"Vou botar mais lenha na fogueira", diz novo coordenador da Comissão da Verdade

Por Vasconcelo Quadros , iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

O advogado e ex-ministro da Justiça José Carlos Dias foi empossado na segunda-feira

Agência Brasil
José Carlos Dias, coordenador da Comissão Nacional da Verdade

Empossado na segunda-feira como o quinto coordenador da Comissão Nacional da Verdade, o advogado e ex-ministro da Justiça, José Carlos Dias disse ao iG que aumentará a temperatura das investigações sobre os anos de chumbo.

“Vou botar mais lenha na fogueira”, afirmou Dias sobre a nova fase de investigações. Ele se diz animado e prometeu acelerar as pesquisas, audiências e depoimentos para reconstituir os cenários em que ocorreram os crimes da ditadura militar e descobrir o paradeiro dos desaparecidos políticos, que o principal objetivo da CNV.

Leia também:

Conflito racha Comissão da Verdade

Advogados tomam a última trincheira da ditadura em São Paulo

Extermínio e tortura tiveram aval dos presidentes militares

“Não é fácil, mas acredito que chegaremos aos desaparecidos. Vou acelerar os trabalhos sem desfazer o que está pronto. Farei o possível para melhorar”, diz o advogado. Nos próximos dias a CNV deve anunciar a identificação da ossada de um militante da esquerda armada desaparecido na guerrilha rural.

De perfil conciliador, criminalista e ex-advogado de presos políticos, Dias minimiza a crise vivida pelo colegiado desde que o ex-procurador Claudio Fonteles abandonou a comissão, depois de entrar em choque com o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro.

Leia tudo sobre a Comissão da Verdade

“Não há atrito. A comissão é formada por pessoas de vários temperamentos”, justificou. Dias substituiu a advogada Rosa Cardoso, que defendeu a presidente Dilma Rousseff nos processos por subversão movidos pela ditadura militar. Ela se encontrava em São Paulo e soube através de um telefonema disparado pelo próprio Dias que a substituição, inicialmente prevista para 15 de agosto, havia sido antecipada.

Investigações:

Peritos preparam exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart

Novos depoimentos reacendem dúvidas sobre morte de Juscelino Kubitschek

Presidente da CBF volta a negar relação com morte de Herzog

O novo coordenador quer uma audiência com a presidente ainda para esta semana. Na agenda estão o preenchimento das duas vagas de coordenador - uma deixada por Fonteles e a outra pelo ministro Gilson Dipp, do Superior Tribunal de Justiça - e a nomeação de mais cem pesquisadores para acelerar as investigações que farão parte do relatório.

O item mais incômodo para o Palácio do Planalto são as dificuldades que a CNV vem enfrentando para acessar as informações das Forças Armadas sobre os desaparecidos. Todas as tentativas feitas até agora foram rechaçadas pelos comandantes militares sob o argumento de que os arquivos do Exército, Marinha e Aeronáutica sobre o período foram destruídos. Nenhum pesquisador experiente acredita nessa hipótese e, mesmo que ela fosse verdadeira, teria de ter deixado registro formal sobre o ato - o que agora os militares não mostraram.

Coronel: Parentes de vítimas da ditadura militar pedem novo depoimento de Ustra à CNV

A CNV enfrenta vários outros obstáculos: falta de centralidade, provocada por um sistema de rodízio na coordenação; críticas por adotar sessões secretas para ouvir suspeitos de mortes e tortura por um colegiado que, como não tem a função de punir, deveria dar publicidade; muitas sessões sigilosas e poucas audiências públicas; falta de apoio do governo para romper o descaso da área militar cuja colaboração é decisiva; e, entre outros, as reclamações de familiares de desaparecidos, que têm reduzida influência sobre os rumos das investigações.

O novo coordenador fará uma reunião com dirigentes da comissões estaduais e municipais no próximo dia 30, em Brasília. O objetivo é definir uma linha de colaboração que essas entidades darão para o relatório final. Caso o Planalto não prorrogue o tempo de funcionamento, a CNV deve encerrar suas atividades em maio do ano que vem.

Leia tudo sobre: comissão da verdade

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas