Hostilizados nos protestos, partidos agora recorrem à bandeira da ética

Por Clarissa Oliveira e Priscilla Borges - iG Brasília |

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Alvos de agressões nas manifestações, legendas buscam meio de restabelecer diálogo com a sociedade e falam em reforçar proposta de “limpeza” da política nacional

Futura Press
Manifestantes rasgam bandeira do PT durante protesto na Avenida Paulista (20/06)

As bandeiras queimadas e as agressões a militantes nos protestos que tomaram várias cidades brasileiras nesta semana levaram os partidos a se debruçarem em análises e diagnósticos da nova cena política nacional. Sob o argumento de que precisam recuperar a condição de instrumentos de mobilização social, várias legendas decidiram resgatar o discurso da “limpeza ética”, enquanto tentam definir os passos de uma estratégia concreta para dissipar o desgaste.

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“Há um impacto muito forte da imagem dos partidos, por um único motivo: há uma despreocupação completa dessas instâncias em relação aos anseios da população e à questão ética”, afirma o senador Pedro Simon (PMDB-RS). A crise, segundo o senador peemedebista, está no fato de os jovens brasileiros terem crescido sem que os partidos lhes apresentassem um motivo real para se identificarem com essas estruturas. Nem mesmo instituições como a União Nacional dos Estudantes (UNE) e as centrais sindicais, segundo o senador, encontram respaldo na sociedade neste momento.

Empenhado em compreender os fatos que marcaram esta semana, o PT da presidente Dilma Rousseff e do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, passou esta sexta-feira fechado em reuniões. Enquanto a presidente recebia ministros no Palácio do Planalto, para definir a linha de um pronunciamento que faria à noite sobre as manifestações, a direção nacional da legenda sentava-se à mesa em sua sede, em São Paulo.

Após as agressões a militantes protestos de quinta-feira, restou à direção petista lamentar a iniciativa de pedir aos filiados que fossem às ruas vestindo vermelho. Ainda assim, o partido entende que a essência da estratégia, que era mostrar que o PT é e sempre foi favorável a ter “o povo na rua”, tem de ser mantida. A legenda diz enxergar uma “tentativa de setores conservadores” de se apropriar das manifestações. Por isso, manterá o discurso de que a classe média brasileira – a mesma que comandou os protestos dos últimos dias – só cresceu e se fortaleceu graças aos avanços do governo petista.

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“O PT nasceu dos movimentos sociais. E esta classe média que está aí hoje cresceu em boa parte graças aos avanços do nosso governo”, disse ao iG o presidente do PT, Rui Falcão, na última quarta-feira, um dia antes dos protestos que terminaram com agressões a militantes.

O discurso ético também se firmou entre possíveis adversários do PT na disputa presidencial do ano que vem. Nesta sexta-feira, o presidente nacional do PSDB e pré-candidato ao Planalto, Aécio Neves (MG), declarou que agentes políticos devem ter “a humildade para reconhecer e compreender a insatisfação existente hoje no Brasil”. Na nota, Aécio disse haver um “evidente e justo clamor que une a sociedade” por uma mudança estrutural na gestão pública, que passa por “uma crítica aguda à corrupção”.

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Ex-presidente do PSDB e um dos articuladores da pré-campanha presidencial de Aécio, o deputado Sérgio Guerra (PSDB-PE) reforça a tese ao declarar que a sociedade teve todos os motivos para rejeitar, não só os partidos, mas a política brasileira como um todo. “A rejeição não é aos partidos, é à política. O que estamos vendo é que a população brasileira está rejeitando a política, e tem toda a razão”, diz o tucano. “Hoje, o que vale é a impunidade e as vontades do povo simplesmente não são respeitadas”, acrescenta.

No PSB, que tenta criar as bases para uma candidatura de seu presidente nacional, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, a avaliação é de que o melhor agora é observar os desdobramentos das manifestações e detectar exatamente o que quer essa parcela da sociedade. O partido diz nunca ter cogitado aderir abertamente aos protestos na rua. Em vez disso, começa a mapear temas que podem pautar a ação de seus integrantes, por exemplo, no Congresso Nacional.

“Tudo o que está ocorrendo precisa ser observado. Podemos estar pagando o preço de um legado e um dos alvos é a classe política”, diz o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), um dos articuladores da candidatura presidencial do governador pernambucano. O próprio Campos, ao comentar o tema, vem investindo na mesma receita usada desde que começou a desenhar seu projeto presidencial: destaca os avanços alcançados pelo Brasil nos últimos anos, ressaltando que a população brasileira quer mais. “A população quer um serviço público 2.0, de qualidade. Há um descontentamento geral e a política atual está descolada das demandas atuais”, afirmou Campos, por meio de assessores.

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Discurso homogêneo

Ao recorrerem à bandeira da ética, até mesmo siglas que hoje se encontram em campos opostos no espectro partidário acabaram com o discurso perfeitamente alinhado diante dos protestos. Assim como o PSTU diz enxergar uma reação à corrupção que tomou conta do sistema político nacional, o DEM afirma que os partidos precisam guardar como “lição” os acontecimentos das últimas semanas.

“O que a população vê dos partidos em questão é só bandalheira, corrupção, estelionato eleitoral”, afirma o presidente do PSTU, José Maria de Almeida. “O que nós defendemos há anos, que é a redução de impostos e a diminuição do custo de vida no País, esses movimentos conseguiram fazer em alguns dias”, diz o presidente do DEM, José Agripino Maia (RN). “Esses jovens não se sentem representados pelos partidos políticos e têm motivos para isso. Esperamos que isso sirva de lição para todas as legendas, inclusive as de oposição”, completa.

Para o PSOL, no entanto, o momento agora deveria ser o de estabelecer uma separação clara entre esses campos. Presidente nacional da legenda, o deputado Ivan Valente (SP) afirma que “partidos de esquerda” devem agir para impedir que a “direita” se aproprie dos movimentos que tomaram as ruas nos últimos dias. E sem aceitar que os partidos políticos sejam vistos como inimigos do processo deflagrado com as manifestações. “Os setores que estão condenando partidos e outras bandeiras carregam a intolerância, não têm noção de democracia”, diz ele.

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