Novos depoimentos reacendem dúvidas sobre morte de Juscelino Kubitschek

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Investigação na Comissão Municipal da Verdade de São Paulo reforça contradições deixadas pelo inquérito oficial da morte do ex-presidente em acidente de carro

Desde 1996, Serafim Jardim, ex-secretário de Juscelino Kubitschek, tenta provar que o ex-presidente foi alvo de um complô e que sua morte não teria sido provocada por um simples acidente de carro. Nesta semana, novos relatos na Comissão Municipal da Verdade de São Paulo lançaram mais dúvidas e apresentaram contradições relacionadas ao caso.

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O advogado Paulo Olivier que, como passageiro do ônibus da Viação Cometa, foi testemunha ocular da colisão em que morreu JK, em 1976, afirmou que o Opala preto em que viajara o ex-presidente bateu, em alta velocidade, num guard-rail da rodovia Presidente Dutra, altura do quilômetro 165, em Resende (sentido Rio) e depois chocou-se com o caminhão Scânia que trafegava na faixa contrária, em direção a São Paulo.

“Nem chegou a relar”, disse Oliver, que estava ao lado do motorista.

Agência Estado
Ex-presidente Juscelino Kubitschek pode ter sido alvo de complô

Pela versão oficial, o ônibus teria batido levemente no automóvel que, desgovernado, chocou-se com o caminhão. “O processo todo é uma farsa”, reforça Serafim Jardim.

Uma das principais falhas do inquérito, segundo ele, é apontar que o carro de JK, antes de bater de frente com o caminhão, teria “abalroado” o ônibus, quando o motorista Josias Nunes de Oliveira, um guarda rodoviário e oito testemunhas – entre eles Olivier – garantem que isso não ocorreu.

O advogado Paulo Castelo Branco, que acompanha Serafim Jardim desde que o caso foi reaberto em 1996, diz que só uma apuração isenta e profunda, comandada pela Comissão Nacional da Verdade, com autonomia e recursos tecnológicos de perícia podem esclarecer as contradições e apontar se JK morreu num acidente ou foi alvo de um complô de setores do regime militar, conforme ele e Jardim suspeitam.

Metal suspeito

Um dos pontos mais importantes a serem esclarecidos é a composição de um pedaço de metal encontrado no crânio do motorista de JK, Geraldo Ribeiro, depois da exumação, em 1996. Há duas versões periciais para o aparecimento do metal: seriam restos de um prego do caixão que se soltou, se misturando a farelos dos ossos do crânio – onde há um buraco – ou fragmentos de um projétil de armada de fogo.

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Com sete milímetros, o pedaço de metal se assemelha a ponta de uma tampa de caneta e encontra-se atualmente no Instituto de Medicina Legal de Belo Horizonte. É a peça mais importante do quebra cabeças.

Reprodução IML
Vista (sob lupa estereoscópica) do fragmento metálico, enferrujado e corroído por ação do tempo, após retirada de crânio de JK

“Há pouco tempo vimos a polícia francesa encontrar vestígios de cianureto num fio de cabelo de Napoleão Bonaparte (morto em 1861), apontando indícios de que ele tenha sido envenenado. Não entendo como não tenham analisado profundamente uma peça de metal que pode mudar a história sobre a morte de um ex-presidente do Brasil”, lamenta o advogado Paulo Castelo Branco.

No emaranhado de mistérios, surgiu também, pelo depoimento de Serafim Jardim, a hipótese de um novo veículo no cenário do acidente, uma Caravan preta que poderia ter relação com o caso. Serafim diz que extraiu o informe de um diálogo travado entre a filha do ex-presidente, Márcia, e uma jornalista, registrado num livro. A suspeita é que o carro poderia ter emparelhado ao Opala do ex-presidente e dele tenha partido um tiro contra o motorista. Por essa hipótese o carro teria se desgovernado.

É uma suspeita sem qualquer comprovação, mas que aumenta na medida em que o inquérito feito à época foi encerrado sem autópsia ou as fotografias que ilustrariam o acidente.

Outro detalhe contraditório, segundo Serafim Jardim: quando o caso foi reaberto, a perícia descreveu o carro de JK com o número de um chassi que não era o do Opala.

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No dia das mortes, 22 de agosto de 1976, os corpos também teriam sido guardados no IML de Resende em circunstâncias curiosas, conforme reportagens do acidente: JK estava no chão coberto por um lençol, enquanto o corpo do motorista havia sido colocado numa urna lacrada por determinação de agentes do regime militar que, em 1976, depois de massacrar as organizações da esquerda armada, estava mais forte do que nunca.

As dúvidas técnicas são fortalecidas pelas circunstâncias políticas e um suposto complô entre os chefes do Serviço Nacional de Informações (SNI), do Brasil, e o Departamento de Inteligência Nacional (Dina), do Chile, respectivamente, o general João Batista de Figueiredo e o coronel Manuel Contreras. Os dois serviços de inteligência e os militares que os comandavam atuavam em articulação.

Em documento com data de 28 de agosto de 1975 encaminhado a Figueiredo, Contreras assinala a preocupação com a influência benéfica que a eleição de um democrata (Jimmy Carter) nos Estados Unidos poderia exercer sobre os opositores aos dois regimes, o ex-ministro de Relações Exteriores chileno, Orlando Letelier, e Juscelino Kubistchek no Brasil.

Reprodução
Carta enviada pelo coronel chileno Manuel Contreras a João Figueiredo

No trecho seguinte do mesmo documento, o chileno se dirige a Figueiredo concordando e manifestando explicitamente “decidido apoio” ao “o plano proposto por você para coordenar nossa ação contra certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democratas e democratas-cristãos da América Latina e Europa”.

Serafim Jardim e Paulo Castelo Branco acham que o documento tem o peso de uma confissão sobre um plano de eliminação e afirmam que Juscelino Kubistchek era, sim, alvo da Operação Condor, conforme atestaria uma comissão da Câmara dos Deputados que, em 2000, que investigou o caso. “Os membros da comissão escreveram em relatório que se JK não morresse no acidente seria assassinado no complô organizado pela Condor”, afirma Jardim. “O presidente era um alvo a ser eliminado”, afirma.

Coincidência ou não, Letelier morreria no atentado a bomba executado em Washington um mês depois do suposto acidente de JK com a participação de agentes do Dina supostamente a mando do ex-ditador Augusto Pinochet.

Versão nebulosa

Com cautela, o vereador Gilberto Natalini (PV), presidente da Comissão Municipal da Verdade diz que as inúmeras contradições verificadas nos inquéritos que trataram o suposto acidente não são provas de que JK foi assassinado, mas tornam a versão oficial nebulosa, questionável e justificam uma investigação firme.

Natalini lembra que à época JK era “candidatíssimo” e disputaria a presidência contra Figueiredo, em 1978, no Colégio Eleitoral. Ele diz que outro fato estranho levantado pela comissão foi o comportamento do dono do hotel fazenda em que JK esteve pouco antes de morrer, o brigadeiro Nilton Junqueira Villa Forte.

“O Juscelino parou no hotel para visita-lo. Momentos depois, alegando que precisava fazer compras, o brigadeiro deixou o hotel numa Kombi. JK voltou para Dutra e entre um minuto e meio depois morreu. São coisas que não batem”, diz o vereador. “Como ia deixar sozinho um o ex-presidente?”, questiona.

Segundo Natalini, embora se dissesse amigo de JK, o brigadeiro havia sido professor de Figueiredo, era ligado ao SNI e, especialmente depois da morte de JK, recebia visitas do general Golbery do Couto e Silva, o criador da comunidade de informações e chefe da Casa Civil de Figueiredo.

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