'Querem impor uma meia verdade', dizem militares sobre Comissão da Verdade

Por Wilson Lima - iG Brasília |

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Representantes do Exército e da Marinha questionam versão dada pelo presidente da Comissão de que a máquina de repressão não funcionava descolada do Palácio do Planalto

Representantes dos militares questionaram as informações dadas, com exclusividade ao iG, pelo presidente da Comissão Nacional da Verdade (CNV), Paulo Sérgio Pinheiro, de que a máquina repressiva instituída durante o Regime Militar não funcionou descolada de atos do Palácio do Planalto.

Entrevista exclusiva: Extermínio e tortura tiveram aval dos presidentes militares

Na entrevista, Pinheiro afirma que, à exceção de Castelo Branco e de João Batista Figueiredo, todos os outros presidentes militares sabiam e ordenaram atos de tortura, extermínio ou ocultação de cadáveres.

O presidente do Clube Naval do Rio de Janeiro, o vice-almirante Ricardo Antônio da Veiga Cabral, afirmou que a Comissão da Verdade vem cometendo algumas generalidades, apesar de admitir “excessos dos dois lados”. “Eu acho que ser essa uma generalização sem muita análise. É algo feito sem dilapidar a história como deve ser feito”, criticou Cabral.

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Já o assessor especial da presidência do Clube Militar do Exército, general Clóvis Purper Bandeira, afirmou que “duvida muito” que ações de tortura tenham sido ordenadas por atos do Poder Executivo. “Uma meia verdade é pior do que uma mentira inteira”, disse.

Em março, as duas entidades, ao lado do Clube da Aeronáutica, divulgaram uma “mensagem à nação brasileira” criticando os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Em uma nota conjunta, as três entidades, tidas como as mais representativas das Forças Armadas, afirmaram que “o povo brasileiro, no início da década de 1960, em movimento crescente, apelou e levou as Forças Armadas Brasileiras à intervenção, em Março de 1964, num governo que, minado por teorias marxistas-leninistas, instalava e incentivava a desordem administrativa, a quebra da hierarquia e disciplina no meio militar e a cizânia entre os Poderes da República”.

Desde a instalação da Comissão da Verdade, em maio do ano passado, os militares questionam o fato de não serem ouvidos ou de não terem sido chamados a depor para dar à comissão “o outro lado” da história. Algumas correntes entre os militares vão além e acreditam que os trabalhos da Comissão da Verdade têm o objetivo irrestrito de alterar a validade da Lei da Anistia. A lei concedeu anistia a todos os que cometeram crimes políticos ou conexão com eles durante o Regime Militar.

Para os militares, as intervenções feitas no período tinham o objetivo irrestrito de conter atividades terroristas dos membros da esquerda. O objetivo foi, segundo eles, apenas preservar a ordem pública e a paz social no Brasil durante os anos de chumbo. Os militares afirmam que a demonstração de ordem no período ajudou o Brasil a ter avanços na economia, na área social e política. Os militares ainda classificam o trabalho da Comissão da Verdade como um grande ato de “perseguição às forças armadas”. “A Comissão causa uma maior perseguição às Forças Armadas enquanto eles posam como defensores da democracia”, analisa o general Clóvis Purper Bandeira.

Ainda durante a entrevista, Pinheiro mencionou que a comissão apenas aguarda a conclusão da exumação dos restos de João Goulart pra revelar que ele foi morto por envenenamento e não de ataque cardíaco. Ele morreu na Argentina em 1976. Segundo o general Bandeira, independentemente dos laudos sobre Goulart, a culpa sempre “recairá contra os militares”. “O fato dele ter sido envenenado ou não, não prova coisa alguma. Ele pode ter sido executado por um inimigo político. Não se pode descartar essa possibilidade. Mas para a Comissão (da Verdade), a culpa sempre será dos militares”, assevera Bandeira.

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