Líder do PSTU prevê união de juventude apartidária com sindicatos

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Nova semana de protestos está programada para período que vai de 30 de agosto até 7 de setembro

Ideólogo e formulador do PSTU, o sociólogo e professor de história Valério Arcary aposta que a terceira onda de protestos, programada para a semana que vai de 30 de agosto a 7 de setembro, pode ter a combinação mais esperada da história das mobilizações de rua: a unificação da juventude universitária apartidária com os trabalhadores que integram a base social dos sindicatos.

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“A unificação é uma luta política. Estamos trabalhando para isso”, diz Arcary. Sonho ainda distante, uma aliança entre os jovens de classe média que protestaram contra todos os partidos e governos, segundo o dirigente do PSTU, tornaria imbatível o movimento por mudanças profundas na estrutura política brasileira.

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Em protestos de junho, manifestantes criticaram partidos políticos

Para ele, a força das mobilizações criou no País um cenário imprevisível em que, embora o controle das ruas seja atualmente o objeto das disputas, a direção e a agenda do movimento ainda estão abertas.

O comando, segundo ele, deverá ser definido na próxima jornada de manifestações, que pode ser maior que as ondas de junho e julho, estas coordenadas separadamente por estudantes de classe média e centrais sindicais. Nas contas de Arcary, apesar de ter sido classificada como inexpressiva pela imprensa, a paralisação de 11 de julho reuniu, no total, mais de três milhões de pessoas e foi a maior paralisação desde o governo de José Sarney. Ele acha que a de setembro será bem maior.

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Arcary afirma que as medidas anunciadas pelo governo, como a proposta de plebiscito ou royalties do petróleo para a educação (e não os 10% do PIB) e as reações do Congresso – que passou a discutir partes da reforma política – são pautas da direita e, portanto, insuficientes para afastar as insatisfações que atingem a sociedade em geral ou o mal-estar da juventude que foi às ruas.

O desafio para a jornada de setembro, segundo ele, é definir uma pauta comum que implique em reformas profundas, contemple e una juventude e trabalhadores.

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Arcary diz que as manifestações de junho causaram “a tsunami” que derrubou os índices de popularidade da presidente e fragilizou o poder, mas não vê motivos para o governo se assustar e que não há clima para aventuras golpisas.

Coalizão sem reformas

Lembra, no entanto, que os jovens que foram às ruas pertencem a uma geração que se tornou órfã das políticas públicas, não participaram das grandes mobilizações das décadas de 1980 e 1990, estão enfrentando um País pior do que o de seus pais e que, pela falta de perspectiva, não têm “lealdade” alguma com os 10 anos de governo do PT.

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Protesto organizado por centrais sindicais em julho teve participação menor que manifestações em junho

Arcary lembra que nos dois períodos mais recentes da história de grandes manifestações – o fim da ditadura militar com a campanha das “diretas-já” e a derrubada de Fernando Collor após o movimento dos cara pintadas –, as mudanças foram negociadas e seguidas de transição. Seu diagnóstico não prevê riscos ao governo, mas também não enxerga soluções que atendam as expectativas das manifestações.

“Não acredito que o governo de coalizão vá fazer as reformas. O PT tenta isso há dez anos e vem sendo derrotado pela inércia de seus aliados e pela posição reacionária dos poderosos”, afirma.

Ele afirma que a juventude, sim, pode acordar as classes trabalhadoras, mas frisa que a partir de agora o que definirá a força das manifestações serão a capacidade de organização e as bandeiras a serem postas à mesa de negociação pela pressão das ruas.

Aos jovens, segundo ele, interessam políticas que representem igualdade com equidade e aos trabalhadores, reivindicações como a jornada de 40 horas.

Embrião revolucionário

“Mas isso ainda não é nada. O que vimos até agora foi o início de um processo de auto-organização, o embrião de um processo revolucionário que pode acordar as classes trabalhadoras. Se voltar para as ruas tem que definir bandeiras”, afirma Arcary.

Ricardo Galhardo
Partidos políticos chegaram a ser hostilizados em manifestações

Segundo ele, a luta dos estudantes pela redução de tarifas de transporte, passe livre, mobilidade urbana, combate a corrupção e demais reivindicações nas áreas de saúde e segurança precisam agora ser reforçadas por uma pauta que mexa na estrutura política e econômica do país.

“É ingenuidade imaginar que as mudanças passam por soluções técnicas da política. Estas representam apenas uma molécula da questão social”, afirma Arcary.

Ele diz que o Brasil está numa encruzilhada e compara o resultado das manifestações a imprevisibilidade de um terremoto. “As placas tectônicas se moveram e houve uma irrupção social em escala que ninguém controla. Não tem direção nem limites. Está tudo ainda em disputa”, afirma.

Vandalismo

Com a autoridade de quem dirige um partido com fortes bases também no movimento estudantil e que enfrentou hostilidades para permanecer nas ruas, Valério Arcary afirma que as manifestações só ganharam força com a truculência da Polícia Militar durante a repressão de 14 de junho na Rua da Consolação e na Avenida Paulista.

Além disso, acredita que as cenas de vandalismo vistas nos dias seguintes foram resultado da infiltração do serviço secreto da PM, o chamado P-2, que, segundo ele, teria insuflado os jovens furiosos que, sem controle ou direção, optaram pela ação direta, depredando prédios públicos.

“A P-2 da PM acendeu os ânimos de jovens furiosos e descontrolados, que entraram numa ação direta onde cada um faz o que quer”, afirma. Segundo ele, os vândalos têm o perfil de jovens inseridos no mercado de consumo, originários de um subproletariado dependente de trabalho que já não existe.

Arcary lembra que em todas as manifestações, os vândalos não passaram de 300, número que seria facilmente aprisionado caso fosse esse o interesse das forças policias.

Ele sustenta, no entanto, que não foram o vandalismo ou as imagens de invasão e depredação que mexerem com o poder.

“O que assustou o governo foi a massa na rua. Se nada tivesse sido feito, em vez de 100 mil, nos dias seguinte seriam milhões nas ruas”, diz.

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