pessoas) durante o regime militar denunciou ter sofrido tortura nas prisões.

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Ele lembrou que o Ministério Público Federal tem adotado, no caso dos desaparecidos políticos, a tese do crime continuado para denunciar torturadores e, assim, estrategicamente se desviar da Lei da Anistia.

Anthony Pereira aponta outra contradição brasileira: ao contrário de outros 40 países que decidiram virar a página do período autoritário investigando os crimes de regimes autoritários, a Comissão Nacional da Verdade é, entre as suas congêneres, a que tem mais poderes e infraestrutura para atuar.

“A Argentina e o Chile pediram desculpas à população”, disse o pesquisador, que nesta quarta-feira fez palestra na Comissão Estadual da Verdade.

Segundo ele, o Brasil se diferenciou dos demais regimes do Cone-Sul por ter se cercado de um apoio mais forte da sociedade e por adotar fachada de legalidade respaldada no Judiciário. Ele lembra que na Argentina a ditadura chegou a eliminar pelo menos 100 advogados que defendiam militantes das organizações armadas.

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