Barbosa é Ney Matogrosso, e como é!

Por Paulo Ghiraldelli , iG Rio de Janeiro |

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Filósofo fala sobre o que o ministro do STF e o ex-integrante do Secos e Molhados despertam no público

A emergência do ministro Barbosa no cenário midiático brasileiro é nos dias de hoje o que foi nos anos setenta o aparecimento de Ney Matogrosso e o Secos e Molhados. Todos olhavam e não sabiam como classificar. Comichava no estômago de alguns um desejo de gritar “viados!”, mas o grito não saía porque o entretenimento agarrava o corpo. Vários estavam prontos para vociferar “pastiche!”, mas as mãos não iam para fazer concha na boca e terminavam aplaudindo ou paralisadas ou em batuque, pois a lírica dúbia deslizava em uma musicalidade cativante. Barbosa gera no público que gira em torno da mídia exatamente essas reações. A única fundamental diferença é, talvez, abdominal: há quem só pode considerar belo e sexy o invólucro do umbigo de Ney, enquanto outros até preferem o ventre barbosiano.

Outro artigo: O mensalão foi o sorriso de Monalisa do STF

Agência STF
Joaquim Barbosa, presidente do STF

Barbosa fala e age como Ney cantava e dançava. Empina o ventre, dobra um pouco os joelhos e anda no palco fazendo uma quase circunferência – e aponta para lobisomens. Gostando ou não, não havia quem não acompanhasse a trajetória de Ney nesse movimento no palco. Apoiando ou não, não há quem fique indiferente ao rodopiar barbosiano. A virtude é a mesma: orgulho. Ney tinha amor pelo que fazia, ainda que fosse uma novidade absurda, porque sabia que fazia bem a ponto de poder orgulhar-se de si mesmo. Jamais abaixou a cabeça. Barbosa não é mesmo de abaixar a cabeça.

Não dou a mínima para os que dizem que Barbosa é isso ou aquilo, de bom ou ruim. Porque Barbosa, como Ney, não tem de ser bom ou ruim, tem de fazer o que tem de ser feito quando o demônio chama alguém para que o mundo saia do tédio e da pasmaceira. Estávamos bem de saco cheio do palco quando Ney apareceu. Ninguém sabia o que de fato fazia o STF quando Barbosa emergiu. Ney colocou um elemento inusitado no palco: pelos, cabelos de barriga no palco. Muitos homens perceberam que eram gays quando admitiram, ainda que só a quatro paredes, que a barriguinha de Ney era sexy. Barbosa tem feito muita gente perceber que o Brasil tem legislação, tem leis, e que vários de nós gostaria de entendê-las, mesmo que a quatro paredes. Em outras palavras: Ney e Barbosa são aqueles personagens que surgem em uma história não somente para darem enredo à narrativa, mas para que possamos nos descobrir.

Tenho ouvido dos jovens frases em tudo parecidas com as dos anos setenta: “nossa, vendo aquela pessoa fazer o que ela faz, eu vi que eu gostaria de fazer aquilo também”. Havia os que queriam fazer o que Ney fazia, mas de modo melhor. Há os que apostam que, caso se dediquem ao que Barbosa se dedicou, podem fazer melhor que ele.

Essas pessoas, como Barbosa e Ney, que abrem caminhos, são personagens típicos da filosofia de Sartre. São os que projetam suas vontades no mundo. Sulcam a terra. Deixam um caminho projetado inédito, que pode então levar outros a dizer: quero ir por esse caminho. E outros, ainda, dizem: quero ir quase por esse caminho.

Ney puniu a música brasileira, que até então não havia se comprometido com o corpo, com a dança, com a melhor sinestesia. Barbosa está punindo a política brasileira, por ela nunca ter se comprometido com o corpo, com a coreografia da democracia e sua melhor sensibilidade.

Antes de Ney a música e a dança se encontravam, mas não se dispunham a um comprometimento. Antes de Barbosa, política e responsabilidade democrática se encontravam, mas não se dispunham a um comprometimento.

A denúncia de Roberto Jefferson, todos sabemos, não foi uma denúncia vazia e descabelada. Ele falou o que falou cara a cara com Zé Dirceu. Foi tudo televisionado. Foi quase uma careação judicial. Jefferson levou a melhor, e todos nós sabemos disso. Que parte do PT – talvez realmente sem qualquer aval do presidente Lula – tentou lidar com a bancada do Congresso de um modo instrumental, ninguém tem dúvida. Só o militante profissional, pago para não pensar ou então com algum fanatismo típico acredita que deputados fisiológicos vinham votando com o governo sem receber alguma coisa. Não importa se isso se fez como crime nos moldes que ficou parecendo. O que importa, ao menos no geral, é que Barbosa, entrando no STF pela indicação de Lula – e isso é fundamental – e sendo quem é, um intelectual negro que não abaixa a cabeça, tenha percebido que sua função no STF é histórica e fundamental. Ele pode errar e, mesmo errando, acertará. Ao exigir que os partidos se responsabilizem pelo modo como fazem política, Barbosa faz exatamente o que se pode admirar nele. Muitos deram glórias ao STF, mas Barbosa vai ficar como aquele que tirou o STF de um anonimato diante dos partidos que não poderia mais estar ocorrendo. Por isso digo que ainda que ele erre, acertará.

Barbosa sabe que vão exigir que ele abaixe a cabeça – já estão exigindo, e às vezes de maneira nojenta. O Brasil ainda é um país em que o branco se vê como sendo da terra, tomando os outros não brancos como forasteiros. Barbosa sabe de onde ele veio. Ney também sabia, e muito bem.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

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