Tom amistoso de Haddad surpreende Movimento Passe Livre em São Paulo

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Reunião do Conselho da Cidade com a presença do prefeito e de manifestantes abriu negociações para redução da tarifa na capital paulista

Durante reunião extraordinária com o Conselho da Cidade, que ocorreu na Prefeitura de São Paulo nesta terça-feira, Fernando Haddad (PT-SP) surpreendeu manifestantes e conselheiros pelo tom amistoso e postura mais flexível sobre a redução da tarifa do transporte público na capital. Haddad, que chegou a dizer que o aumento seria mantido, falou pela primeira vez que o “cenário de um congelamento não é delírio”.

Futura Press
Prefeito Haddad durante encontro com o Conselho da Cidado e representantes do MPL

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Citando a prefeitura como “a casa do povo” e dizendo aos integrantes do Movimento Passe Livre (MPL) que “todos estão bem na foto”, o prefeito não economizou comparações com sua juventude militante e elogios à manifestação pacífica de segunda-feira (17) que reuniu mais de 60 mil pessoas. “Não desmobilizem não. Está bonito e vocês estão bem na foto. O que importa é vocês darem um jeito nesse Brasil. Para mim está ótimo”.

A reunião com o prefeito ocorreu um dia após o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva dar um "puxão de orelha" em Haddad em sua página na rede social Facebook. “Não existe problema que não tenha solução. (...) Estou seguro, se bem conheço o prefeito Fernando Haddad, que ele é um homem de negociação”, disse Lula. E foi assim que Haddad se posicionou. Presente durante toda a reunião, o prefeito viu o Conselho da Cidade, composto por 136 representantes sociais, apoiar massivamente o protesto.

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Após onda de protestos, oito cidades reduzem o valor do transporte público

Haddad se comprometeu ainda a examinar planilhas e avaliar lucros dos empresários e se necessário “cortar a gordura”. “Vamos ver o que dá para fazer, se a solução é para aumentar a arrecadação ou o imposto sobre a gasolina”, explicou. “A sociedade brasileira pode decidir que não vai pagar mais passagem. Se a tarifa for congelada a R$ 3,00, em 2016, nos valores de hoje, vamos ter que arrumar R$ 2,7 bilhões para acomodar o sistema.”

Alex Falcão/Futura Press
Integrantes do MPL participaram do encontro com conselho. No centro, a manifestante Mayara Vivian

Além disso, o prefeito deixou claro que em nenhum momento desmereceu o protesto. “Eu nunca utilizei nenhuma palavra que desmerecesse o movimento. Nunca os chamei de vândalos ou baderneiros. Isso não faz parte do meu vocabulário político”, disse o prefeito se referindo ao governador Geraldo Alckmin (PSDB), que criticou duramente os protestos na semana passada. Em muitos momentos, na reunião de hoje, Alckmin chegou a ser chamado de “desgorvernador” e “verme” pelos integrantes do conselho.

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Entre uma fala e outra, o prefeito era interrompido pelo coro “Revoga, Haddad. Apela a cidade” e por avisos de revogações que ocorriam no país durante o encontro. “Porto Alegre revogou! E agora, Haddad?”, disse um dos integrantes do MPL. “Não sou cego, gente, estou vendo o que está acontecendo. Não é uma questão municipal, não, é um problema nacional”, explicou.

A onda de protestos, que levou mais de 200 mil às ruas de todo o País, já provocou mudanças em cidades de pelo menos seis Estados brasileiros. Foram oito municípios que reduziram o valor da tarifa do transporte público. São eles: Blumenau (SC), João Pessoa (PB), Foz do Iguaçu e Curitiba (PR), Recife (PE), Cuiabá (MT), Porto Alegre e Pelotas (RS). Nesta terça-feira, a presidente Dilma Rousseff se reuniu com Lula para discutir a questão.

Debate

O clima foi tranquilo durante toda a reunião, que durou mais de três horas, no centro da capital. No entanto, houve momentos que a explicação do prefeito não agradava Mayara Vivian, uma das representantes do MPL. “Os trabalhadores são 50% da tarifa. É folha de salário de motorista e cobrador, que esse ano teve 10% de reajuste. Nos últimos três anos teve 24%”, disse Haddad ao comentar os fatores que formam a tarifa. Nesse momento, ele foi interrompido pela manifestante: “Eu fui lá (sindicato dos motoristas e cobradores) e eles disseram que não tiveram reajuste”. O petista respondeu: “Você está disposta a abrir mão da sua demanda se eu estiver certo? Quer apostar?”, desafio Haddad.

A declaração arrancou risos de conselheiros e jornalistas. E o prefeito continuou: “Querida, eu estou aqui na frente de pessoas que respeito. Você acha que vou trazer para cá um dado que eu não conheça?”. Ele então se virou aos conselheiros e perguntou: “Tem algum cobrador ou motorista aí?”. Ao receber a confirmação de que houve um reajuste de 10% no dia 1º de maio, o prefeito finalizou: “Querida, você está preparada para o debate, mas eu também estou. Eu conheço a cidade.”

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