Gays que não deixam a mesa dançar

Por iG Rio de Janeiro - Paulo Ghiraldelli Jr. |

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Êxito de Felix e Jean Wyllys mostra que até os menos utópicos apostam na ousadia gay para fazer com que os homens tenham algum "poder de redirecionar as coisas"

Esperamos mais dos gays como um dia já esperamos mais das mulheres e, talvez, nessa linha de raciocínio, dos operários. Mesmo os menos utópicos entre nós, aqueles que fizeram de Nelson Rodrigues um guru, têm lá sua quedinha por essa ideia (ainda que não possam confessar). Há de existir um grupo social que tenha uma estrutura psíquica diferente daquela dos homens que até hoje comandaram o mundo. Só assim o mundo será, mesmo no inferno da Terra, um lugar em que ao menos os demônios possam sobreviver.

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Divulgação/ Agência Câmara
"Jean Wyllys se destacou para além do que se pode esperar de um político no parlamento"

Quando garotos, pessoas assim, com menos ou mais utopias na cabeça, sonham em encontrar algum E.T. que ou seja mau de verdade ou seja bom e miraculoso de verdade. O desejo básico é o mesmo em todos os casos: temos de topar com alguém que tenha todos os poderes divinos dos humanos, todas as graças humanas dos animais, mas que possam ao mesmo tempo gostar de Platão, Bee Gees, Nobokov e cachorros. Os operários foram esperados assim. Depois as mulheres. Agora, os gays. Mas com os gays, a conversa é outra. Muito outra.

Claro, claro, sei que também as crianças – “a juventude” – são às vezes requisitadas para esse papel de marcianos que chegarão para nos dar novo caminho. Mas, no caso dos mais jovens, há a desconfiança de que em algum momento irão se revelar iguais ao que já temos desde sempre. O novo mesmo, agora, são os gays. Eles são os garotos do professor Xavier que ensinarão ao mundo aquilo que Volverine (infelizmente) já vem perdendo a cada filme, ou seja, uma nova sensibilidade por conta de usarem de um vocabulário realmente novo.

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Os êxitos de Félix e de Jean Wyllys estão embutidos aí, nessa maneira como nós, até mesmo os preconceituosos (não digo os homofóbicos), nos agarramos às oportunidades que temos de ver se podemos mesmo produzir “versões melhores de nós mesmos” (Rorty). Achávamos que a “solidariedade operária” embutida em expressões como “ajuda mútua”, “avanti!”, “proletariado do mundo, uni-vos” e similares eram indícios a respeito da revolução que iria transformar o “bípede-sem-penas” (Platão). Depois, confiamos no vocabulário do “eu te amo”, “não esqueça o casaco”, “fiz a torta para você”. Este expressaria bem as funções femininas consagradas, que construíram boas vidas. Não é que esses dois grupos não deram certo enquanto os que trariam a “boa nova”, é que no meio disso mudamos nossa atenção quando vimos que desde há muito existia entre nós algo mais complexo que tudo isso. O vocabulário gay começou a nos mostrar que a questão não era esperar anjos específicos, mas, efetivamente, esperar o diferente. Por isso queríamos algo como um E.T! Um E.T é um tipo de anjo, mas sem predeterminações, não sabemos que poderes têm.

Leia o blog de Jean Wyllys no iG

Insisto na figura do ET e não na de Jesus. Gays podem redimir o mundo do pecado, como Jesus. Mas não somos suficientemente adultos para pedir isso. O que queremos é que surja das profundezas dos cosmos alguém que sempre esteve por aqui, mas que só agora pode mostrar seus superpoderes. Félix ganha a atenção de um público bem maior que o público que se esperava e, por sua vez, o deputado Jean Wyllys se destacou para além do que se pode esperar de um político no parlamento. Não quero e não posso tirar o mérito pessoal dele ou de Félix (Walcyr Carrasco + Solano + Globo). Mas seria bobo caso não entendesse que há uma constelação de elementos que os ajudam, que estão presentes, e que são elementos subjetivos, nossos.

TV Globo/ Divulgação
"Félix ganha a atenção de um público bem maior que o público que se esperava "

Wyllys e Félix de fato não são comuns. Ambos são da TV, ou seja, em parte são personagens. Wyllys é real, e também personagem. Félix é personagem, mas, de certo modo, também real. A aura está posta. Abraça ambos. A performance de ambos é impecável. E o vocabulário que usam é especial, diferente. Félix é um arsenal de frases satíricas que o senso comum imagina que poderia chamar de ironia. Wyllys fala tudo que alguém em um partido de esquerda, com vínculos arcaicos em um marxismo mais arcaico ainda, jamais falaria. Isso é importante em projetos utópicos: falar o que pode dar errado e que, uma vez falado, dá certo. Félix vai de mal a pior falando como fala, e tem êxito no ibope. Wyllys arrisca mais ainda, e cada vez mais é elogiado até pelos descrentes na política.

Entrevista: Félix de “Amor à Vida” é um gay homofóbico, diz terapeuta

Na verdade, as imagens que Wyllys e Félix passam, apesar de existir um mundo todo de ideários distintos que os separam, é que, sendo gays, não são propriamente figuras reduzidas ao que é hoje o homem atual, que quando coloca um terno é o terno que o abraça. Félix e Wyllys parecem poder fazer o mundo mover. As coisas giram em torno deles. Ora, todos nós sabemos bem que na condição que estamos as coisas pararam de girar em torno de nós faz tempo. Elas dançam em nossa frente quase que zombando de nós, e não mais girando. Ora, eles nos devolvem a esperança: as coisas podem ainda serem postas a nosso favor, mesmo que aos trancos e barrancos – assim parece quando os vemos agir. O gay parece ensinar ao homem atual um truque perdido: use seu vocabulário de modo novo e cometa as ousadias que só um gay pode cometer e eis que algum centro você ocupará.

Tudo isso pode ser ilusão de gente que acredita em E.T. como já acreditou em “operários” e “mulheres”. Gente tola. Mas não é bem assim. Há algo diferente nisso tudo. A questão não é a de acreditar em uma revolução de grupos, objetiva ou subjetiva. A questão que levanto é a de, em um mundo onde as coisas comandam os homens, ainda poder colocar os homens com algum poder de redirecionar as coisas.

Temos algo a aprender com esses gays!

Devemos notar como que Félix e Wyllys chamam a atenção e fazem com que nos interessemos em assisti-los funcionando, mesmo estando eles na condição incômoda em que estão, um como vilão e outro no lugar da vilania, o Congresso. Em condições tão desfavoráveis, eles atraem simpatias e podem ousar dizer: “vou colocar um cinzeiro ali na mesa e ele não vai voar. Nem as mesas irão dançar” (*). Dizer que ambos não estão podendo fazer isso, ainda que seja de forma mínima, seria não notar nada, nada mesmo.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRRJ

(*) Marx, em O capital, fala do “segredo” da mercadoria, mais ou menos assim: a mesa fixa seus pés e se põe diante de outras mercadorias, mostrando suas idéias fixas de sua cabeça de madeira; trata-se de algo mais fantástico do que se dançasse por iniciativa própria.

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