Atitude hostil de manifestantes a representantes de partidos mostra que existe uma crise de representação. Para especialistas, partidos devem se comunicar mais com massas

Além dos episódios de vandalismo e violência, há outro fantasma que tira o foco e preocupa setores da sociedade em relação aos protestos que tomaram conta do País na última semana. Na quinta-feira (21), quando cerca de 1 milhão de pessoas foram às ruas , a atitude hostil de manifestantes em relação a integrantes de partidos políticos  em várias cidades trouxe à tona o temor de que o antipartidarismo crie um ambiente propício para um golpe de extrema-direita e para a prática do fascismo no País.

Especialistas ouvidos pelo iG reconheçam que existe uma crise de representação partidária, o que pode ser uma ameaça à democracia, mas ponderam que falar em fascismo é um exagero.

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“O fascismo é baseado no ódio, mas ele só se consolida quando é operado por um grande partido de massa que usa a força física para machucar pessoas e combater inimigos”, explica o filósofo e professor da USP Renato Janine Ribeiro. Ele explica que a “agenda do ódio” avançou no País, sobretudo contra homossexuais, mas não há uma mobilização de massa neste sentido.

Já o filósofo e professor da Unicamp Roberto Romano diz que desde a mobilização pelas Diretas em 1983 não se formou no Brasil um movimento tão amplo e ligado vários extratos populares e da classe média como o que está acontecendo nas últimas semanas, mas alerta que é preciso tomar cuidado em classificar as tendências e posições dos manifestantes. “O problema não está no fascismo das massas, o problema é que o sistema de representação brasileira não cumpre requisitos mínimos”, diz.

Protestos têm pautas difusas e são apartidários
Flavio Alves/AImagemFutura Press
Protestos têm pautas difusas e são apartidários

Na avaliação de Romano, as massas não estão sendo respeitadas, suas necessidades não são atendidas e, por isso, estão fartas das representações partidárias. Para ele, os partidos precisam parar de se lamentar e se comunicar com a população. “Historicamente, existe uma desconfiança nas classes letradas em relação à soberania popular. Em vez de fazer uma análise do que está falho, é mais fácil dizer que é fascismo”.

“Grande parte das manifestações mostram desconforto e descontentamento em relação aos partidos políticos, mas não tem como fazer política sem partidos”, analisa José Antônio Moroni, membro do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconomicos (Inesc). Para Moroni, é preciso discutir uma “profunda” reforma do processo político. “Não só uma reforma eleitoral, mas partidária, e também ter mais mecanismos de participação direta. A construção que nós temos hoje não representa mais a nossa sociedade.”

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Ribeiro e Romano também atribuem a crise em relação aos partidos à mudança do perfil do PT desde que está no governo federal. Antes de ocupar a presidência da República, a agremiação tinha tradição de consultar bases e conversar com movimentos sociais, que foi deixada de lado. “O que acontece hoje com o PT é que há uma confiança desmesurada na campanha de propaganda do governo, mas o João Santana (publicitário do governo) não resolve o problema das tarifas, as demandas dos sem-terra e índios. A propaganda ajuda, mas cabe aos partidos mobilizarem sua capacidade imaginativa e simbólica”, diz Romano.

Embora não arrisque os rumos que as manifestações vão tomar, o filósofo diz que as pessoas que estão participando delas têm informação, mas não estão organizadas. E faz um alerta aos partidos políticos: “Não existe vácuo em política, se os partidos não estão presentes, outras organizações ocupam esse espaço. Se querem que as massas amadureçam em relação à democracia e soberania, têm que estar junto a elas”, explica.

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Aldo Fornazieri, diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), vê como alternativa aos partidos tradicionais as organizações de movimentos sociais, como o próprio Movimento Passe Livre (MPL), o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). “Nas democracias ocidentais, a política deságua nos partidos, mas você pode ter uma organização que não tenha o objetivo de conquistar o poder e influenciá-lo”, disse. “Mas quem está protestando? A parte da sociedade que não está sendo representada, os setores de classe média baixa e média, que não se sentem representados pelos partidos, sindicatos e parlamentos atuais.”

Mesmo com o enfraquecimento de pautas após as tarifas do transporte terem sido reduzidas, Fornazieri elogia o papel político dos protestos que pararam as principais cidades do País. “Independentemente do que pode se tornar, o movimento teve um papel positivo de forma extraordinária, ele teve um papel de advertência para os governantes, de que eles devem dialogar menos com os banqueiros e empreiteiros, e mais com os movimentos sociais e a sociedade.”

Risco

O professor faz a ressalva de que, com a retirada do MPL dos protestos e a falta de pautas objetivas, somadas aos episódios de violência, o movimento pode se direcionar ao um “neofascismo de direita”. “Não restam dúvidas que existam elementos de grupos fascistas infiltrados, e há o perigo de que se dê origem a um partido de direita violento. É um risco que se corre quando se desencadeia uma energia que se desencadeou nas ruas e sem comando”, afirma Fornazieri.

Renato Janine Ribeiro acrescenta que os brasileiros têm uma cultura política fraca e por esse motivo grande parte da população não sabe o que propor. “A falta de cultura política leva à busca de uma salvação”, diz. Por isso, aparecem propostas absurdas, como uma nova eleição para todos os cargos públicos, em que políticos que já tiveram mandatos não podem concorrer. “Isso castiga os bons políticos e não resolve os problemas”.

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