Mesmo rejeitados, partidos tentam usar protestos para validar discurso

Por Luciana Lima - iG Brasília | - Atualizada às

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PSOL, PSB e PSTU tentam participação 'discreta' nas manifestações; PSDB não vai aos protestos, mas aproveita para tentar validar discurso contra a inflação

Ricardo Galhardo
Manifestante pede que partidos políticos fiquem fora da manifestação

Rejeitados pelos manifestantes, partidos políticos, principalmente de oposição ao governo da presidente Dilma Rousseff, vêm tentando se comportar de forma discreta nos protestos, mas não desistem de pegar carona nas mobilizações articuladas principalmente por jovens por meio das redes sociais. Entre os partidos que mais abordam ou tentam se misturar ao movimento estão o PSTU e o PSOL.

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A estratégia do PSOL, por exemplo, tem sido seguir em passeata, juntamente com os manifestantes, mas sem bandeiras. “Vou aos protestos e não tenho sido hostilizado. É claro que vou à paisana e não fico querendo fazer discurso em carros de som”, disse o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), que tem participado dos protestos no Rio de Janeiro, onde a tentativa de colocar um carro de som na última passeata foi rejeitada pelos manifestantes. Enquanto representantes da UNE tentavam fazer seus discursos em cima do carro, os manifestantes respondiam em coro: “Sem partido.”

“Nossos vereadores e deputados têm participado dos protestos, e muitos integrantes do PSOL também estão nas manifestações. Nossa intenção é nos colocarmos à disposição do movimento para ajudar caso seja solicitado”, explicou Chico Alencar.

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“A gente entende que há, na verdade, um repúdio aos partidos. O movimento iguala todos eles e demonstra uma grande insatisfação com a política. De qualquer forma, o recado que vem das ruas é um toque, um sinal de alerta para a classe política”, ressalvou Chico Alencar.

Erro

O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) considera um erro do movimento o repúdio aos partidos políticos. “Isso é um erro. Se o movimento cresce – como, aliás, está crescendo – é impossível algumas poucas pessoas manterem o controle dessa organização. Os partidos têm simpatizantes, têm estrutura, têm ação social. Deveriam ser tratados como aliados. A vida vai mostrar que é preciso ter mais gente que entende todo o trâmite relacionado a manifestações, que o apoio dos partidos é necessário.” “Quem está do lado do movimento, partido ou não, deve participar”, ressaltou Ivan Valente.

Já o PSTU, que tem sido hostilizado em todas as manifestações ao levantar bandeiras, continua com uma postura menos discreta. Na segunda-feira, no Rio de Janeiro, o partido chamou uma plenária para decidir a atuação no movimento. Na mesmo dia, enquanto protestos ocorriam em 15 capitais, o partido começou a encabeçar uma manifestação nacional para a quinta-feira (20). Nos protestos em todas as capitais, a população tem reagido à insistência dos militantes do PSTU com bandeiras.

Caldeirão de insatisfações

Os tucanos não têm participado abertamente dos protestos. Em São Paulo, a juventude do partido chegou a divulgar em nota a posição de não participação nas manifestações, por considerar que os protestos partem de um movimento político com o intuito de enfraquecer o governo de Geraldo Alckimin.

A orientação no partido, no entanto, é não perder a oportunidade de tentar validar o discurso idealizado para o presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG), de uma ameaça de retorno da inflação. Até agora, entretanto, os discursos têm se restringido ao Congresso Nacional ou à esfera partidária.

Os deputados e senadores tucanos entendem que há um “caldeirão de insatisfações” que deve ser aproveitado para dar corpo às críticas ao PT e o governo da presidente Dilma.

Há uma avaliação no PSDB de que são importantes, neste momento, as críticas sobre a realização da Copa das Confederações, que, segundo o discurso tucano, beneficiaria apenas as classes mais ricas. Além disso, líderes do PSDB querem incluir em seus discursos a questão da mobilidade urbana. A tese é que a mobilidade não melhorou nas grandes cidades e os protestos representam terreno fértil para esse discurso.

Mudança de estratégia

Já o PT, que nas primeiras duas semanas de protestos, tentou não deixar que as críticas atingissem a imagem da presidente, precisou mudar de estratégia ao perceber que os protestos extrapolaram os limites de São Paulo e tomaram dimensão nacional. Dilma Rousseff fez discurso apoiando o movimento e partiu para São Paulo para tratar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e com o prefeito Fernando Haddad sobre a redução da tarifa, principal motivo das manifestações na capital paulista.

Terça: Dilma, Lula e Haddad discutem redução de tarifa em São Paulo

Os passos da presidente no ambiente de mais de 200 mil nas ruas de todo País foram acompanhados de perto pelo publicitário do PT, João Santana.

Recado

Outro partido que tem participado, mas de forma discreta das manifestações, é o PSB, que pretende lançar a candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, à presidência da República, no próximo ano.

“A Juventude do PSB tem ido às manifestações, mas sem bandeira. É que a gente sabe que tem uma resistência muito grande, uma antipatia dos jovens, a essa palavra: partido. Só que nós somos um partido de esquerda, fomos formados nas manifestações populares e temos de entender o recado que vem das urnas”, comentou o deputado Márcio França (PSB-SP).

Manifestantes são refletidos no vidro de prédio, à esq., enquanto se manifestam no Rio
. Foto: APManifestantes são vistos perto de barricada em chamas no Rio. Foto: APPolicial é visto ferido no chão depois de confrontos com manifestantes durante protestos no Rio de Janeiro. Foto: APCarro foi incendiado por manifestantes no Rio. Foto: APEntre 10 mil e 15 mil manifestantes tomaram as ruas de dois bairros para protestar contra obras de projeto viário em Belém. Foto: Futura PressManifestante grita com policial durante protestos em frente do Congresso em Brasília. Foto: APManifestantes furam o bloqueio policial sobem a rampa do Congresso Nacional e chegam ao teto do Senado Federal. Foto: Agência BrasilProtesto 'Se a tarifa aumentar São Paulo vai parar' contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô, em São Paulo. Foto: Futura PressInício da passeata que saiu do Largo da Batata, na Zona Oeste de São Paulo. Foto: Futura PressEm Curitiba, movimento contra corrupção reúne milhares. Foto: Futura PressManifestantes aproveitaram o jogo da Copa das Confederações entre Taiti e Nigéria, às 16h, na Arena Mineirão, para protestar contra a situação do país. Foto: Futura PressProtesto contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô, em Porto Alegre (RS). Foto: Futura PressProtesto contra o aumento das passagens de ônibus, trens e metrô, em Salvador (BA)
. Foto: Futura Press

França argumentou que as eleições municipais em muitas cidades de São Paulo já haviam dado o sinal de um esgotamento da imagem dos partidos. “Vi muitos favoritos tanto do PT, quanto do PSB, serem derrotados por candidatos quase anônimos, de partidos pequenos. Esse recado já deveria ter sido compreendido”, analisou.

Perante os protestos, as movimentações do PSB também se dão no sentido de evitar o desgaste de Eduardo Campos. A manifestação contra o preço das passagens e a qualidade do transporte pública está marcada para a próxima quinta-feira no Recife.

Na terça (18), o governador se antecipou e anunciou a redução de R$ 0,10 na tarifa dos ônibus. Ao anunciar a redução, Eduardo Campos fez questão de se posicionar em favor do movimento e dizer que os protestos “podem fazer bem ao Brasil”. O governador também informou que a polícia está orientada a não agir com violência.

Recuo: Após onda de protestos, oito cidades reduzem o valor do transporte público

A mesma atitude foi tomada em pelo menos seis Estados brasileiros, que reduziram o valor da tarifa do transporte público após os protestos de segunda-feira. Foram oito municípios ao todo: Blumenau (SC), João Pessoa (PB), Foz do Iguaçu e Curitiba (PR), Recife (PE), Cuiabá (MT), Porto Alegre e Pelotas (RS).

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