Com base ampla, Planalto tem mais trabalho com aliados que com oposição

Por Luciana Lima - iG Brasília |

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Lista de líderes rebeldes da base de apoio só aumenta diante da perspectiva de novas candidaturas em 2014

Com uma base tão ampla, quanto trabalhosa, o governo federal precisa contar na maior parte das vezes com alguns líderes governistas que acabam assumindo papel de verdadeiros opositores. Nas negociações de propostas de interesse do governo no Congresso, já ficaram famosos por darem trabalho à articulação política do Planalto nomes como o do deputado Eduardo Cunha (RJ), líder do PMDB, e André Figueiredo, que lidera a bancada do PDT na Câmara e é campeão de emendas com objetivo de modificar os pedidos do Planalto.

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Em meio às perspectivas de um ano pré-eleitoral, a lista de líderes rebeldes só tem engordado. Também é comum ouvir nos corredores do Planalto a ideia de que, quando se trata de oposição, se sabe com quem está falando. Já com os líderes da base, essa avaliação é mais difícil.

Wilson Dias/ABr
Em meio às perspectivas de um ano pré-eleitoral, a lista de líderes rebeldes só tem engordado

Beto Albuquerque, líder do PSB na Câmara e um dos principais articuladores da possível candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, à presidência da República, tem se esmerado em suas falas oposicionistas. Nas votações, no entanto, continua orientando a votação conforme o governo. “É que nós pensamos no bem do Brasil”, ironiza.

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No Planalto, a sensação é de que os socialistas entusiastas da candidatura de Campos dariam mais trabalho neste ano. “Não é o que temos observado nos mapas das votações. Eles falam muito, mas tem votado com a gente”, disse um dos articuladores do governo que prefere não ter o nome divulgado.

Entre conversas sobre a proposta que destina parte dos royalties de petróleo para a Educação, Albuquerque não deixou por menos. Ao ser indagado pelo ministro Aloizio Mercadante sobre a postura do PSB, o líder disse ao ministro que o governo havia “escolhido outra turma”, referindo-se à aliança prioritária com o PMDB tão propagada pelo Planalto.

Alan Sampaio / iG Brasília
Já ficaram famosos por darem trabalho à articulação política do Planalto nomes como o do deputado Eduardo Cunha (RJ) (dir.), líder do PMDB na Câmara dos Deputados

Posição semelhante tem o líder do PP, Arthur Lira. Nos discursos e entrevistas é sempre crítico às medidas propostas pela presidente e reclama muito do modo distante dispensado aos parlamentares. No Planalto, no entanto, é visto como um líder que faz questão de dizer que não é governo, mas acaba votando a favor.

Convicções

Já a postura do líder do PDT na Câmara, André Figueiredo, é mais evidente nos embates envolvendo as questões caras ao governo. Nem a nomeação do ministro Manoel Dias para a pasta do Trabalho e Emprego, medida defendida pelo líder, foi capaz de torna-lo um aliado de primeira hora. “Ele destoa”, avalia um articulador do governo.

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Já Figueiredo se justifica. “Desde o segundo turno das eleições em 2006, o PDT disse a Lula que iria apoiar sua campanha, mas sem abrir mão das convicções em relação à Educação e ao Trabalho”, avisa.

No ano passado, em meio à discussão sobre o Plano Nacional de Educação (PNE), Figueiredo incluiu a proposta que destina 10% do PIB (Produto Interno Bruto) para a área. O Planalto foi contra, alegando que gostaria de ter construído com a base aliada uma proposta que indicasse a fonte de financiamento da área.

Cobrança

Na discussão sobre o Fundo de Previdência Complementar do Servidor Público Federal (Funpresp), aprovado em março do ano passado, Figueiredo foi o deputado que mais apresentou sugestões de mudanças ao relatório apresentado pelo petista Ricardo Berzoini, nos moldes defendidos pelo Planalto.

“Na questão do Funpresp fomos para o embate com critérios técnicos”, defendeu o líder, que não deixou de cobrar informações do governo. “Até hoje estamos esperando o detalhamento do custo de transição do Funpresp e o governo não nos apresenta”.

André Figueiredo também tem tumultuado a vida do ministro da Educação, Aloizio Mercadante, que, depois que a crise de articulação do governo ficou escancarada, foi escalado por Dilma para conduzir as negociações com o Congresso sobre a medida que destina royalties de petróleo para a Educação.

“Ele não tem agido como ministro da Educação. Ele tem agido como articulador do governo. Nossa proposta destina muito mais recursos para a Educação do que a proposta que o ministro está defendendo”, critica André Figueiredo, referindo-se à postura adotada por Mercadante de fazer valer o texto aprovado pelo Senado sobre o tema.

Sabotagem

“O ambiente é de sabotagem”, define o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), ex-ministro das Comunicações do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Apesar de estar no campo aliado, Miro aponta a articulação do governo como principal responsável por criar esse ambiente com líderes no Congresso.

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“O que antes era passível de virar denúncia, hoje é visto com naturalidade e colocado de forma explícita, anunciado como meritório. A culpa é do próprio governo que permitiu esse tipo de aliança que tem como base a troca de cargos. Quando o líder do PT falou sobre o bônus e o ônus de ser governo, refletiu exatamente o pensamento do governo”, criticou.

“Não vejo chances de essa política dar certo em longo prazo. O próprio líder confessa essa prática abominável”, enfatizou Miro Teixeira, ao citar a reclamação feita pelo líder do PT, José Guimarães, que criticou os líderes aliados após os deputados rejeitarem o texto do Senado na votação os royalties para a educação e saúde. Segundo Guimarães, há "ônus" e "bônus" em ser do governo.

Piada

A atuação dos líderes rebeldes já causa piadas nos corredores da Câmara. Um petista chegou a dizer que a oposição deveria mover um processo contra eles para reivindicar o privilégio de ser protagonista na oposição ao governo.

É corrente também entre os governistas a ideia de que o Planalto não conseguiu estabelecer com o Congresso uma relação de “mérito e ressalvas”, como definiu um petista. A sensação é de que os mais rebeldes acabam conseguindo mais vitórias políticas junto ao Planalto do que os líderes que defendem as posições do governo.

Na avaliação de um petista, a queda do ex-ministro do Trabalho Brizola Neto, sucedido por Manoel Dias, tem muito da atuação de Figueiredo.

Ponto de honra

Os conflitos na base têm sido a tônica do governo de Dilma Rousseff e ficou mais evidente com a ascensão de Eduardo Cunha à liderança do PMDB. Desde que assumiu o cargo, Cunha tem sido a pedra no sapato de Dilma. Tanto é que sua relação com a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, azedou ao ponto de não se falarem mais.

Na votação da MP dos Portos, essa indisposição se tornou evidente. O líder saiu derrotado já que os governistas aprovaram o texto base, como queria o Planalto. Nos bastidores, a articulação política comemorou ter derrotado Cunha nessa votação. Para a articulação do governo, derrota-lo naquele momento se tornou um “ponto de honra”.

No entanto, Eduardo Cunha, que era relator da medida na Câmara e havia apresentado uma série de mudanças ao texto, criticou publicamente a falta de disposição do Planalto em dialogar. Com isso, conseguiu sua própria vitória política: unir a bancada do PMDB na Câmara em torno de seu nome e em uma posição mais crítica em relação à Dilma.

Já no ano passado, quando a disputa pela liderança começava a ganhar corpo, Cunha já sabia que era preterido pelo Planalto para a função. Contou a seu favor a habilidade que teve durante as campanhas municipais de angariar recursos teve que ser engolido pelos caciques do partido e pela própria presidente.

Rebeldia

A rebeldia da bancada do PMDB também tem provocado indisposição entre Dilma e o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN).Se antes da eleição para as presidências da Câmara e do Senado, Dilma tinha resistências a Renan Calheiros e apoiava Henrique Eduardo Alves, a situação se inverteu. “Hoje ela é mais Renan”, disse um peemedebista da Câmara.

Não tem agradado à presidente, a postura de Alves de “jogar para a plateia”, ou seja, de deixar com a bancada, decisões que ele poderia tomar. O Planalto, segundo interlocutores da articulação política, viu isso acontecer com as propostas apresentadas em relação à Reforma Política e à realização do plebiscito sobre o assunto. “Quem enterrou o Plebiscito foi o PMDB e, claro, com a concordância do presidente da Câmara”, disse um peemedebista para exemplificar essa ação.

Além da falta de esforço de Alves em atender os pedidos do Planalto para conter o líder do PMDB, Eduardo Cunha, o presidente da Câmara as sugestões de Alves para que Dilma antecipe a reforma ministerial e reduza 14 pastas também irritaram a presidente.

Nos bastidores, Alves ecoa a principal reclamação da bancada: a de que a presidente não recebe os parlamentares e não dialoga.

Críticas

Embora não seja líder de seu partido, o deputado Paulinho da Força (PDT-SP) faz parte da base aliada e tem dado mais trabalho que muitos opositores. A incompatibilidade entre o líder da Força Sindical, uma das principais centrais sindicais, com a presidente é conhecida no Congresso. É comum flagrar o deputado aos resmungos de que “ninguém aguenta mais a Dilma”.

Nos últimos meses, Paulinho tem liderado as críticas ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, e acusado Dilma de mantê-lo no cargo sem a autoridade necessária.

Paulinho também ignorou as movimentações de Dilma Rousseff para tentar evitar as manifestações de trabalhadores na semana passada e manteve a paralisação do dia 11 de julho. “Ela não ouviu”, reclamou.

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