Criada após manifestações, Coalizão Estudantil reúne estudantes de centros acadêmicos em torno de questões como transporte, segurança e reforma política

As manifestações que pararam São Paulo no último mês trouxeram mais do que a redução dos R$ 0,20 no sistema de transportes: ao se encontrar nas ruas pelas mesmas bandeiras, um grupo de estudantes, a maioria ligada a centros acadêmicos (CAs) de universidades paulistas, resolveu formalizar suas afinidades na Coalizão Estudantil.

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O coletivo, apartidário, nasceu após uma articulação entre estudantes e advogados insatisfeitos com as detenções e a violência policial contra manifestantes que, para evitar que os episódios de abuso se repetissem, se reuniram em torno do XI de Agosto, CA da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), para entrar com um pedidos de habeas corpus preventivos para quem protestasse.

Manifestações pararam São Paulo reivindicando a redução de R$ 0,20 na tarifa de ônibus
Renan Truffi
Manifestações pararam São Paulo reivindicando a redução de R$ 0,20 na tarifa de ônibus

Desde então, o grupo, que se organiza de forma vertical, sem líderes fixos, começou a se reunir para discutir questões que vão além de pautas ligadas à esfera acadêmica.

No início deste mês, um encontro da Coalizão reuniu cerca de 30 estudantes em um auditório da Faculdade Politécnica da USP para encaminhar os estudos e a agenda de trabalho sobre transporte, segurança pública e reforma política, as três principais frentes de atuação do grupo. “Não necessariamente nós somos melhores (do que as outras organizações estudantis), mas nós estamos trabalhando por consensos e união, e isso está nos dando uma força muito maior do que outras entidades”, acredita Raphael Gasparian Chinchilla, de 21 anos, membro do CA da Engenharia Elétrica da Poli-USP.

“Faltava no movimento estudantil uma maior união entre cursos e ideias, tentar agregar o que os estudantes têm de bom e de forma propositiva”, explica Victor de Almeida Pessoa, de 22 anos, estudante de direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Para a Coalizão Estudantil, o trabalho em torno de soluções para os problemas apontados pela sociedade é o seu principal diferencial. “Não só levantar a bandeira de ‘contra a corrupção’, mas propor como combater”, diz Nathália Farah Machado, de 21 anos, também do direito da PUC-SP.

Os estudantes são otimistas sobre a dimensão que os trabalhos da Coalizão podem tomar e fogem de rótulos de entidades tradicionais como a União Nacional dos Estudantes (UNE). O mais importante agora, segundo eles, é abrir um canal de diálogo com as autoridades e elaborar as melhores propostas para os problemas sociais. “A ideia é manter os trabalhos. Não sei se para sempre, mas só os temas que nós temos agora vão dar trabalho para uns seis meses, pelo menos”, acredita Nathália.

Na prática

Na última terça-feira (3), alguns representantes da Coalizão entregaram uma carta à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara de São Paulo com algumas das reinvindicações elaboradas pelo grupo. Para Alexandre Ferreira, de 22 anos, presidente do XI de Agosto, a CPI dos Transportes, somada à revogação da licitação dos contratos com as empresas de ônibus pelo prefeito Fernando Haddad (PT), abriu espaço para se propor um novo sistema de transportes da capital. “Vamos aproveitar esse momento para repensar o modelo de transporte, mais inclusivo, para que as pessoas que se apertam no ônibus possam ter um pouco mais de voz para escolher o que eles”, defende.

Nas pautas das comissões de trabalho, há bandeiras polêmicas levantadas nas ruas, como o fim da tarifa de ônibus e o fim da Polícia Militar (PM). Para embasar suas propostas, os alunos procuram colaboração de grupos de estudo, professores e pesquisas de suas instituições, que englobam faculdades como a USP, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e Mackenzie.

Para discutir a reforma política, tema que voltou ao foco após plano emergencial da presidente Dilma Rousseff para conter as manifestações que em todo País, os estudantes criaram sua terceira comissão de estudos. Apesar de ainda buscarem um denominador comum sobre o tema para levar às autoridades, uma impressão é consenso: a hora é agora. “Eu tenho 22 anos e nunca tinha visto tamanha mobilização da sociedade. O que a gente tem de conhecimento e o que a gente pode tentar tirar de propositivo para melhorar as questões que estão aí no dia a dia? Esse é o momento, não dá para perder”, diz Victor.

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