Os vários ‘Getúlios’ de Lira Neto

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | - Atualizada às

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Biógrafo do ex-presidente diz, em entrevista ao iG, que seu maior fascínio é a "ambivalência de Getúlio Vargas”

Vasconcelo Quadros/iG
Lira Neto, autor da biografia de Getúlio Vargas





Em entrevista ao iG, o jornalista e escritor Lira Neto, autor da trilogia Getúlio (1930 – 1945 Do governo provisório à ditadura do Estado Novo), fala do fascínio pela ambivalência de seu biografado. Também antecipa que no terceiro e último volume, a ser lançado no ano que vem, quando completa 60 anos de sua morte, vai preencher uma lacuna na historiografia, mostrando que enquanto seus adversários imaginavam que estava isolado na Estância Santo Reis, em São Borja (RS), o ex-ditador Getúlio Dornelles Vargas se ocupava de intensa articulação para retornar ao poder cinco anos depois de ter sido deposto.

Leia abaixo a entrevista na íntegra:

iG - O que o motivou a biografar Getúlio?

Lira Neto - Embora seja o período mais estudado e mais trabalhado da trajetória do Getúlio, o que me interessou foi a perspectiva do homem, a articulação e a interface do público e o privado para mostrar como essas coisas influenciaram cada um dos episódios da vida pública. A biografia é um olhar através dos que assistiram (getulistas e antigetulistas) o desenrolar da trama histórica.

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iG - O que mostram esses personagens?

Lira Neto - Primeiro que a personalidade do mito construído pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que viria a ser cristalizado com o desenrolar dos acontecimentos, o homem sorridente, bonachão e simpático que ficou na memória coletiva nem sempre encontra correspondência e ressonância nos escritos do próprio Getúlio. As anotações revelam que o homem com sorriso estampado no rosto se preocupava em saber se estava conduzindo o país a alguns becos sem saída. Quando ele resolve, depois de certa hesitação, astutamente ambígua, definir que iria para o Eixo na Segunda Guerra Mundial, deixa anotação de que não sobreviveria a um possível desastre. Escreve que não sobreviveria com isso na consciência.

iG - Getúlio flerta o tempo todo com a morte?

Lira Neto - A trajetória é a crônica de uma morte anunciada. Em 1930, em três de outubro, quando ele inicia as anotações no diário, já pergunta: “E se perdermos? Serei apontado como responsável. Só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”. Já anunciava a solução extrema caso a situação chegasse no limite. Em 1932, no dia seguinte ao Nove de Julho, em outro bilhete de suicida, escreve que o sacrifício pessoal é algo que está no campo de possibilidade. Depois, na Segunda Guerra, diz que seu sacrifício pessoal seria a forma de mitigar um possível desastre. E em 1945, em abril, seis meses antes de ser deposto, escreve o que seria um esboço da Carta Testamento, colocando mais uma vez o sacrifício pessoal. Então ele tinha uma visão, de certo modo fatalista, de que esse gesto seria suficientemente forte para abalar, anestesia e neutralizar seus adversários políticos. Em 1954 ele sabia que a autoimolação neutralizaria a agressividade de seus adversários, tanto que esses mesmos adversários ficaram dez anos afastados (UDN e os militares) até voltar em 1964.

iG - O que mudou no ditador que governou entre 1930 e 1945?

Lira Neto - O Getúlio foi lentamente se afastando dos amigos de 1930, expurgando ou deixando que se autoexpurgassem. Mesmo os que o ajudaram a chegar ao poder foram cozidos no fogo brando e depois catapultados. Os amigos se tornam inviáveis num governo de coalizão. Getúlio vai então se isolando e se aproximando cada vez mais de Góes Monteiro e de Dutra (Eurico Gaspar), fazendo dos dois o seu sustentáculo. Germanófilos assumidos, tendo sido inclusive condecorados pelo nazismo, os dois se tornam cristãos novos na democracia e depois se voltam contra Getúlio e o abandonam. Esse processo de isolamento e solidão vai fazer com que ele se aproxime (entre 1945 1960) mais do núcleo familiar e dele tire força suficiente para organizar a sua volta. Em São Borja ele consegue coordenar as forças trabalhistas para alça-lo novamente a cena principal, mas muito a partir de uma articulação que começa no núcleo familiar.

iG - Como esse trecho será tratado no último livro da trilogia?

Lira Neto - O terceiro volume vai mostrar as cartas trocadas entre Getúlio e sua filha Alzira, uma tonelada de papéis que compreendem o período entre 1945 e 1950. Boa parte deste material nunca foi explorado. Alzira se transforma numa espécie de embaixatriz. O auto-isolamento é só aparente. Getúlio aprofunda a articulação nos bastidores e está ligadíssimo no cenário nacional, preparando o retorno. Os documentos demonstram que houve um planejamento muito detalhado nesse sentido. A história oficial trata esse período como um relâmpago, como se ele tivesse ressurgido depois da entrevista ao Samuel Wainer. Essa parte da vida de Getúlio foi desprezada, abrindo uma lacuna que procurarei preencher no próximo volume e último volume da trilogia Getúlio.

iG - Qual foi o último ato antes do suicídio?

Lira Neto - O grande problema é que os malfeitos estavam chegando muito perto de Getúlio ou de membros da família dele. Após reunião ministerial que avançou madrugada a dentro (em 24 de agosto de 1954), ele disse que não aceitaria a renúncia e decidiu que ia se licenciar. Alzira conta que nesse momento o tio Bejo (Benjamin Vargas) entra no quarto, avisa que está sendo chamado a depor no Galeão e em seguida vai embora. Alzira entra e pergunta o que o irmão queira. Getúlio conta (o que ouvira do irmão) e avisa: “Mandei dizer que, se quiserem, venham buscar ele aqui. Ele não irá de livre e espontânea vontade”. Alzira sai do quarto e o Getúlio fica sozinho. É a última cena.

iG - O que foi determinante para o desfecho?

Lira Neto - Ou o Getúlio ia ser engolido ou pessoas próximas seriam colocadas em situação muito vexatória. Aí volta o homem que já tinha uma posição desde muito cedo de que não sairia desonrado do poder. Ele já havia dito: “Só morto saio do catete”. Getúlio jamais cogitou a possibilidade de deixar o poder desonrado. Em 1945 ele é quase humilhado e chega a brincar que sua saída do Catete mais parecia uma operação de despejo. Mas naquele momento ele percebeu que ainda tinha capital político forte para programar a volta. Já em 1954, ele percebe que havia chegado ao fundo do poço. As evidências eram claras de que chegara a hora impor o sacrifício que tantas vezes passou pela cabeça dele. A carta testamento não foi escrita no calor da hora. Foi pensada, elaborada, moldada a circunstâncias, escrita várias vezes e com a ajuda de assessores.

iG - Que peso teve o separatismo no movimento paulista de 1932?

Lira Neto - A versão paulista da história despreza ou coloca isso numa posição até ridículo, para não ser levada a séria. A gente percebe que pessoas influentes, como Monteiro Lobato, falam explicitamente em separatismo. Não é algo desprezível (o clima). Havia uma facção forte que tinha essa perspectiva. Não se pode perder de vista que 1932 foi uma resposta a 1930. Os paulistas se sentiram alijados do poder e acharam que aquele era o momento de retornar ao comando do país. Há nitidamente uma insatisfação e o que vai gerar e dar início ao um rancor dos paulistas contra os getulistas. Curiosamente foram os paulistas que mais se beneficiaram da política econômica de Getúlio.

iG - Não é mais uma das contradições de seu personagem?

Lira Neto - O homem que atualizou e transformou uma estrutura essencialmente agrária em um país em vias de industrialização, criou uma sociedade de massas, fez tudo isso também sob o preço de um regime autoritário, que perseguiu pessoas, censurou a imprensa e manteve o Congresso fechado. O que me fascina no Getúlio é exatamente essa ambivalência.

iG - Como você o define?

Lira Neto - Não é tão simples. Censo de oportunidade histórica enorme e ao mesmo tempo uma paciência de Jó para saber o momento de entrar em cena. Ele realmente deixava que os problemas e crises chegassem a um limite para só então agir. Tinha o cálculo de “deixar tudo como está para ver como é que fica”, mas também tinha o senso da hora de agir. Calculista e estrategista, tinha uma leitura muito sofisticada do cenário político e, ao mesmo tempo, pensava que se agisse de forma precipitada iria também precipitar problemas. Deixava que as contradições aflorassem para que ele entre para provocar o consenso ou a participação. É uma contradição para um homem que saiu de um estado onde as disputas políticas eram resolvidas a bala ou ao facão, como fazia sua própria família na pequena São Borja. Sua personalidade era absolutamente diferente da cultura gaúcha daquela época. Com seu jeito manso, Getúlio destoava dos irmãos afoitos Viriato (o mais velho) e Bejo (o caçula).

iG - Por que você escolheu Getúlio?

Lira Neto - Getúlio sempre esteve no meu campo de visão em outros livros que produzi, mas sabia que a tarefa seria hercúlea. A Aproximação dos meus 50 anos me deu um certo atrevimento para me debruçar nesse personagem que, a despeito de ser o que sobre quem mais se escreveu, ainda não tinha uma biografia jornalística. Tem muita coisa, mas muitas tinham o pecado original do ódio ou da paixão, da apologia ou da desconstrução. Achei que faltava um trabalho mais equilibrado e que conciliasse o rigor da pesquisa com o prazer da narrativa. Usei como inspiração um pouco do que o Ítalo Calvino diz num livrinho em que resume as propostas para a escrita sobreviver no próximo milênio, citando seis características essenciais: consistência, leveza, precisão, velocidade, multiplicidade e visibilidade.

iG - O livro descreve o atentado ao Palácio Guanabara e o possível fuzilamento dos agressores. Getúlio soube disso?

Lira Neto - Não cabe a mim, como biografo produzir certezas, mas semear algumas dúvidas. Os depoimentos falam por ai. Dutra e Góis assumem sem nenhum estremecimento que foram todos mortos depois de rendidos e desarmados. E a gente está falando de Bejo (que assumiu a defesa depois de furar o cerco dos agressores com uma manobra espetacular de automóvel) e todos sabiam quais eram os seus métodos. No calor da hora, a família sob fogo cruzado, sangue alvorotado e levando em consideração o histórico de Bejo, os agressores foram eliminados. É provável que Getúlio soubesse. E ele conhecia o irmão que tinha. Os jornais de época mostraram os cadáveres, dão os nomes, mas informam que morreram no confronto. Os documentos especulam que embora maioria, os integralistas podem ter sido massa de manobra.

iG - Que papel a imprensa exerceu?

Lira Neto - Acho que há um território vasto a ser explorado sobre as relações da imprensa e o poder no período do Getúlio. Entre 1930 e 1945, com poderes discricionários da ditadura, houve um silenciamento e um cerco deliberado a imprensa, que foi amordaçada. Já com as regras do jogo democrático ele foi massacrado. A imprensa o via com só um dos olhos da questão. Interessante notar que a grita contra Getúlio vinha revestida de tom moralista, não no sentido positivo de buscar moralidade dos costumes, mas essencialmente conservadora e explorando os sentimentos mais primitivos da população. O que o Lacerda fazia era absolutamente terrível. Não tinha filtro.

iG - Qual a consequência?

Lira Neto - A história se repete em 1964. As pessoas que articularam a derrubada do Getúlio (militares e UDN) são exatamente as mesmas que fizeram 1964 e derrubam o herdeiro dele, João Goulart, que vai aparecer com desenvoltura logo no início do terceiro volume da trilogia. Getúlio se apresenta aquele jovem bem sucedido, empresário, bonitão, dono de algumas cabeças de gado e estabelece uma relação quase paternal.

iG - De Getúlio aos dias de hoje, o que mudou?

Lira Neto - O Brasil que teve uma disputa com Dilma, Serra e Marina adquiriu representações muito sólidas e responsáveis. Arrisco dizer os últimos governos (FHC, Lula e Dilma) serão vistos no futuro como uma coisa mais homogênea do que aparecem hoje. Serão vistos como resultado de um processo de evolução política, por mais que tucanos e petista se digladiem para saber quem veio antes.

iG - Nas manifestações de junho se falou na volta de militares. O que acha?

Lira Neto - Acho que isso é coisa datada, colocada no seu devido local. Alguns deles podem até querer, mas a sociedade amadureceu de forma irreversível. As manifestações contra a democracia participativa, contra os partidos e a satanização da política foram as bandeiras que no passado fizeram os regimes de força, onde chafurdam os interesses individuais. A mentalidade política evoluiu, as instituições estão se aprimorando e a sociedade tem de si a percepção de que não precisa ficar esperando um pai. Tenho absoluta convicção de que amadurecemos. A história não dá voltas.

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