Documento pode mudar versão sobre descoberta do Araguaia por militares

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Encontrado no Arquivo Público do Estado de São Paulo, documento foi encaminhado à Comissão Nacional da Verdade, que investiga massacre

Um singelo documento de duas páginas encontrado entre os milhões de papéis digitalizados no Arquivo Público do Estado de São Paulo, com o endereço de um militante do PC do B, no Rio, joga luzes sobre a descoberta da Guerrilha do Araguaia pelas Forças Armadas.

O endereço é a Rua Visconde de Maranguape, 26, Lapa, no centro do Rio, onde morava o estudante de farmácia e bioquímica da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Antônio Teodoro de Castro, desaparecido no Araguaia. O local foi entregue aos militares por um militante da Ação Libertadora Nacional (ALN) preso e torturado em São Paulo dois meses antes do primeiro ataque das Forças Armadas à guerrilha, ocorrido no dia 12 de abril de 1972.

“O endereço foi o rastro. Eles seguiram e foram bater no Araguaia”, diz Maria Eliana de Castro, irmã do guerrilheiro que há 40 anos procura vestígios de Antônio Teodoro. Ela encontrou o documento pesquisando o arquivo e o encaminhou à Comissão Nacional da Verdade, encarregada de reconstituir o massacre e extermínio do mais contundente episódio dos anos de chumbo, organizado pelo PC do B. Ocorrido entre 1972 e 1975, o conflito deixou cerca de 80 mortos e 67 militantes desaparecidos.

Documento encontrado no no Arquivo Público do Estado de São Paulo sobre a Guerrilha do Araguaia. Foto: ReproduçãoDocumento encontrado no no Arquivo Público do Estado de São Paulo sobre a Guerrilha do Araguaia. Foto: ReproduçãoDocumento encontrado no no Arquivo Público do Estado de São Paulo sobre a Guerrilha do Araguaia. Foto: ReproduçãoDocumento encontrado no Arquivo Público do Estado de São Paulo sobre a Guerrilha do Araguaia. Foto: Reprodução

No documento, o que chama a atenção é o relato do ex-militante da ALN Gilberto Thelmo Sidney Marques, confirmando - depois de acareado com outro preso da mesma organização, Raimundo Leite de Almeida, - que o “aparelho” em que ficara dois meses no Rio havia sido cedido por Antônio Teodoro.

O depoimento e acareação entre Almeida e Marques são de 21 e 22 de fevereiro de 1972, cinquenta dias antes da eclosão do conflito, iniciado com um ataque das Forças Armadas em 12 de abril de 1972, quando Antonio Teodoro de Castro, já conhecido como Raul na guerrilha, encontrava-se no Araguaia.

As datas demonstram, segundo as suspeitas levantadas por Eliana, que, embora não tivesse informações precisas, o Centro de Informações do Exército (CIE) já sabia que militantes do PC do B haviam desaparecido em massa das cidades. As pegadas apareciam no caminho da região onde se daria o conflito.

A confirmação viria com a prisão, em 17 de março de 1972, de outro estudante fichado por participação no Congresso de Ibiúna, em 1968, Pedro Albuquerque que havia desertado da guerrilha junto com a mulher, Tereza Albuquerque, em novembro de 1971.

A versão até aqui difundida pelo próprio PC do B responsabiliza o ex-militante pela descoberta do foco. Seu nome é citado como traidor inclusive no mais importante documento que produziu sobre a guerrilha, o Relatório Arroyo, escrito no calor do conflito por um dos comandantes, Ângelo Arroyo.

Preso e torturado, Albuquerque, de fato, levou os militares até a região, mas seu depoimento teria tido a relevância de confirmar as suspeitas levantadas com a revelação do endereço do Rio. No mesmo documento está anexado um relato dos órgãos de informação onde se lê que Antônio Teodoro de Castro é apontado como “rede de apoio” de Marques que, no interrogatório, afirma que o amigo e conterrâneo (os dois são cearenses) “deve ter entrado na clandestinidade”. 

Os militares já haviam concluído o primeiro ataque à guerrilha quando viria, pelo depoimento de outro militante da esquerda armada, José Roberto Bron de Luna, em julho de 1972, a confirmação de que Antonio Teodoro se encontrava em Xambioá (TO). O informe lista os nomes de outros cinco militantes (Arildo Valdão, erroneamente identificado como Arlindo, Lucia Maria de Souza, Elmo Correa, Hélio Luiz Magalhães Navarro e João Carlos Campos Wisnesky, o Paulo Paquetá, que abandonou a área no final da guerrilha e é um dos poucos sobreviventes) que se deslocaram do Rio no mesmo período.

Em agosto de 1972, diz o informe do CIE, o guerrilheiro estava integrado ao “Grupo do Castanhal do Alexandre”, base do destacamento B da guerrilha. A cronologia em que o documento está inserido confirma que bem antes da prisão de Albuquerque os militares seguiam o rastro do PC do B.

“O documento reforça a suspeita de que com as quedas na guerrilha urbana o CIE monitorava a trajetória de Antônio Teodoro de Castro e sabia dos deslocamentos da esquerda em direção ao Araguaia bem antes da prisão de Pedro Albuquerque. Os militares só não tinham informações sobre a localização dos destacamentos”, diz a jornalista Myrian Alves, pesquisadora da guerrilha e integrante do grupo organizado pelo Ministério da Defesa para ajudar na reconstituição do episódio.

Ela lembra que por meio de uma manobra, seguida de uma operação ostensiva, a Mesopotâmia, em setembro de 1971, os militares prenderam militantes de várias organizações urbanas que se dirigiam à região, mas nenhum do PC do B. A indicação de uma região apontada como A Grande Área de guerrilha, cujas suspeitas apontavam para o Bico do Papagaio, na confluência de Goiás (hoje Tocantins), Maranhão e Pará, também já aparecia nos documentos encontrados com Carlos Marighella, o fundador da ALN, assassinado em São Paulo em dezembro de 1969. Tudo leva a crer que se as organizações urbanas não tivessem sido destroçadas antes, a esquerda armada se reunira numa grande zona liberada no coração da Amazônia.

Os indícios mais fortes para os militares se fixarem no circuito da guerrilha viriam com a descoberta do endereço no Rio, corroborados com a prisão de Pedro Albuquerque. O então estudante, que hoje é professor de história no Ceará, sempre afirmou que os militares já sabiam da guerrilha quando o prenderam. Ainda assim, foi considerado pelo PC do B como traidor, uma versão que poderá se modificada pelas investigações da Comissão Nacional da Verdade.

No dia 12 de abril de 1972, já seguros da presença de guerrilheiros entre os camponeses do Araguaia - eram cerca de 70 militantes, divididos em três destacamentos organizados a partir de 1966 - Marinha, Aeronáutica e Exército dariam início aos ataques. Na primeira fase da campanha, que se estendeu até setembro, fizeram prisioneiros, entre os quais 12 ainda estão vivos - o deputado José Genoino (PT-SP), hoje condenado no mensalão, é um deles.

A partir de então, com a subversão urbana já dominada, o regime militar não fez mais concessões: optou pelo extermínio, matando, entre comunistas e camponeses que aderiram a guerrilha, cerca de 80 militantes, 26 deles feitos prisioneiros e executados friamente no meio da mata. Antônio Teodoro de Castro, segundo relato de militares e antigos guias do Exército, foi levado em fevereiro de 1974 de helicóptero com outros dois companheiros até uma clareira próxima a um garimpo conhecido como matrinxã, colocado de joelhos, e fuzilado quase a queima roupa. Os corpos foram abandonados numa cova raza.

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